
Capítulo 423
O Extra é um Gênio!?
O silêncio se estendeu por longos momentos após o silêncio de Noctis desaparecer. O leve zumbido da mana ainda permanecia, como um espectro que lembrava que seu tempo estava se esgotando.
Elyra foi a primeira a falar, com a voz firme, mas trêmula. "Você disse que Elarin já foi bom — que ele salvou o mundo. Então o que aconteceu? O que o fez… assim?"
O olhar de Noctis caiu, os cantos da boca se comprimindo como se esperasse a pergunta. "Ele foi bom," ele disse suavemente. "Mais do que qualquer outro que já viveu. Foi o primeiro a tocar mana, a compreender ela — o homem que trouxe luz ao seu mundo quando ele ainda conhecia só escuridão."
As mãos de Charlotte tremeram um pouco ao lado do corpo. "É o que dizem as escrituras…" ela sussurrou, com a voz tremendo de emoção. "Que ele abençoou os rios, as estrelas e os corações dos homens."
Noctis assentiu uma vez. "Tudo isso é verdade."
Então seu tom mudou — mais baixo, pesado, sem nenhuma gordura de calor.
"Mas ele não parou por aí," Noctis falou em tom baixinho. "Ele não pôde. Em algum momento, algo dentro dele quebrou."
Ele olhou além deles, como se visse um tempo completamente diferente. "Elarin não queria aperfeiçoar o mundo — ao menos, não no começo. Ele queria salvá-lo. Mas no instante em que tocou a Fonte de Mana, a essência bruta que criou tudo… começou a consumir ele. Quanto mais usava, menos humano ele se tornava."
A voz de Charlotte tremeu. "Ele… ficou louco?"
Noctis assentiu lentamente. "Louco, sim — mas não do modo que os mortais enlouquecem. A mente dele permaneceu afiada, seu propósito claro. Só o coração dele desapareceu. Ele via as pessoas como fios para reorganizar, não vidas para proteger. Queria reescrever o mundo, reconstruí-lo à sua imagem."
Os olhos de Elyra se arregalaram. "Então o que você fez?"
O olhar de Noctis se tornou mais duro, a luz em seus olhos escurecendo. "Tentei detê-lo. Achava que poderia. Mas falhei."
A palavra ficou no ar — pesada, definitiva.
"Não consegui matá-lo, não completamente. Toda vez que o derrotava, a mana em seu corpo o reconstruía, de novo e de novo. Então, fiz a única coisa que pude."
Ele levantou a mão, e o holograma piscou em um tom de azul mais fraco. "Eu o confinei — prendi sua essência dentro do cristal que você viu. E então…"
Sua voz vacilou por um momento. "…Criei o ciclo. Uma rotina de reencarnação, uma linha do tempo repetitiva — não para consertar o mundo, mas para encontrar alguém capaz de acabar com ele onde eu nunca consegui."
Charlotte abriu os lábios, a incredulidade nos olhos dourados. "Você fez tudo isso… para matar seu irmão?"
Noctis sorriu, cansado. "Para salvá-lo — e tudo o que ele deveria proteger. Às vezes, pensei que um dia, alguém surgiria forte o bastante para quebrar o ciclo. Para acabar com ambos nós e deixar o mundo seguir em frente, finalmente."
O ar na biblioteca ficou mais frio de repente, o leve zumbido da mana intensificando ao redor deles.
A whispered de Elyra recuou quase sem som, na quietude. "E essa pessoa… é Noel, né? Cada Noel..."
Elyra foi a primeira a achar a própria voz. "Então… o que fazemos agora?" ela perguntou, com tom baixo, mas firme, apesar do peso de tudo que tinham acabado de aprender.
Por um momento, Noctis não respondeu. O brilho azul fraco ao seu redor piscou novamente e, quando finalmente falou, sua voz carregava aquela calma estranha que vem mais do cansaço do que da paz.
"Vocês continuam avançando," disse simplesmente. "O caminho já foi posto em andamento — basta seguir caminhando."
Selene franziu a testa. "Isso não é uma resposta muito boa."
Noctis sorriu de leve, a expressão obscurecida pela distorção que se arrastava nas bordas de sua forma. "É tudo o que posso dar. O resto não é mais comigo para decidir."
Depois, virou-se para Noel, os olhos suavizando-se, quase com orgulho. "Você tem uma ajudinha, sim. Aquele sistema seu — tem guiado você, né?"
Noel piscou, surpreso. "Quer dizer… as missões?"
"Exatamente." Noctis acenou com a cabeça. "Cada missão, cada objetivo, cada estranha 'recompensa' que recebeu — tudo veio de mim. Uma forma de te orientar pelo caos, para garantir que crescesse rápido o suficiente para sobreviver ao que vem aí."
Elyra olhou entre eles, incrédula. "Espera — então todas aquelas coisas impossíveis que você fez em um ano…"
"Não eram impossíveis," Noctis completou por ela, com um sorriso breve reaparecendo. "Só aceleraram. Ele tem talento — de sobra — mas, se fosse deixado sozinho, não teria chegado a esse ponto tão cedo. Só dei o empurrão que ele precisava."
Charlotte piscou, franzindo a testa. "Espera — o que é um sistema?"
Noctis se virou para ela, com uma leve expressão de diversão nos lábios. "Ah, certo. Para você, deve parecer estranho."
Levou uma mão, e linhas de luz azul se enrolaram preguiçosamente ao redor de seus dedos. "Pense nisso como… uma voz que dá direção. Uma criação que construí — invisível, mas conectada ao Noel. Ela acompanha seu progresso, atribui tarefas, dá força quando ele mais precisa."
Charlotte inclinou a cabeça, os olhos se estreitando. "Então… tipo uma orientação divina?"
"De certa forma, sim," Noctis respondeu. "Só que essa aqui não se importa com oração ou fé. Ela reage a ações — à vontade. Toda vez que ele luta, cresce ou toma uma decisão, ela responde. Recompensa, castiga, alerta… tudo faz parte do seu projeto."
Elyra cruzou os braços, olhando para Noel. "Então é por isso que você sempre parecia saber o que fazer."
Noel exalou baixinho, esfregando o pescoço. "Mais do que isso, ela me obrigou a saber," murmurou.
Noctis soltou uma risada curta. "Essa é uma boa forma de colocar. O sistema não pede educadamente — ele empurra. Forte. Mas é por isso que vocês ainda estão vivos."
O ar voltou a ficar quieto, a luz ao redor de Noctis piscando suavemente enquanto ele baixava a mão. "Não é um deus, Charlotte," acrescentou suavemente. "É uma ferramenta. Meu último jeito de manter o equilíbrio, para não deixar tudo desmoronar de vez."
O olhar de Charlotte suavizou, embora sua voz permanecesse baixa. "Então… você virou nosso deus invisível."
Noctis sorriu de leve. "Não. Apenas o último louco tentando consertar o que meu irmão quebrou."
O ambiente ao redor começou a mudar — a coloração azul clara que envolvia a biblioteca suavizou numa tonalidade prateada apagada. A distorção na forma de Noctis se aprofundou, piscando como estática, fragmentos de sua projeção se desfazendo e se recompondo.
Ele olhou para a própria mão por um momento, esticando os dedos como se testasse se ainda existia. Uma risada silenciosa escapou — sem amargura, sem diversão, apenas cansada. "Acho que acabou," murmurou. "O fim do temporizador."
A mão de Charlotte tremeu levemente ao lado. "Você… está desaparecendo."
"É, acho que sim." Sua voz estava calma, quase pacífica agora. "Toda vez que apareço, queimo a pouca energia que ainda sobra nesse laço. Achava que já tinha ido há muito tempo." Seus olhos se ergueram para encontrar os de Noel. "Mas quis concluir tudo isso."
Noel deu um passo à frente, a garganta apertada. "Você não volta mais, né?"
Noctis sorriu de leve, com um sorriso que costuma dar antes de se afastar de algo que carregou por muito tempo. "Não nesta forma. Talvez como um sussurro no sistema, talvez nem isso. É tudo que me resta."
Virou o olhar para as meninas — para Charlotte, Elyra, Elena, Selene — e, pela primeira vez, carregava algo profundamente humano na expressão. "Vocês fizeram bem para ele," disse suavemente. "Cada uma de vocês. Não percebem o quanto mudaram a história dele já."
Elyra piscou, surpresa. "A história dele?"
Noctis deu um pequeno sinal de cabeça. "Cada versão do Noel antes desta terminava do mesmo jeito — destruída, sozinha ou perdida. Ele nunca chegou tão longe. Nunca." Seus olhos se voltaram novamente para Noel, uma leve demonstração de orgulho escondida na fadiga. "Vocês são os primeiros que conseguiram mudar o ritmo. Os primeiros a fazer acreditar que pode acabar."
Noel engoliu em seco. "E se não acabar?"
"Então outro ocupará seu lugar." As palavras saíram baixas — não de crueldade, nem de frieza, apenas factuais. "E tentarão de novo, até que alguém o finalize. É isso que faz o ciclo."
A voz de Selene saiu quase um sussurro, tremendo. "E você vai assistir tudo acontecer de novo?"
A resposta de Noctis veio após uma pausa. "Sim… Mas espero que não precise."
O silêncio que se seguiu foi pesado — reverente, quase.
Os olhos de Elena ficaram suaves. "Soa solitário," ela sussurrou.
Noctis deu um pequeno sorriso triste. "É. Mas a solidão deixou de ser a pior coisa há muito tempo. Ver as pessoas esquecerem — isso dói. Ver elas viverem e morrerem sem lembrar pelo que lutaram."
Ele levantou a mão mais uma vez, e uma faísca azul tênue se formou na palma. Pequena, vibrando como uma chama morrendo. "Então deixo essa para vocês, Noel. Você fez mais em um ano do que qualquer um antes de você. Se alguém pode finalizar, é você."
Os dedos de Noel se cerraram, inconscientes, ao lado do corpo. "Vou tentar," disse em voz baixa. "Ainda não sei como, mas vou acabar com isso."
"Tenho certeza que vai," respondeu Noctis. A forma dele começou a se desfazer agora, dissolvendo-se em fitas de luz que se elevavam como poeira de estrelas. "Por isso escolhi você."
A voz de Charlotte tremeu. "Espera — ainda há tanta coisa que não entendemos!"
Noctis balançou a cabeça lentamente. "Vocês encontrarão as respostas. Só… não se percam tentando alcançá-las."
A luz diminuiu novamente, seus traços começando a ficar borrados. Ele olhou uma última vez para todos — para a confusão, o medo, a força não dita nos rostos deles — e algo em sua expressão se suavizou ainda mais.
"Obrigado," sussurrou. "Por terem dado a ele algo para lutar."
Depois, seus olhos se fixaram em Noel por um instante final, um pequeno sorriso passando pela luz que se apagava.
"Espero que esta seja a última rodada," disse. "Boa sorte, Noel."
As palavras ecoaram mesmo após sua partida.
E então, de repente, a luz desapareceu completamente.
A biblioteca voltou ao silêncio — sem zumbido de mana, sem brilho, sem vestígios da figura que estivera ali. Apenas o calor tênue do ar, já se esvaindo no esquecimento.
Noel ficou lá, por um longo momento, olhando para o espaço vazio. Suas mãos tremiam levemente antes de cerrá-las em punhos.
'A última rodada, hein?' pensou.
As garotas não disseram nada — seus olhos fixos no mesmo lugar, cada uma perdida na imensidão do que haviam acabado de ouvir.
Em algum lugar no silêncio, a voz de Noir ecoou suavemente em sua mente. "Você está chorando, pai."
Noel exalou, a voz quase um sussurro. "…Talvez."