O Extra é um Gênio!?

Capítulo 430

O Extra é um Gênio!?

A luz do sol penetrava suavemente através das cortinas, pálida e macia, aquecendo as extremidades do quarto antes que qualquer dos dois se mexesse.

Charlotte foi a primeira a se mover.

Seus dedos, ainda levemente curvados contra a camisa de Noel, apertaram-se por um instante como se estivessem agarrados a um sonho que não queria deixar escapar. Depois, ela despertou lentamente — olhos perdidos, cílios tremendo — até perceber onde estava.

E em quem ela estava apoiada.

Seu respirar ficou preso, quase imperceptível.

Noel sentiu o movimento antes mesmo de abrir os olhos. Piscou uma vez, o mundo se ajustando com dificuldades: o cabelo rosa de Charlotte espalhado sobre seu peito, sua testa pressionada contra ele, as pernas entrelaçadas com as dele debaixo das cobertas. A sua temperatura, agora familiar, penetrou nele como a última lembrança da noite anterior.

"Bom dia", murmurou.

Charlotte congelou por meio segundo — depois gemeu suavemente e enfurnou o rosto contra ele, envergonhada. "Noel… não diga assim…"

Ele não pôde evitar o pequeno sorriso que se contorcia no canto da boca. "Como o quê?"

"Como—" ela mascou contra a camisa dele, "—como se tivéssemos cometido crimes emocionais ontem à noite."

Ele soltou uma risada baixa, passando os dedos cuidadosamente pelo cabelo dela, afastando-o do rosto. "Tenho certeza de que o único delito foi você quase me sufocando."

Ela levantou a cabeça só o suficiente para lançar um olhar suave de reprovação. "Não fui tão apaixonada…"

"Você não me deixou respirar duas vezes."

Um leve rubor tomou conta de suas bochechas, mas um sorriso, cansado, frágil, ainda assim verdadeiro, apareceu por trás dele. "Bom… você não me impediu."

"Sim", disse ele suavemente, "não impedi."

Silêncio confortável se instaurou entre eles.

Charlotte se mexeu novamente, apoiando o queixo levemente sobre o peito dele, olhos semi-cerrados, observando-o. "Você dormiu um pouco?" ela sussurrou.

"Um pouco", Noel admitiu. "Não muito."

"Por minha causa?"

Ele balançou lentamente a cabeça. "Porque meu cérebro me odeia."

Isso provocou uma risada silenciosa — suave, calorosa, tudo o que ela não conseguiu produzir na noite anterior.

Charlotte relaxou por completo, a tensão derretendo de seus ombros. "Podemos ficar assim por… mais um pouco?" ela perguntou baixinho. "Só um pouquinho?"

Noel olhou para ela — para a esperança silenciosa em seus olhos, para a suavidade que não tinha estando ontem — e assentiu.

"Sim", murmurou. "Podemos."

Ficaram ali por um tempo — envolvidos na calma calorosa da manhã — até Charlotte se mexer novamente, traçando círculos lentos contra o peito de Noel com a ponta do dedo.

"Noel…?" ela murmurou.

"Hm?"

Sua voz suavizou com um tipo de coragem frágil. "Quero ter alguns filhos. Quanto antes, melhor."

O corpo de Noel travou instantaneamente.

Seu coração parou. Seu cérebro travou. "… Charlotte", conseguiu gaguejar, "você está querendo me matar logo de manhã?"

Ela piscou inocentemente. "Por quê? Foi rápido demais?"

"Rápido demais?" Noel puxou uma mão pelo rosto. "Você não pode simplesmente jogar uma declaração que muda vidas antes do café."

Charlotte inclinou a cabeça, sem se incomodar. "Tenho pensado nisso. Muito."

"E é isso que me preocupa."

Ela não riu — permaneceu próxima, com seus olhos dourados fixos nele.

"Noel," ela disse calmamente, "Elyra disse que está pronta. Elena disse que pensaria nisso algum dia. Mas eu… tenho menos tempo do que vocês. Mesmo que eu tenha sorte, mesmo que viva com cuidado… chegarei aos meus sessenta anos. Talvez um pouco além, mas sei que precisarei usar mais Bênçãos, e isso vai diminuir cada vez mais."

A expressão de Noel se fechou.

"Mas ainda assim são anos, Noel," ela continuou suavemente, "anos longos. Não vou morrer amanhã. Não sou frágil. Mas…" sua voz ficou mais suave. "…as bênçãos tiram algo a cada uso. E por causa disso, não quero esperar pra sempre."

Noel sentiu uma dor aguda no peito, como se algo se torcesse com força lá dentro.

Charlotte percebeu imediatamente — é claro que percebeu. Ela levantou a mão, tocando delicadamente a face dele, passando o polegar suavemente pela pele.

"Desculpe", sussurrou ela. "Não quis deixar seu humor cair. Só quis dizer… quero viver enquanto puder. Viver de verdade."

Noel se apoiou na sua mão, fechando os olhos por um longo segundo. "Não é sua culpa. É só… entre o que você disse e o que Nicolas me contou…"

Ele respirou lentamente. "É muita coisa pra processar de uma vez."

Os olhos de Charlotte se arregalaram, preocupação passando por eles. "Noel, eu não quis te fazer pensar nele. Desculpa."

Ela se inclinou mais perto e deu um beijo suave no canto da boca dele. "Melhorou?"

"…Um pouco", ele respirou.

Charlotte sorriu levemente, tocando seus lábios novamente. "Talvez você precise de outro. Só pra garantir."

A boca de Noel se curvou num sorriso cansado e leve. "Pois é. Acho que preciso."

Ela se inclinou, o hálito quase tocando o dele. "Então aqui."

O beijo foi suave — terno, enraizador — um tipo de calor que afasta o peso dos ombros dele, nem que fosse por um instante.

Eventualmente, o calor do momento se acalmou, e Charlotte recuou, respirando com mais estabilidade do que na noite anterior.

"Deveríamos levantar", ela murmurou, embora ainda não se mexesse.

"Sim", respondeu Noel, passando a mão suavemente pelo braço dela. "Antes que a Seraphina bata na porta."

Charlotte soltou uma risada tímida e genuína — daquelas que ele não ouvia há dias. "Ela bateria, não é?"

"Com certeza."

Noel e Charlotte finalmente se levantaram da cama. Charlotte enrolou-se sob os lençóis com um olhar tímido, muito diferente do modo como tinha agido na noite anterior. Noel sorriu de leve, ganhando um olhar sério dela.

"Não me olha assim."

"Não estou olhando", ele disse.

"Você está sim."

Ele se virou obediente — na maior parte — enquanto ela se vestia. Depois, eles trocaram de lugar, Charlotte se esforçando ao máximo para não ficar encarando enquanto ele vestia a camisa.

"Você está me encarando", disse Noel, sem se virar.

As bochechas de Charlotte ficaram coradas. "Não, não estou."

"Você sim."

Ela cruzou os braços, visivelmente sem jeito. "Você começou."

Ele abriu um sorriso enquanto fechava o casaco.

Quando ambos estavam completamente vestidos, a suavidade da manhã havia se instalado entre eles — mais próximos, mais calmos, mais quentes.

Um leve toque na porta chamou atenção.

"Senhor Thorne? Lady Charlotte?"

Uma voz de criada veio do outro lado — educada, clara.

Charlotte desviou um fio de cabelo para trás da orelha. Noel ajustou a gola e abriu a porta.

A criada fez uma leves reverência. "A Alteza Princesa Seraphina solicita sua presença no salão de jantar ao leste. O café da manhã já está preparado."

Ela hesitou um momento antes de acrescentar: "O Príncipe Dior também virá."

Noel piscou uma vez. "Dior acorda tão cedo assim?"

Charlotte segurou um sorriso. "Seja gentil."

"Sou gentil."

A criada tentou — e não conseguiu — disfarçar a própria sobrancelha levantada, quase sorrindo.

"Por favor, sigam-me", disse ela.

Ao entrarem no corredor, Noel olhou para Charlotte. Ela estava mais reta hoje — não escondia sua tristeza, mas também não parecia desmoronar por causa dela.

Ele relaxou um pouco por dentro. 'Bom', pensou. 'Ela está recuperando a força.'

O salão de jantar ao leste já estava iluminado, com luz do sol atravessando as janelas altas, refletida em mármore polido e bandejas de prata. A mesa longa estava elegantemente posta, embora apenas uma pessoa estivesse sentada lá.

Seraphina.

Ela levantou o olhar ao se aproximarem, expressão sempre composta, porém suavizada pelo luar quente.

"Bom dia", disse. "Dormiram bem?"

Charlotte quase engasgou de surpresa. Noel sentiu o espírito fugir de seu corpo por um instante.

"Nós— ah— sim", respondeu Noel, rápido demais. "Muito confortável."

"Muito", reforçou Charlotte, com excesso de rigidez.

Os olhos de Seraphina se estreitaram um pouco — não por desconfiança, apenas por diversão. "Fico feliz em ouvir. Ficar na casa pela primeira vez pode ser assustador."

Noel aclarou a garganta. "Não, não, foi… ótimo."

Charlotte concordou vigorosamente. "Muito acolhedor. Muito tranquilo. Muito… agradável."

Seraphina escondeu um sorriso por trás de sua xícara de chá. "Se é que diz."

Antes que Noel pudesse pensar em uma estratégia para mudar de assunto, as portas se abriram e passos ressoaram — firmes, deliberados.

Dior entrou.

Seu cabelo prateado-branco estava levemente bagunçado, olhos esmeralda atentos mesmo tão cedo. Ele não vestia roupas reais — apenas um casaco escuro, ajustado, discreto, mas de qualidade.

Ele pausou por um instante ao ver os dois convidados.

"Noel. Charlotte."

"Bom dia", disse Charlotte com educação.

Noel levantou a mão em cumprimento, descontraído. "Prazer em te ver, Dior."

Dior parou no meio do caminho e encarou-o como se tivesse acabado de falar em uma língua demoníaca antiga.

"…O quê", Dior respondeu em tom chato. "Quem é você e o que fez com Noel?"

Charlotte apertou os lábios, segurando o riso.

Noel levantou uma sobrancelha. "O que? Eu posso cumprimentar as pessoas."

"Não assim", Dior retrucou. "Você está com febre? Devo chamar um curandeiro?"

Ele até se inclinou um pouco mais, inspecionando Noel com exagerada seriedade. "Pisca duas vezes se estiver morrendo."

Seraphina suspirou. "Dior, sente-se."

Dior fez uma careta, mas obedeceu, sentando-se na cadeira do lado oposto a Noel, com graça treinada e um olhar perigoso — metade curiosidade, metade irritação.

Noel sorriu. "Legal te ver também."

"Você está me preocupando", Dior murmurou. "Para com isso."

Seraphina colocou os talheres suavemente na mesa. "Agora que todos estão aqui, vamos comer."

O café da manhã entrou em um ritmo estranho, porém confortável — talheres tilintando suavemente, o sussurrar ocasional de conversas, o aroma de pão quente e chá de ervas se espalhando pelo salão.

E mesmo assim… Noel não conseguia ignorar a pequena tensão de estar sentado exatamente na frente de Dior.

Eles não eram mais inimigos, mas a história insiste em permanecer.

Cada vez que Noel levantava sua xícara, o olhar afiado de Dior o seguia por meia segunda — não hostil, apenas… avaliando.

Como se tentasse descobrir qual versão de Noel ele estava lidando naquele dia.

Charlotte percebeu a postura tensa de Noel e, com um gesto delicado, tocou levemente o joelho dele por baixo da mesa — uma conexão pequena para acalmar.

Noel soltou os ombros, suspirando silenciosamente.

Seraphina terminou seu chá, colocando a xícara com um clique suave.

"Hoje à tarde", ela disse com elegância, atraindo toda atenção, "voltaremos à academia."

Charlotte se endireitou. Noel piscou. Dior simplesmente fez uma pausa no meio da mordida.

"Vou providenciar os carruagens para a volta", continuou Seraphina. "Dado tudo que aconteceu recentemente, não podemos correr riscos."

Ela lançou um olhar significativo para Dior e ela mesma.

"Dior e eu não podemos mais caminhar pelo Vale de cabeça livre. A segurança será reforçada após cada incidente."

Dior bufou levemente. "Finalmente o pai está ouvindo."

"Porque ele tem que ouvir", disse Seraphina, baixinho, mas com postura firme. "Nossos inimigos foram longe demais e não podemos tratar isso como acidentes isolados."

Charlotte assentiu devagar. "Então partiremos após o almoço?"

"Sim", confirmou Seraphina. "Empacote o que precisar. Os funcionários do castelo vão preparar provisões para a viagem."

Noel se recostou um pouco, pensativo. "Dá uma sensação estranha voltar."

Dior concordou com um som. "Costuma ser assim."

Seus olhares se encontraram por um instante — breve, neutro, quase uma compreensão — antes de ambos olharem para longe rapidamente.

Seraphina se levantou com graça.

"Terminem de comer, depois encontrem-me no salão oeste. Vamos revisar os detalhes finais."

Dior também se levantou, ajustando o casaco. "Tente não fazer nada estranho antes disso", disse, de forma direta, para Noel.

Noel levantou uma sobrancelha. "Como estranho?"

"Exatamente", Dior murmurou, já caminhando em direção à porta.

Charlotte soltou uma risada tímida, quase genuína, no meio do chá.

Noel suspirou. "Ele… está ficando mais amigável, acho?"

Seraphina olhou por cima do ombro, com um leve sorriso que começava a aparecer nos seus lábios.

"Para Dior", ela disse, "isso é amizade."

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