O Extra é um Gênio!?

Capítulo 428

O Extra é um Gênio!?

O ar dentro da sala estava imóvel — quente, com o perfume suave de papel e remédios. Nicolas estava sentado ao lado da janela, a luz do sol desenhando linhas douradas sobre seus ombros. Ele parecia mais velho do que Noel lembrava, a nitidez em seus olhos um pouco atenuada, mas a força silenciosa ainda permanecia.

Noel ficou alguns passos atrás dele, sem saber se deveria falar primeiro. Charlotte permanecia ao seu lado, as mãos entrelaçadas à frente, seu brilho habitual ofuscado pelo peso do momento.

Antes que qualquer um pudesse falar, a voz de Nicolas quebrou o silêncio. "Você sentiu falta mesmo, hein?" Noel disse suavemente.

O homem mais velho sorriu de leve. "Construi aquele lugar para durar," respondeu sem se virar, fixando o olhar nas torres da academia ao longe. "Mas algumas coisas não se ensinam na sala de aula."

Charlotte deu um passo à frente, com voz gentil. "Você ensinou mais do que imagina, Senhor Nicolas."

Ele sorriu levemente. "Talvez. Ou talvez eu só tenha conseguido deixar alguns teimosos que não desistiram." Seus olhos piscaram brevemente em direção a Noel, uma perplexidade divertida passando por suas feições cansadas.

Noel coçou a nuca. "Acho que essa aí é sua forma de agradecer, né?"

"Mais ou menos." Nicolas recostou-se um pouco, soltando um suspiro baixinho. "Mas não te chamei aqui só pra falar do meu legado. Tem algo mais — algo que precisa ser dito."

Charlotte olhou entre eles, percebendo a mudança no tom. "Querem que eu dê um tempo para vocês?"

Nicolas concordou com a cabeça. "Se não se importar, Santa. Existem palavras que só se dizem para velhos e estudantes tolos."

Charlotte sorriu de leve, embora seus olhos suavizassem com preocupação. "Então vou esperar lá fora. Não demorem, tá bom?"

Noel a olhou, assentindo. "Não vou."

Quando a porta se fechou atrás dela, o silêncio voltou — agora mais pesado. A luz dourada diminuiu um pouco enquanto o sol desaparecia atrás de uma nuvem, deixando uma leve frieza no ambiente.

Nicolas apontou para a cadeira do lado oposto. "Sente-se, Noel. Já dançamos bastante ao redor da verdade."

Noel obedeceu, abaixando-se na cadeira. Ela rangeu suavemente sob ele.

O homem mais velho o estudou por um longo momento, os olhos procurando. "Você mudou. Há algo por trás do seu olhar agora — como se carregasse mais de uma vida escondida aí dentro."

Noel abaixou a cabeça, a voz baixa. "Talvez eu esteja."

Nicolas assentiu com um gesto de entendimento. "Então me conte. O que quer que esteja te assombrando — eu ouço."

Noel respirou fundo lentamente, a tensão apertando seu peito. Ele tinha ensaiado essa fala centenas de vezes, mas agora, com ela chegando, as palavras pareciam incrivelmente pesadas. Ainda assim, ele olhou nos olhos de Nicolas e falou com calma —

"Há algo que você precisa saber sobre mim."

Noel recostou-se na cadeira, entrelaçando os dedos enquanto olhava para o chão por um momento — tentando achar as palavras certas. Nicolas aguardava pacientemente, com uma expressão calma, atenta, como se ouvisse uma confissão, não uma história.

"Não sou deste mundo," finalmente disse Noel. As palavras saíram mais firmes do que ele esperava. "Fui criado em outro lugar. Um lugar chamado Terra."

Nicolas não falou, apenas inclinou a cabeça levemente. O silêncio dele parecia encorajador — não de julgamento.

"É… um mundo sem mana," continuou Noel. "Sem magia, sem bestas, sem famílias nobres ou impérios. Apenas pessoas — vivendo, morrendo, tentando fazer as coisas funcionarem com o que têm."

Ele sorriu de leve, o canto da boca se contorcendo enquanto lembranças surgiam. "Usávamos máquinas movidas por algo chamado eletricidade. Conseguíamos iluminar cidades inteiras, voar pelo céu, falar com qualquer pessoa no mundo através de pequenos dispositivos que carregávamos no bolso. Parece magia, mas era só… tecnologia."

Os olhos de Nicolas brilharam com uma fascinação silenciosa. "Então o seu povo descobriu uma maneira de fazer o que nós fazemos — sem mana?"

"Sim," disse Noel, inclinando-se um pouco à frente. "Construímos coisas chamadas aviões para atravessar continentes, navios que não precisavam de vento e máquinas que podiam pensar mais rápido que humanos. Mas mesmo assim, nunca paramos de lutar entre nós. Acho que algumas coisas não mudam."

Nicolas deu uma risadinha suave. "Parece que o conflito é a única constante — em todos os mundos."

Noel concordou. "Provavelmente." Olhou para cima, encontrando os olhos do mais velho. "Você… não está surpreso, né?"

O velho mago balançou a cabeça lentamente, uma expressão de diversão acontecendo por trás de seu olhar cansado. "Não. Magia é ilimitada, Noel. Ela se molda à imaginação — e a imaginação não tem fronteiras. Se alguém consegue sonhar com outro mundo, talvez ele já exista em algum lugar. E se alguém consegue imaginar uma alma voltando de lá, quem sabe também seja real."

Noel piscou, sorrindo meio de lado. "Isso soou surpreendentemente poético vindo de você."

Nicolas sorriu de leve. "A idade nos torna filósofos."

Ambos riram suavemente — não de alegria, mas de compreensão mútua, de duas almas compartilhando por um breve instante a mesma fronteira impossível.

Quando o riso acabou, a voz de Noel ficou mais suave. "É estranho… falar sobre isso agora. Antes, achava que nunca conseguiria contar para ninguém."

O olhar de Nicolas ficou gentil, quase paternal. "E agora que contou?"

Noel olhou em direção à janela, onde a luz começava a se transformar em ouro novamente. "Agora parece que não estou mais carregando tudo sozinho."

Nicolas sorriu, uma curva lenta e verdadeira nos lábios. "Ótimo. Então talvez esse velho professor ainda tenha uma última finalidade."

A ternura entre eles se transformou em uma quietude mais tranquila.

Nicolas voltou a olhar para a janela, enquanto o pôr do sol se misturava em tons de âmbar e violeta no céu. A luz suavizava suas feições, quase frágeis.

Ele respirou fundo. "Sabe, é estranho," disse por fim. "Quando perdi meu núcleo de mana, pensei que ia apenas… me adaptar. Treinar a mente, não a magia. Mas o corpo não esquece o que perdeu."

Noel franziu a testa, a vigilância instintiva retornando. "O que você quer dizer?"

Sorrisinho cansado nos lábios de Nicolas. "Querido, isso significa que este corpo está falhando. Os curandeiros dizem que posso ter mais um ano — se descansar, me alimentar bem e não tentar ser herói de novo."

As palavras caíram como pedras.

Noel parou, com a voz presa entre a descrença e a raiva. "O que você está dizendo? Deve haver — algo. Uma maneira de prolongar isso—"

"Não há." Nicolas interrompeu suavemente. "Mana não é só poder. É vida. Sem ela, o corpo começa a se deteriorar — devagar, silenciosamente, mas inevitavelmente."

Noel olhou fixamente, com a mandíbula serrada. "Você não pode simplesmente falar assim, como se fosse nada."

A expressão do velho mago suavizou, mas não havia medo em seus olhos — apenas aceitação. "Vivi bastante, Noel. Mais do que a maioria das pessoas. Construí algo que vai durar mais que eu, e vi estudantes como você se elevando mais alto do que eu poderia sonhar."

A garganta de Noel apertou. "Esse não é o ponto."

"Então qual é?" Nicolas perguntou calmamente. "Você quer que eu me agarre à vida só para te fazer se sentir melhor?"

Noel recuou com o impacto das palavras — não de crueldade, mas de verdade.

O silêncio se estendeu novamente até Nicolas suspirar, recostando-se na cadeira. "Escuta. Eu sei o que você está pensando. Nem tente pedir à Santa uma bênção. Eu não vou permitir."

Noel olhou para cima, o olhar mais sério. "Você não decide isso."

"Decido sim," Nicolas afirmou com firmeza. "Você sabe o preço que ela paga por cada milagre. Você realmente pediria que ela diminuísse sua própria vida só para prolongar a minha?"

A respiração de Noel falhou. Olhou para baixo, com os punhos cerrados sobre os joelhos. "…Não."

A voz de Nicolas AMOLECEU novamente. "Bom. Porque ela precisa de força para o que vem aí — pra todos vocês."

As linhas de seu rosto refletiam a luz tênue da lareira, deixando-o ainda mais envelhecido, mas sua voz não transmitia fraqueza. "Aceitei isso. Queria só que você soubesse antes que aconteça. Antes que eu… desapareça silenciosamente e todos fiquem se perguntando por quê."

Noel levantou os olhos lentamente, com um olhar mais escuro do que antes. "Você não pode 'desaparecer silenciosamente.' Depois de tudo que fez."

Nicolas sorriu de leve. "Isso não depende mais de mim. Mas obrigado."

O silêncio que se seguiu não era vazio. Era pesado — carregado pelo vínculo não dito de respeito entre aluno e mestre.

Então Nicolas suavizou um pouco o tom. "Aliás, morrer me dá uma desculpa para parar de corrigir redações. Pelo menos nisso há misericórdia."

Apesar dele mesmo, Noel soltou uma risada pequena, descompassada. "Essa é uma boa maneira de ver."

"Exatamente," disse Nicolas, com um sorriso suave, mas sincero. "Não adianta encarar o fim sem um pouco de humor."

O fogo crepitava suavemente, sua luz banhando o ambiente em tons de âmbar. Noel falou por um bom tempo — sua voz baixa, firme, mas carregada de coisas que carregava há muito tempo.

Contou tudo a Nicolas.

Sobre Noctis, o irmão esquecido que criou o ciclo para impedir Elarin, o deus que já foi bom, mas caiu na loucura.

Sobre os laços — como toda vez que o mundo atingia seu limite, ele começava de novo, renascido por uma alma de outro mundo.

Sobre como ele, Noel, era apenas uma dessas almas — um estranho usando a vida de alguém que não era dele, tentando acabar com aquilo que milhares antes dele não conseguiam.

Quando finalmente parou, o silêncio que tomou conta foi absoluto. Apenas o sussurro suave da lareira preenchia o ambiente.

Nicolas permaneceu imóvel por um longo tempo, a mão descansando sobre o braço da cadeira. A luz do fogo refletia em seus olhos cansados, mas não havia dúvida — apenas uma reflexão tranquila.

"Então…" disse por fim, com tom calmo. "Você não é mais o mesmo Noel que nasceu aqui."

Noel balançou a cabeça. "Não. Carrego o nome dele, seu corpo, mas não suas lembranças. Toda vez que o mundo reinicia, alguém diferente assume seu lugar. Nenhum de nós se lembra dos anteriores."

Nicolas se recostou, batendo levemente os dedos na madeira. "E isso já aconteceu… mais de uma vez?"

"Milhares de vezes," respondeu Noel baixinho. "Sempre que o ciclo se quebra, alguém novo é trazido aqui. Outra versão de Noel Thorne. Outra vida sacrificada pela mesma história."

O velho mago fez um aceno lento, quase solene. "Então todos vocês são apenas… almas diferentes, palco igual."

"Exatamente." Noel olhou para suas mãos, esticando os dedos como se a verdade o queimasse. "Não sou especial, Nicolas. Sou só o próximo tentando não falhar."

Por um momento, Nicolas ficou em silêncio. Então, quase sorrindo, murmurou: "Engraçado. A vida inteira achei que o mundo fosse moldado por talento e vontade. Mas o que você está descrevendo… é algo mais próximo do destino."

"Destino é cruel," murmurou Noel.

"Sempre é," concordou Nicolas suavemente. Ele se moveu um pouco, winçando de esforço, e apontou para o armário ao lado da cadeira. "Pode abrir aquela gaveta para mim?"

Noel se levantou e percorreu a curta distância. Dentro, encontrou um envelope selado, o lacre de cera com o emblema de Nicolas — uma pena em chamas sobre um livro aberto. Seu nome estava escrito cuidadosamente na frente.

"É para você," disse Nicolas, sua voz mais baixa agora. "Escrevi antes de Tharvaldur. Tem uma chave dentro também — para algo que guardei trancado por um motivo. Pegue, quando estiver pronto. Use para o que realmente importa, não pelo que deseja."

Noel virou o envelope nas mãos, hesitando. "Por que está me entregando isso?"

O velho sorriu de leve. "Porque estou ficando sem tempo para ser seu mentor, seu ajudante, seu guia — chame do que quiser."

Noel soltou uma respiração silenciosa pelo nariz. "Então deveria ficar com isso," disse, tentando parecer mais leve do que realmente se sentia. "Você precisa mais do que eu."

Nicolas riu suavemente — um som seco, sincero, que encheu o silêncio. "Você está enganado nisso. Já usei tudo que tinha para oferecer. O que sobra é seu agora."

Noel olhou novamente para o envelope, o lacre de cera refletindo a luz do fogo. "…Você realmente não facilita as coisas, velho."

"Nunca fui de facilitar," disse Nicolas, com um sorriso débil. Então, seu tom se suavizou. "Pegue — você vai precisar mais do que pensa."

Por um momento, nenhum deles falou. O crepitar do fogo voltou a preencher o ambiente — quente, mas desconfortavelmente definitivo. Noel finalmente estendeu a mão e colocou o envelope no bolso do casaco, assentindo uma vez — não por concordância, mas por respeito.

Nicolas se recostou, os olhos voltando à janela. "Ótimo. Então agora talvez eu possa descansar um pouco mais tranquilo, sabendo que meu melhor aluno ainda vai fazer cagada."

Noel soltou uma risada curta, sacudindo a cabeça. "Você realmente sabe estragar um momento."

"Isso também faz parte de ensinar," murmurou Nicolas, com os olhos meio fechados. "Vai — antes que isso comece a ficar sentimental."

Noel dirigiu-se à porta, deu alguns passos devagar e parou. Olhou por cima do ombro, com um sorriso torto e sutil nos lábios.

"Não morra antes de eu voltar," disse em voz baixa. "Ainda tenho que te mostrar como tudo vai acabar."

A risada de Nicolas foi suave — cansada, mas quente. "Então acho que vou ter que esperar."

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