
Capítulo 449
O Extra é um Gênio!?
A luz da manhã filtrava-se pela pequena janela do quarto de hóspedes de Noel dentro do orfanato. Ele mal havia terminado de ajustar seu manto quando um suave toque na porta soou.
Três batidas delicadas — indubitavelmente Charlotte.
Ele abriu a porta.
Charlotte estava lá, com um sorriso luminoso e acolhedora, o sol refletindo suavemente os fios suaves de seu cabelo.
"Bom dia, Noel."
Ele sentiu a tensão no peito aliviar. "Bom dia."
Noir espiou por trás de sua perna, alongando-se.
'Ela está brilhando de novo,' comentou Noir. 'Isso é um bom sinal.'
Charlotte riu suavemente, como se tivesse ouvido o pensamento. "Pronto? Orthran já está esperando no corredor de trás da Catedral."
"Sim," disse Noel, saindo e fechando a porta atrás de si. "Hoje é o verdadeiro teste."
Os dois caminhavam juntos pelo corredor em direção à Catedral. O aroma de incenso pairava ao longe, e passos distantes ecoavam suavemente enquanto os sacerdotes se preparavam para a cerimônia.
Charlotte olhou para Noel. "Ontem… como eles fizeram isso? Escutaram você?"
"Sim, escutaram," respondeu Noel. "Mas há uma coisa que não lhes contei."
Ela inclinou a cabeça. "Qual coisa?"
"Que não estamos fazendo isso sozinhos," ele disse com calma.
Charlotte piscou, surpresa. "Você não lhes contou sobre—?"
Noel balançou a cabeça. "Não. Essa parte é para você revelar hoje. Vai ter mais peso vindo da própria Santa."
O reconhecimento surgiu nos olhos dela — e logo veio a confiança.
"Então serei eu a dizer—" ela murmurou—"que o mundo está conosco."
"Exatamente," disse Noel. "Serafina. Elyra e os Estermonts. Lestaria. Tharvaldur. Bem, Lestaria e Tharvaldur, mesmo sem enviarmos uma carta, tenho certeza de que ajudarão; Elena é Elena. E Balthor está disponível, se precisarmos dele. Mas agora você vai revelar — eles vão entender a dimensão."
Charlotte respirou fundo, reunindo-se. "Certo. Eu faço."
Eles passaram pela entrada lateral da Catedral. Orthran já aguardava no corredor de trás, com as mãos cruzadas atrás das costas.
Ele os olhou com uma expressão de determinação silenciosa. "Bom. Vocês chegaram. Os fiéis já estão se reunindo."
Charlotte… assim que começarmos, suas palavras vão definir o caminho que vamos seguir."
Noir levantou orgulhosamente a cauda. 'Não se preocupe. Ela consegue.'
Noel assentiu para Charlotte discretamente. "Então… prontos para mudar o mundo?"
Seu sorriso se alargou, brilhante e firme. "Sim. Vamos começar."
A grande nave da Catedral já vibrava de movimento quando Charlotte, Noel e Orthran entraram pelo corredor lateral.
Fileiras de acólitos permaneciam silenciosos, em formação. Sacerdotes ajustavam suas vestes, sussurrando orações finais. Irmãs guiavam pequenos grupos de órfãos para os bancos superiores, mantendo-os calmos, mas curiosos.
No momento em que Charlotte entrou, dezenas de olhares se voltaram para ela — alguns radiantes de esperança, outros carregados de desconfiança.
Orthran avançou, levantando uma mão.
"Assentos," ordenou.
O ambiente se acalmou quase que instantaneamente. O peso da expectativa pressionava de todos os lados.
Charlotte caminhou com passos calmos e firmes até o púlpito. Noel permaneceu um pouco atrás, Noir sobre o ombro dele, atento.
À sua frente, o grupo de anciãos hesitantes — a facção de Rhedon — se reunia próximo ao centro do corredor. Observavam-na sem a hostilidade de ontem… mas também sem aceitação.
Charlotte chegou ao púlpito.
O silêncio total tomou conta do ambiente.
Ela apoiou as mãos na grade de pedra, com postura serena, porém resoluta.
"Obrigado por virem," começou ela, com uma voz que preenchia a câmara sem precisar de força. "Ontem, muitos de vocês fizeram perguntas difíceis — perguntas que realmente importam. Hoje… pretendo respondê-las de forma plena, aberta."
Noel observava os anciãos de perto. Nenhum deles saiu. Nenhum virou-se de costas.
Isso, por si só, já era progresso.
Charlotte prosseguiu:
"Primeiro, quero agradecer àqueles que deram uma chance a essa mudança. Este caminho não será fácil — mas é necessário."
Sua visão percorreu o salão.
"Não estou aqui para apagar quem fomos. Estou aqui para preservar o que foi verdadeiro… e guiar-nos rumo ao que deve vir a seguir."
Uma irmã entrelaçou as mãos, os olhos brilhando. Um sacerdote mais jovem se endireitou, parecendo mais corajoso do que ontem.
Então, o tom de Charlotte mudou — tranquilo, mas autoritário:
"Hoje… vocês vão aprender que não estamos sozinhos nesta caminhada."
Uma onda de confusão percorreu o salão.
Noel permaneceu imóvel, expressão impassível, esperando que ela continuasse.
Charlotte olhou para a congregação com convicção firme.
"A mudança é assustadora. Mas não a enfrentamos como uma cidade ou uma Igreja isolada. Enfrentamos com a força do mundo ao nosso lado."
Sussurros suaves começaram a surgir — não de pânico, mas de curiosidade.
Orthran ficou ereto, atrás deles, com aprovação evidente na postura.
Charlotte inalou lentamente.
"E agora… vou dizer quem está conosco."
Os murmúrios se dispersaram em um silêncio tenso, contido, de expectativa.
Charlotte colocou uma mão sobre o coração — não por medo, mas com sinceridade.
"Primeiro," disse ela, com voz firme, "a Família Imperial de Valor."
Uma onda de surpresa percorreu o salão. Até os anciãos mais rígidos piscaram, impressionados.
Orthran assentiu uma vez, confirmando silenciosamente suas palavras.
Charlotte prosseguiu:
"A própria Princesa Serafina manifestou apoio ao caminho que escolhemos. Ela acredita que a Igreja precisa evoluir para guiar esta geração — e não repetir as palavras da anterior."
Charlotte não parou.
"Segundo… a Família Estermont."
Desta vez, as reações foram mais veementes — suspiros, inspirações rápidas, alguns até dando passos à frente sem querer.
A casa mais rica do mundo conhecido. O poder de mover nações com uma assinatura. A habilidade de alcançar todos os continentes e centros comerciais.
Vozeou de Charlotte suavizou, mas permaneceu firme:
"Eles estão conosco — não por obrigação, mas porque acreditam que nossa verdade é necessária."
Noel observava os anciãos de perto.
Nenhum deles interrompeu.
Nenhum saiu de cabeça baixa ou furiosa.
A resistência deles… estava se desmoronando.
Charlotte ergueu ligeiramente o queixo.
"E, embora ainda não tenhamos enviado cartas a eles," continuou ela, "Lestaria e Tharvaldur há tempos são aliados de nossa causa. Seus líderes são sábios — e ouvem quando o mundo muda."
Um murmúrio de admiração percorreu o salão.
Até as crianças nos bancos superiores permaneciam imóveis, atentos.
As últimas palavras de Charlotte envolveram a sala como um manto quente, porém intransigente:
"Não caminhamos sozinhos nesta jornada. Os maiores poderes do nosso mundo caminham ao nosso lado. E, juntos… guiaremos os fiéis nesta nova era."
Noel sentiu o ambiente mudar — o medo na sala começou a diminuir, a dúvida a se esvair.
Pela primeira vez desde que começaram essa luta…
Os fiéis pareciam prontos a alimentar uma esperança.
—mas Rhedon deu um passo à frente.
A sala se tensionou instantaneamente. A mão de Noel pairou perto da cintura. Até Noir ergueu a cabeça, com olhos estreitados.
Rhedon esclareceu a garganta.
"Conversamos com seu… seu namorado ontem à noite."
O rosto de Charlotte ficou todo ruborizado.
"—Namorado…?" ela repetiu, olhos arregalados.
Ela não era tímida por natureza — longe disso — mas ver toda a Catedral a olho nu enquanto Rhedon soltava casualmente aquela palavra a deixou sem fôlego.
Noel desviou o olhar, com as orelhas levemente quentes. Noir gargalhou telepaticamente.
Rhedon prosseguiu, mais suave desta vez:
"Não se preocupe. Não há regra proibindo relacionamentos ou afeições." Um sorriso discreto apareceu nos cantos da boca dele. "Na verdade, parece que afastar-se de suas funções por um tempo... lhe fez bem."
Sorrisos suaves começaram a surgir entre as irmãs mais jovens. Charlotte cobriu a boca por um instante, recuperando-se.
Rhedon se endireitou.
"Agradecemos por ter voltado," disse, com a voz ecoando pela Catedral. "E, após conversar com Noel Thorne, reconsideramos."
Um suspiro silencioso percorreu a multidão.
Rhedon colocou a mão sobre o coração, numa demonstração de compromisso sério.
"Seguiremos a mudança."
O choque, o alívio e a alegria silenciosa de Charlotte floresceram tudo ao mesmo tempo.
Rhedon não parou.
"Ainda carregamos um espinho em nossos corações," admitiu. "Deixar o passado para trás não é fácil. Mas, se essas verdades não forem reais — então não devemos nos apegar a elas. Não devemos mentir para os fiéis."
Ele abaixou a cabeça.
"Estamos com vocês, Santa Charlotte desta geração."
O silêncio seguiu-se — reverente, tremendo, como quem marca a mudança de eras.
Charlotte respirou aliviada novamente, uma pequena e sincera expressão de gratidão surgindo ao fazer uma reverência.
A resistência…
tinha acabado de se tornar sua maior aliada.
A Catedral lentamente acalmou-se, enquanto os ecos da declaração de Rhedon ainda pulsavam pelas colunas de mármore, como um segundo batimento cardíaco.
Charlotte recuou do púlpito, com a respiração firme e postura composta — mas, por dentro, mal podia esconder o tremor de alívio. Orthran se aproximou, colocando a mão apoiadora no ombro dela enquanto os fiéis reunidos começavam a murmurar com esperança renovada.
Noel soltou um leve suspiro.
'Faltam duas semanas…'
A lembrança silenciosa deslizou por sua mente como um fio frio.
Tudo estava indo bem. Melhor do que esperava. Melhor do que ousava sonhar.
Rhedon e os anciãos tinham mudado.
Os fiéis estavam ouvindo.
Charlotte brilhava mais do que nunca — estável, inspiradora, inabalável.
O olhar de Noel percorreu o salão.
'Fase um… concluída.'
Charlotte se virou para ele, com os olhos dourados brilhando suavemente.
"Conseguimos," ela sussurrou.
Noel sorriu lentamente. "Sim… pelo menos a primeira parte."
Sua expressão suavizou. "Agora vem a mais difícil."
Orthran se aproximou, voz baixa, mas firme.
"Vocês estabeleceram a base. A cidade está com vocês. A Igreja está se estabilizando." Ele olhou para ambos — orgulho e responsabilidade pesando na expressão. "Agora, temos que levar a mensagem além destas paredes."
Charlotte assentiu. "Para o mundo."
Noel cruzou os braços, já pensando.
'Influência. Alcance. Tempo. A mudança de doutrina não pode ficar presa a uma cidade só.'
Sentiu Noir roçar suas pernas, sussurrando em sua mente:
'Segunda fase, pai?'
ele assentiu ligeiramente.
'Sim. Agora levamos essa mudança a todos os lugares.'
Charlotte avançou, encarando as portas da Catedral enquanto a luz do sol entrava forte pelas escadarias — brilhante, quente, quase simbólica.
"Noel," ela disse em voz baixa, "a partir de agora… começa o verdadeiro trabalho."
Ele se juntou a ela ao lado.
"Então vamos mudar o mundo," respondeu ele.