O Extra é um Gênio!?

Capítulo 447

O Extra é um Gênio!?

As palavras de Charlotte envolveram o salão como um cobertor suave — quente, firme, impossivelmente corajosas.

Rhedon não se sentou.

Ele avançou um passo, o leve tilintar da corrente cerimonial ecoando no silêncio.

Os outros anciãos atrás dele se endireitaram ainda mais, formando uma muralha de tradição rígida e hábitos de décadas.

Sua voz caiu, profunda e carregada de peso. "Então faremos a primeira pergunta."

Charlotte o encarou sem hesitar.

Rhedon respirou — devagar, deliberadamente.

"De onde vem a sua autoridade," ele perguntou, "para mudar aquilo em que milhões de fiéis acreditam há gerações?"

O silêncio tomou conta da sala.

A pergunta pairou no ar como uma lança lançada.

Vários acólitos mais jovens prenderam a respiração.

Algumas irmãs sussurraram orações baixinho.

Orthran apertou a mandíbula — sabia que aquela questão viria.

Noel sentiu uma sensação quente se espalhar no peito ao ver Charlotte dar um passo à frente.

Não era medo.

Não hesitação.

Apenas uma determinação silenciosa… do tipo que ele tinha se apaixonado.

Charlotte colocou uma mão suavemente sobre o púlpito.

Sua voz, quando veio, foi calma e clara:

"Minha autoridade não vem do poder," ela disse. "Nem de milagres. Nem mesmo do título de Santa."

Seus dedos pressionaram levemente contra a madeira, afinando sua estabilidade.

"Ela vem da responsabilidade."

O salão mexeu-se — algumas sobrancelhas levantaram, alguns ombros relaxaram, outros se cerraram.

Charlotte prosseguiu:

"Fui escolhida como Santa não para ficar em silêncio… mas para guiar. Para proteger os fiéis de verdades que os quebrariam, e conduzi-los com verdades que possam carregar."

Seu olhar percorreu os anciãos — não exigindo obediência, mas oferecendo uma ponte.

"Não mudo a doutrina porque quero. Mudo porque é necessário. Porque o mundo mudou… e a Igreja precisa mudar junto."

A expressão de Rhedon vacilou — surpresa, resistência, confusão, todos entrelaçados.

Charlotte deu mais um passo à frente, o cabelo dourado captando a tênue luz de velas.

"Não peço que me sigam cegamente," ela sussurrou suavemente.

"Peço que caminhem comigo — para ajudar a preservar o que é bom, e a curar o que está quebrado."

Novamente caiu o silêncio.

Peso. Tensão.

Porém, algo tinha mudado.

O golpe da pergunta de Rhedon não a derrubou.

Ela o enfrentou de frente, firme e graciosa.

Noel exalou lentamente, o orgulho quieto se espalhando em seu peito. 'Essa é minha menina.'

Finalmente, Rhedon falou, com a voz mais suave… mas ainda cautelosa:

"…Ouçamos sua resposta, Santa Charlotte."

Rhedon recostou-se novamente na cadeira, mas a tensão ao seu redor não diminuiu.

Pelo contrário — pareceu ficar mais densa, como nuvens de tempestade se formando ao alto.

Charlotte não deixou que isso a intimidasse.

Ela colocou as mãos suavemente sobre o púlpito.

"Obrigada. Então… faça sua próxima pergunta."

Dessa vez, outro ancião se levantou — o Ancião Marthis, com olhos estreitos e postura rígida, suas vestes tão duras quanto sua postura.

Sua voz perdeu a gravidade de Rhedon, mas era afiada:

"Quais partes da doutrina," ele exigiu, "você pretende modificar?"

O salão moveu-se desconfortavelmente.

Essa era a questão que todos temiam.

Charlotte respondeu sem hesitar:

"As partes que mais prejudicam do que orientam."

Um arvoredo de ondas percorreu as fileiras.

Ela continuou:

"A forma como ensinamos o desaparecimento de Elarin… a maneira como enquadramos seu sacrifício… a forma como definimos o que significa seguir sua luz."

Marthis franziu a testa ainda mais. "E quanto aos milagres atribuídos a ele? E às bençãos dele? Você também irá reescrevê-los?"

Charlotte balançou a cabeça.

"Não. Seus milagres foram reais. Seus ensinamentos foram reais. Sua compaixão foi real. Essas verdades permanecem."

Algumas irmãs mais jovens assentiram discretamente, alívio inundando-as.

"Mas as histórias ao redor de seus momentos finais," ela disse suavemente, "estavam incompletas. Muito incompletas para sustentar nossos povos hoje."

Rhedon olhou para cima — mais lentamente desta vez, não para interromper, mas para ouvir.

Outra anciã se levantou, a Anciã Teren, mais velha que as demais, sua voz desgastada por décadas de oração:

"E o que permanece intocado, Santa Charlotte? Quais verdades você levará adiante sem alteração?"

Charlotte lhe ofereceu um sorriso sincero e caloroso.

"A bondade de Elarin. Sua fé na humanidade. Seu desejo de guiar, não de governar."

De repente, uma voz diferente — mais aguda — cortou o salão.

"E como," exigiu o ancião, "explicamos tudo isso aos fiéis? Eles confiam em nós por certezas. Se começarmos a mudar seus fundamentos..."

Ele hesitou — o medo refletido em seus olhos pela primeira vez.

"...e se a fé deles desmoronar?"

Charlotte manteve a expressão firme.

Ela olhou para ele com compaixão, sem superioridade.

"A fé não desaba porque a verdade muda," ela respondeu suavemente. "Ela desaba quando a verdade é escondida. Quando as pessoas percebem uma lacuna na história… e ninguém ouse preenchê-la."

Sua voz ficou mais firme:

"Se os guiarmos com delicadeza, honestidade e união… eles seguirão. Se escondermos a verdade deles… eles irão se desintegrar."

Silêncio sepulcral caiu.

Os anciãos ainda estavam em conflito, ainda resistindo… mas suas perguntas não eram mais ataques.

Eram medos.

E esses medos podiam ser apaziguados.

Charlotte apoiou uma mão no púlpito e disse:

"Não irei impor mudanças a vocês. Mas liderarei essa transformação. E peço que me ajudem a torná-la algo que nosso povo possa entender — sem perderem a si mesmos."

Quando as últimas palavras de Charlotte se fixaram, o salão mudou — não de forma barulhenta, não visível, mas como um campo de batalha que altera sua postura quando os soldados abaixam as guardingiar um passo.

Os anciãos não relaxaram.

Mas escutaram.

E isso, por si só, era novo.

Noel observou-os cuidadosamente, braços cruzados, a cauda de Noir tocando sua bochecha em movimentos lentos e pensativos.

De onde estava, podia ver tudo:

— as respirações irregulares

— as vestes tensas

— os olhos em conflito

— os pequenos flashes de dúvida rompendo anos de certeza

Não ódio.

Não teimosia.

Apenas pessoas assustadas por perder o chão sob os pés.

'Estão perto,' pensou Noel.

Mas também…

'Eles não irão mudar em uma multidão. São do tipo que precisa de uma porta fechada, luz baixa, e sem testemunhas.'

Noir cochichou em sua mente, afiada como um sussurro de aviso:

'Eles estão te olhando, pai.'

Ela tinha razão.

Os olhos de Rhedon se voltaram para Noel, como se esperasse algo do salvador da Capital Sagrada.

Ou, mais precisamente…

Como se soubesse que Noel o encontraria mais tarde.

Noel respirou lentamente.

Esse não era o momento de intervir — Charlotte tinha total controle da sala, guiando-os com precisão e bondade só ela poderia exercer.

Mas, naquela noite?

Numa noite diferente.

Ele encontraria-os longe da multidão, longe de Orthran, longe de Charlotte.

Eles mereciam respostas, e Noel precisava garantir que não se entregassem ao risco da rebelião ou do desespero.

Noir inclinou a cabeça, divertida.

'Você está planejando algo imprudente de novo.'

'Não imprudente,' Noel respondeu silenciosamente, olhos nunca saindo dos anciãos. 'Necessário.'

A Catedral parecia carregada — não de conflito, mas de expectativa. Daquela que precede decisões capazes de transformar nações inteiras.

Os anciãos se moveram mais uma vez, como se estivessem se preparando para o que fosse perguntar a seguir.

Charlotte permaneceu calma, serena, pronta para qualquer questão.

A tensão, que pairava como uma nuvem de tempestade, começou, lentamente, a se dissipar.

Não desaparecer — nem perto disso — mas diminuir.

Charlotte baixou as mãos do púlpito, com postura firme, graciosa, quase luminosa sob a luz vazada do vitral.

"Há alguma última pergunta para hoje?" ela perguntou.

Silêncio.

Não aquele silêncio hostil, ameaçador, de antes.

Um silêncio contemplativo.

Rhedon trocou um olhar largo com os anciãos ao seu lado. Os mesmos que uma vez saíram de sua presença. Os mesmos que, há poucos instantes, juraram que não poderiam aceitar mudanças tão súbitas.

Eles avançaram novamente.

"Santa Charlotte…" ele falou lentamente, "ainda temos… reservas."

Charlotte assentiu suavemente. "Não esperaria outra coisa. Mudança nasceu do medo não é mudança — é colapso."

Rhedon exalou, o peso no peito visível.

"Mas…" ele continuou, "pela primeira vez… acho que podemos chegar a um entendimento. Com o tempo."

Um pequeno murmúrio percorreu os outros anciãos.

Um acrescentou, com voz trêmula:

"Podemos não concordar… mas ouviremos."

Outro tossiu, tentando disfarçar.

"Desta vez, não vamos sair de mãos vazias."

O rosto de Charlotte aquareceu — alívio relampejou em seus olhos dourados, embora ela mantivesse a expressão gentil e tranquila.

"Então, por hoje, chega," ela disse. "Obrigada. De verdade."

Orthran soltou um suspiro cansado, de alívio.

E Noel observou toda a troca como alguém que assiste a uma negociação impossível dar certo, de algum modo, em pé.

Eles não concordaram. Mas também não a rejeitaram.

Não partiram em correria.

Não fizeram anúncio de rebelião ou desastre.

Permaneceram.

E agora… até estavam dispostos a conversar mais.

Noir cochichou na sua mente, a cauda enrolando-se delicadamente:

'Isso é uma vitória, pai.'

Noel permitiu-se um discreto sorriso.

"Santa Charlotte," Rhedon disse pela última vez, erguendo-se um pouco mais, "voltaremos amanhã… para ouvir mais. Talvez… encontremos um ponto comum."

Charlotte inclinou a cabeça com uma graça tranquila. "Estou ansiosa por isso."

Um por um, os anciãos saíram devagar pelo corredor longo — passos lentos, pensativos, conflictuados… mas não fechados.

Os olhos de Noel os seguiram até que as pesadas portas se fechassem atrás deles.

E, em sua mente, um pensamento se firmou como uma promessa silenciosa: 'Vamos conversar com eles hoje à noite, Noir. Quero saber o que eles realmente pensam sobre tudo isso, o que não querem dizer na frente de todos.'

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