O Extra é um Gênio!?

Capítulo 448

O Extra é um Gênio!?

A casa de repousso estava silenciosa.

Não era o silêncio caloroso e animado do dia, quando as crianças sussurravam segredos debaixo das cobertas — mas o tipo que se instala pesado após a meia-noite, quando até as lamparinas parecem respirar mais devagar.

Noel sentou-se na ponta da cama estreita que as freiras haviam preparado para ele, os cotovelos apoiados nos joelhos, os dedos entrelaçados. O quarto era simples — uma escrivaninha de madeira, uma janela pequena, uma única vela queimando baixinho — mas ele o reconheceu imediatamente.

Era o mesmo quarto em que já dormira com Marcus, Laziel e Garron durante os meses do ataque há tempos atrás.

Nesta noite, ele estava sozinho.

Noir repousava enroscado ao seu lado, a pelagem preta mesclando-se às sombras, os olhos violetas observando-o silenciosamente.

A calmaria pressionava de todos os lados.

Não havia risadas das crianças pelas paredes, nem Charlotte soprando uma melodia em algum corredor, nem passos distantes das freiras que trabalhavam até tarde.

Apenas Noel.

E o peso de tudo que tinha mudado naquele dia.

Ele esfregou lentamente a nuca, deixando escapar uma respiração funda.

'Desta vez, eles não saíram correndo. Ficaram. Mas isso não significa que tenham aceitado alguma coisa.'

Noir se moveu, as garras tocando suavemente o cobertor enquanto se sentava.

'Você está pensando demais,' ela sussurrou na mente dele.

Noel inicialmente não respondeu.

Ele fixou o olhar na vela pálida, assistindo a pequena chama tremer.

Ele não tinha medo dos anciãos — não de verdade.

Mas compreendia o perigo de uma Igreja dividida. E entendia ainda mais o que poderia acontecer se a oposição se tornasse mais audaciosa.

Levantar-se lentamente.

Pegar o casaco.

Alisar a gola.

Noir subiu com destreza até seu ombro, acomodando-se ali com a prática de quem já conhece o caminho.

'Você vai vê-los,' ela disse. Não era uma pergunta.

Noel finalmente falou, a voz tranquila porém firme.

"Sim. Preciso ouvir o que eles realmente pensam. Sem a multidão… sem Charlotte… sem Orthran."

Ele abriu a porta, as dobradiças rangendo suavemente.

O corredor lá fora estava escuro, iluminado apenas por uma única lamparina.

Sob as paredes, as sombras se alongavam.

Depois saiu.

"Vamos," ele murmurou.

A cauda de Noir passou assobiando pela bochecha dele.

E juntos, desapareceram no corredor da meia-noite, rumo à silhueta imponente da Catedral.


A Catedral parecia maior à noite.

A luz da lua banhava suas paredes de pedra branca, tornando-as prateadas; as janelas de vitrais não brilhavam mais com cores sagradas, refletindo a escuridão ao redor. As grandes portas de entrada estavam fechadas para o público neste horário, mas uma passagem lateral ardia com uma luz tênue de lamparina.

E era para lá que Noel se dirigia.

Seus passos ecoavam suavemente no mármore das escadas, enquanto Noir equilibrava-se no seu ombro, com as orelhas inquietas a cada mudança de vento.

Quando chegaram à porta lateral, Noel não bateu.

Empurrou a porta.

O corredor interno estava escuro, iluminado por velas quase apagadas. Uma tensão familiar pairava no ar — pesada, cautelosa, expectante. Noir olhou para cima, atento.

'Eles estão dentro,' ela murmurou.

Noel deu um passo à frente em direção ao cômodo no fim do corredor — uma sala geralmente usada para reuniões e registros dos clérigos. Nesta noite, vozes sussurravam atrás da porta. Baixas. Tensas.

Ele colocou a mão na maçaneta.

Empurrou.

Assim que entrou, o silêncio tomou conta.

Oito anciãos estavam lá dentro — todos aqueles que resistiam à reforma de Charlotte. Reunidos ao redor de uma longa mesa de madeira, com pergaminhos espalhados e velas tremulando sobre seus rostos severos. Alguns Noel reconhecia de antes; outros lembrava-se de tê-los visto no dia em que lutou ao lado de Charlotte durante o ataque há meses.

Olhares se aguçaram.

Um ancião resmungou baixinho.

Outro cruzou os braços.

Rhedon estava à cabeceira da mesa, com uma expressão indecifrável.

Noel deu um passo adiante lentamente, deixando a porta fechar-se atrás de si.

"Estou aqui para falar," ele disse claramente. "Tudo o que vocês não puderam dizer diante dos outros… digam agora para mim."

Um murmúrio percorreu o grupo — irritação, descrença, resistência.

"Você?" perguntou um ancião com zombaria na voz. "Não devemos dar explicações a uma criança."

Outro acrescentou com dureza: "Este não é lugar para você. Assuntos de doutrina e fé não são para pessoas de fora."

A cauda de Noir deu um movimento irritado, mas Noel levantou a mão para acalmá-la antes que ela falasse.

"Não estou aqui para brigar com vocês," ele continuou. "Quero entender. Quero saber por que vocês se opõem a isso. Por que não puderam dizer abertamente."

Alguns anciãos trocaram olhares, divididos entre ofensa e… algo mais suave. Algo mais próximo do medo.

Finalmente, Rhedon deu um passo à frente.

"Lembramos do que você fez," ele disse. "Você salvou o Santo durante o ataque. Todos nós sabemos disso."

Houve uma pausa.

Depois, seu tom ficou mais firme.

"Mas isso vai muito além disso, rapaz."

"Eu sei."

Os anciãos ficaram encarando, tensos e avaliando.

"E é exatamente por isso que precisamos conversar," Noel acrescentou em voz baixa.

O ambiente ficou mais denso, como se o ar tivesse se cristalizado — os respirações se tornaram curtas, as ombreiras se endireitaram, e os velhos se prepararam como quem espera uma tempestade.

Rhedon cruzou as mãos atrás das costas.

"Muito bem," disse. "Querem sinceridade? Então, ouçam."

Ele não elevou a voz, mas a força de seu tom preencheu a sala.

"Não temos medo da mudança," começou. "Tememos o colapso."

Outro ancião deu um passo à frente — um homem magro, com olhos agudos e linhas de preocupação profunda.

"Por décadas," disse, "nos nossos povos sobreviveram à guerra, à fome, à corrupção… porque acreditavam nos ensinamentos de Elarin. A existência dele sustentou esta nação quando tudo mais falhou."

Um terceiro bateu um pergaminho na mesa.

"E agora o Santo quer reescrever sua história. Da noite para o dia. Você entende o que isso significa para milhões que construíram suas vidas em torno dessa doutrina?"

Deixou-os falar.

Deixou que revelassem a ferida verdadeira.

Rhedon respirou fundo.

"Não resistimos a ela porque queremos. Resistimos porque, se avançarmos rápido demais, toda a Igreja pode colapsar sob seu próprio peso."

Outro ancião murmurou baixinho:

"A fé é frágil, rapaz. Uma vez quebrada… ela não volta."

Noel, enfim, deu um passo mais perto da mesa, com os olhos firmes.

"E quanto à verdade?" perguntou. "Não importa que todos estejam seguindo uma história que já está desmoronando?"

Vários anciãos estremeceram ao ouvir a palavra verdade.

Mas Noel não parou.

"Vocês já estão perdendo os fiéis mais jovens," continuou. "E desde que a Santa Charlotte disse que a doutrina deve mudar — por causa dos acontecimentos recentes — ela plantou uma semente de dúvida em todos."

Alguns anciãos se endireitaram, com os olhos arregalados.

Noel se aproximou o suficiente para suas palavras pesarem mais.

"Essa semente está crescendo. As pessoas estão de olho agora. Estão alertas, questionando. Se não agirmos enquanto todos estão atentos… corremos o risco de perdê-los."

Os anciãos trocaram olhares tensos, nervosos.

"E se nada mudar," Noel finalizou em tom baixo, "a doutrina vai ruir sozinha. Antes do que vocês imaginam."

Por um momento, ninguém falou.

As velas crepitavam suavemente, projetando sombras irregulares nos rostos marcados dos anciãos. Eles não pareciam mais desafiadores — apenas abalados. Velhos que carregaram por toda a vida a mesma doutrina… de repente, obrigados a encarar fissuras que antes relutavam em perceber.

Rhedon exalou lentamente, abaixando-se numa cadeira.

"Fala como se fôssemos cegos," ele murmurou. "Mas também vemos. As perguntas. Os sussurros após as missas. A hesitação nos templos."

Outro ancião massageou a têmpora, com a voz trêmula.

"Algumas freiras me perguntaram ontem se Elarin realmente desapareceu pelos motivos que ensinamos. Eu não consegui responder."

Um terceiro — o severo que tinha repreendido Noel antes — finalmente relaxou a expressão.

"Nós temos medo," ele admitiu baixinho. "Não da mudança… mas de destruir a última coisa em que as pessoas ainda confiam."

Noel não interrompeu.

Não suavizou.

Apenas ouviu — exatamente o que precisavam ouvir.

Rhedon olhou novamente, cansado, mas atento.

"Jovem Thorne," ele disse, "você fala com confiança, mas nunca esteve diante de mil fiéis quando o mundo deles desaba."

Noel balançou a cabeça. "Não. Mas já vi o que acontece quando as pessoas agarram-se às mentiras que não suportam questionar. Isso as destrói."

Os anciãos absorveram aquilo.

Um deles, com a voz trêmula nas pontas, sussurrou:

"Se avançarmos rápido demais… se tropeçarmos… a fé pode morrer."

Noel deu mais um passo na direção da mesa.

"Então, não avance rápido," ele disse. "Avance com sabedoria. Com Charlotte. Com Orthran. Com o tempo. Mas precisa agir."

O silêncio tomou conta.

"…Precisamos de orientação," confessou. "Mais do que orgulho."

Outro ancião acenou lentamente, baixando os ombros pela primeira vez.

"E sinceridade," acrescentou um segundo.

"E direção," murmurou um terceiro.

Rhedon olhou ao redor, examinando os rostos de seus colegas — homens que brigaram, resistiram, duvidaram… mas que agora estavam na beira de algo desconhecido.

Disposição.

Uma disposição silenciosa, trêmula.

Finalmente, ele se virou para Noel.

Sua voz era firme, mas sem arrogância:

"…Então nos diga, Noel Thorne. O que fazer agora?"

Os outros se mexeram, as vestes sussurrando suavemente enquanto se inclinaram.

Oito pares de olhos fixaram nele — não com expectativa, não com superioridade… mas com necessidade genuína.

O peso disso pressionava no ar.

Noel não hesitou.

"Vocês sigam Orthran e Charlotte," ele disse claramente. "Deixem que eles ditem o ritmo. Deixem que eles liderem a mudança."

Alguns anciãos assentiram lentamente.

Outros apertaram os lábios.

Rhedon franziu o cenho. "E quanto aos detalhes? As perguntas que ainda temos? As coisas que temos medo de perguntar na frente de todos?"

Noel olhou em seu rosto.

"Então, pergunte a eles," respondeu. "Não a mim."

Silêncio.

A cauda de Noir deu uma mexida rápida no ombro dele.

Noel continuou, agora mais firme:

"Se quer respostas sobre doutrina, sobre Elarin, sobre como ensinar as pessoas… então fale diretamente com Charlotte e Orthran. Eles dirão o que podem. E o que não puderem, explicarão porquê."

Os anciãos trocaram olhares novamente — mas desta vez, algo fez sentido.

Rhedon respirou fundo, soltando o ar que vinha segurando há horas.

"Então nosso próximo passo," ele murmurou, "não é uma rebelião… é cooperação."

"Exatamente," disse Noel em voz baixa. "Vocês não precisam lutar contra eles. Precisam entendê-los."

Um longo momento de pausa.

Então, o ancião mais velho baixou a cabeça — o menor e mais frágil gesto de respeito.

"…Muito bem," sussurrou. "Amanhã… falaremos com o Papa e com o Santo."

A tensão que dominava a sala desde sua entrada finalmente se relaxou.

Conforme os anciãos, lentamente, saíam, as vestes tocando o chão de pedra, Noir apoiou levemente a cabeça na face de Noel.

'Isso foi bem,' ela sussurrou.

Noel exalou, cruzando os braços enquanto a porta se fechava atrás do último ancião.

"Melhor do que eu esperava, eles são só um bando de velhos teimosos."

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