
Capítulo 446
O Extra é um Gênio!?
A luz da manhã filtrava-se pelas altas janelas de vitral da galeria interna da Catedral, pintando o piso de mármore com nuances suaves de ouro e azul. A cidade lá fora estava incomumente silenciosa — como se estivesse segurando a respiração pelo que iria acontecer.
Dentro da sala de preparação atrás da Grande Salão, Noel estava diante de uma mesa de madeira larga, terminando suas cartas com passos lentos e deliberados. Sua caligrafia era limpa, mas firme, cada palavra cuidadosamente escolhida.
Uma carta selada para Seraphina.
A outra, para Elyra.
Noir sentada sobre a mesa, com a cauda enroscada ao redor das patas, observava-o com olhos atentos e afiados.
'Você escreve às vezes como um velho,' ela comentou seca.
Noel não levantou o olhar. "Chama-se ser cuidadoso."
'Velho,' ela repetiu com uma certeza satisfeita.
Noel respirou pelo nariz, mas o canto dos lábios vacilou.
Por trás dele, Charlotte e Orthran revisavam as notas da cerimônia. Charlotte segurava um pergaminho com a oração revisada, passando o polegar pela borda como se memorizasse cada sílaba. Sua expressão era calma — quase serena — mas Noel reconhecia a tensão sutil nos ombros dela. A responsabilidade pesava sobre ela, mas ela a carregava de bom grado.
Orthran, por outro lado, andava lentamente na frente do pequeno altar, murmureando partes da cerimônia em voz baixa, ajustando trechos, removendo outros. Ele mal tinha dormido.
"Vovô," disse Charlotte suavemente, "você revisou essa parte quatro vezes."
Orthran parou, pisqueou e forçou um sorriso cansado.
"Hábito. Hoje não pode dar errado."
"Não vai," ela garantiu.
Noel selou a segunda carta e se levantou. "Os pombos correios vão levar isso diretamente para eles. Devemos receber respostas antes do anoitecer."
Orthran acenou com firmeza. "Envie."
No momento em que Noel saiu para o ar fresco da manhã, duas águias treinadas da igreja esperavam na grade — aves magníficas com asas brancas e faixas douradas nas patas.
Ele amarrou a primeira carta, sussurrou o destino, e as soltou.
Ambas as águias mergulharam no céu, suas asas cortando a luz da manhã enquanto desapareciam nas nuvens.
De volta ao interior, Charlotte olhava para o hall vazio além da porta — o espaço imenso onde os fiéis se reuniriam em menos de duas horas.
Fileiras e mais fileiras de bancos.
Suave luz de velas ainda ardendo da oração da alvorada.
A pressão de um continente pressionando contra as paredes.
Ela sussurrou: "Hoje… começamos a reescrever séculos."
Noel se aproximou, com os braços cruzados. "Nada disso será fácil. Mas Seraphina e Elyra ajudarão. Isso nos dá um impulso maior do que a maioria das nações consegue."
O sorriso de Charlotte era pequeno, quente e confiante. "Sou grata por elas confiarem tanto em você."
Noir levantou uma orelha. 'O charme do pai é contagiante.'
"Noir," alertou Noel.
Orthran se aproximou, o manto balançando com propósito agora, não mais com dúvida.
"Os sinos vão soar em breve," disse ele. "Padres, freiras, acólitos — todos irão se reunir. Uns prontos para a mudança… outros prontos para resistir."
Charlotte respirou lentamente, colocando a mão sobre o coração.
"Vou guiá-los," ela sussurrou. "Por mais passos que precise dar."
Noel a observava — toda a sua fé brilhando silenciosamente no olhar dele.
Os sinos da Catedral começaram a repicar.
No instante em que as badaladas soaram, o Grande Salão despertou como uma maré viva.
As vestes mexeram-se. Passos ecoaram. Vozes murmuraram em esperança contida.
Quando Charlotte, Noel e Orthran chegaram à entrada lateral, a câmara principal já estava se enchendo — fileiras de padres, freiras e acólitos se acomodando em linhas disciplinares sob os arcos imponentes e os vitrais reluzentes.
Um leve zumbido de tensão pulsava no ar.
Charlotte pausou na entrada, respirando fundo, absorvendo tudo.
Centenas de olhos fiéis.
Centenas de expectativas.
Centenas de dúvidas.
Orthran se inclinou e sussurrou: "Você é o seu Santo. Fique firme."
Charlotte assentiu uma vez.
Noel ficou um passo atrás, com os braços relaxados, Noir empoleirada em seu ombro, a cauda tocando sua bochecha.
'Muito mana nervosa no ar,' Noir murmurou. 'Metade desta sala está apavorada ao extremo.'
O olhar de Noel percorreu a multidão. "Ações previsíveis."
Reconheceu rostos familiares — alguns esperançosos, outros hesitantes, outros claramente desconfortáveis. Os padres que haviam saído ontem não estavam ali, mas sua ausência deixou um vazio visível na formação.
Charlotte deu um passo à frente.
De imediato, o silêncio caiu.
Cada cabeça virou para ela.
Cada manto ficou mais liso.
Cada sussurro silenciou.
A aura suave de tom dourado — que naturalmente a envolvia como o Santo — cintilou nas bordas, sem exagerar — apenas presente, calorosa, firme.
No instante em que alcançou o púlpito, colocou ambas as mãos suavemente sobre a superfície de madeira.
Sua voz soou clara, gentil, mas firme:
"Obrigado a todos por virem. Hoje decidirá o futuro de nossa Igreja."
Uma onda percorreu o salão — nervosismo, esperança, medo, tudo entrelaçado.
Noel a observava com orgulho silencioso.
'Ela está fazendo,' pensou. 'Mesmo com todo esse peso… ela se assenta como se tivesse nascido para isso.'
Mas então—
Um movimento no lado direito do recinto chamou sua atenção.
Um grupo de padres mais velhos — a mesma facção que tinha saído na outra vez — levantou-se de novo. Suas expressões eram severas, de desaprovação… mas desta vez, eles não foram embora.
O líder, Rhedon, cruzou as mãos atrás das costas e falou alto o suficiente para todos ouvirem:
"Ainda não apoiamos esta direção," declarou. "Nosso posicionamento não mudou."
Centenários de cabeças se viraram.
A tensão se intensificou novamente no ar.
Charlotte não vacilou. Sua postura permaneceu calma, composta, radiante sem precisar parecer que era.
"Entendo," ela disse suavemente. "Mudanças levam tempo. E não exijo sua concordância cega — apenas que nos ouçam."
O queixo de Rhedon travou…
mas ele se sentou de novo.
Seu grupo seguiu o exemplo, suas vestes abafando-se com força ao se acomodar em fileiras rígidas.
Noel respirou silenciosamente.
'Isso… é progresso,' pensou. 'Eles ficaram. Não saíram. Ainda estão lutando — mas aqui mesmo. Isso significa que ainda há esperança.'
Mas veio outro pensamento — mais sombrio, silencioso, agudo. 'Eles vão querer uma reunião reservada. Provavelmente terei que enfrentá-los à noite… e convencê-los pessoalmente.'
Noir, com a cauda balançando em seu ombro, cochichou em sua mente. 'Você está pensando alto demais, pai.'
'Sim,' respondeu Noel. 'Porque as coisas vão ficar complicadas.'
Mesmo com a tensão crescendo como palha seca, algo mudou —
pela primeira vez, a oposição não fugiu.
Eles permaneceram.
E isso significava que ainda havia algo a ser salvo.
Charlotte continuou seu discurso, cada palavra medida, mas calorosa. "Nosso propósito sempre foi guiar, proteger, inspirar. Isso não vai mudar. O que vai mudar… é como compreendemos a verdade. Como a levamos adiante."
Sua voz alcançou cada canto da Catedral.
Alguns acólitos se inclinavam, ávidos por orientação.
Algumas freiras trocavam olhares de alívio.
Alguns sacerdotes mais velhos franziram mais o rosto, apertando suas vestes com força.
Noel viu a tensão subir novamente — e depois se romper quando Orthran se colocou ao lado de Charlotte.
"Como Sumo Sacerdote," anunciou, sua voz reverberando pelo hall de mármore, "eu apoio a Saint. Suas reformas não são um ataque… mas um caminho para frente."
Essa declaração provocou mais uma onda de reações que espalharam-se pelo salão.
E desta vez…
Rhedon levantou-se novamente.
Não saiu apavorado.
Não gritou.
Mas ficou de pé — alto, rígido, imóvel — como uma antiga coluna que se recusa a desmoronar.
Ele projetou sua voz:
"Sumo Sacerdote. Santa Charlotte." Ele inclinou a cabeça só um pouco. "Recebemos suas intenções. Mas não concordamos."
Um murmúrio percorreu o salão.
Noel reprimiu o desejo de suspirar em voz alta.
'Lá vamos nós.'
Rhedon continuou:
"A doutrina resistiu por séculos. Construímos nossas vidas sobre ela. Mudar isso agora seria derrubar tudo que juramos preservar. E embora não vamos sair novamente…"
Ele fez uma pausa — deixando o peso de suas palavras se assentarem como pedra fria.
"…não vamos aprovar essas mudanças também."
Charlotte manteve o olhar tranquilo.
Ao contrário, sua voz suavizou. "Então fiquem," ela disse suavemente. "Ouçam. Façam perguntas. Se discordam, façam-no com honestidade — não por medo."
Rhedon ficou tenso diante da graça inesperada.
Vários padres atrás dele moveram-se desconfortáveis, sem saber direito como responder à gentileza em vez de confrontamento.
Noel viu claramente. Fendas. Fendas reais.
Não na união deles — mas na resistência.
'Ela está alcançando-os,' pensou. 'Pouco a pouco.'
Charlotte deu um passo à frente, uma luz suave se espalhando ao redor de seus pés.
"Quero que vocês entendam essa mudança," disse ela.
Charlotte deixou suas palavras se assentarem, permitindo que o silêncio respirasse por um momento.
O salão não vibrava mais de tensão — ele segurava a respiração.
Ela ergueu o queixo, com as mãos descansando levemente no púlpito.
"Essa é a essência das minhas reformas," ela disse suavemente, mas com firmeza. "Uma verdade destinada a nos guiar adiante, não a nos separar."
Ela olhou para Orthran.
Ele lhe deu um pequeno aceno — aquele só um mentor que confia plenamente em seu sucessor consegue fazer.
Charlotte voltou sua atenção para a assembleia.
"Com isso… encerro a palestra de hoje."
Um leve murmúrio percorreu as fileiras de clérigos e freiras, a incerteza misturada com a curiosidade.
Então, a voz de Charlotte se fortaleceu, levando-se sem esforço por todo o interior de mármore:
"Antes de encerrarmos, aceitarei perguntas." Ela fez uma gestualidade calma e aberta. "Preocupações. Dúvidas. Objeções. Façam-nas agora. Todas as vozes merecem ser ouvidas."
O salão congelou.
Todos olharam uns para os outros.
Mas quem se moveu —
foram os mesmos que resistiram a ela desde o começo.
Rhedon se levantou.
Logo atrás dele, vários padres mais velhos endireitaram-se, suas expressões mais severas pelo dever e relutância.
"Temos… perguntas," disse Rhedon, com voz carregada. "Muitas perguntas."
Charlotte assentiu suavemente. "Então fiquem à vontade para perguntar, vocês têm o direito de saber o que desejam."
Um padre ao seu lado avançou, franzindo a testa.
"Que partes da doutrina irão mudar?" Sua voz carregava uma mistura de medo e obrigação. "O que exatamente… vocês planejam?"