
Capítulo 422
O Extra é um Gênio!?
A biblioteca ficou completamente silenciosa.
Apenas o suave zumbido do holograma permanecia, a luz azul intermitente pintando reflexos tênues nas paredes de livros antigos.
A expressão de Noctis havia mudado — sem vestígio de sorrisinho, sem brilho provocante nos olhos. Quando falou novamente, seu tom era mais frio, mais pesado.
"Você é a chave, Noel," ele disse lentamente. "Mas não por causa do destino, do sangue ou da profecia. Você é a chave porque muda a cada vez."
Noel piscou, sua voz quase um sussurro. "A cada vez...?"
Noctis assentiu uma vez. "A cada ciclo, quando o mundo desaba, tudo recomeça. Os continentes se redefinem, as pessoas renascem, e o tempo volta ao começo. Mas a chave—" apontou para Noel "—muda. Uma alma nova. Uma vontade nova. Às vezes uma covarde. Às vezes uma heroína. Às vezes… algo no meio."
Charlotte abriu os lábios, a voz tremendo. "Então, quer dizer que havia outros como ele antes?"
Os olhos de Noctis ficaram sombrios. "Milhares. E cada um deles falhou."
O ar ficou pesado — mais frio do que antes.
Selene deu um passo à frente, apertando a mão na varinha. "Falhou… para fazer o quê?"
"Para alcançá-lo," disse Noctis. "Meu irmão. Elarin."
O nome pairou no ar como veneno.
Ele inspirou lentamente, olhos baixos. "Se vocês conseguirem — se destruírem ele — o ciclo acaba. Ambos desaparecemos. O sistema morre. O mundo avança pela primeira vez em toda a eternidade."
A voz de Elyra foi pequena, incerta. "E se falharmos?"
O olhar de Noctis levantou-se, seu tom firme. "Então o ciclo recomeça. O tempo se curva de novo, o mundo esquece tudo… e alguém novo acorda no seu lugar, Noel. Outra versão de você. Outra chave, tentando de novo."
As palavras penetraram fundo — mais geladas do que qualquer verdade até então.
O peito de Noel apertou. Ele engoliu em seco. "Quantas vezes isso já aconteceu?"
Noctis hesitou apenas um segundo. Então, em voz baixa:
"Mais de mil."
Ele olhou para Noel — realmente olhou, como se estudasse algo frágil. "Você é o mais próximo que algum deles chegou. Mas proximidade não significa nada se você parar aqui."
A projeção vacilou, sombras passando por seu rosto. "Se você quer acabar com isso, precisa fazer o que ninguém mais conseguiu. Porque toda falha significa que eu acordo de novo, sabendo que enviei outro inocente à morte."
A oração seguinte foi sufocante — parecia pressionar a garganta.
Noel olhou para o chão, sentindo o peso de milhares de vidas invisíveis pesando em seus ombros.
E, pela primeira vez, a voz de Noctis quebrou um pouco, quase um sussurro. "Eu não quero reiniciar de novo."
Aquele silêncio depois das palavras de Noctis parecia uma lâmina pressionada contra o ar.
Ninguém se mexeu, nem mesmo Noir — seus olhos violeta brilhando fracamente nas sombras, fixos na figura azul que piscava à sua frente.
Foi Charlotte quem finalmente quebrou o silêncio, com a voz suave, mas trêmula. "E… e nós? E o que acontece comigo e com eles?"
Noctis olhou para ela. A pergunta pairou por um instante antes de ele responder.
"Quando o mundo reiniciar," ele falou baixinho, "vocês perdem tudo."
Selene franziu a testa, apertando a mão na própria roupa. "Tudo?"
Ele assentiu uma vez. "Suas memórias, suas escolhas, seus laços. Tudo. No momento em que o ciclo recomeça, vocês renascem sem se lembrar que isso aconteceu. Você não conhece Noel, vocês não se conhecem. Vivem suas vidas de novo — mas não as mesmas."
Charlotte abriu os lábios, mas nenhum som saiu.
Noctis continuou, seu tom firme, porém carregado de algo quase como arrependimento.
"Talvez da próxima vez, vocês nunca encontrem ele. Talvez a próxima 'vocês' nem olhe para ele. Talvez o mundo mude tanto que nada disso aconteça."
Ele virou o olhar para Elyra, com expressão grave. "Talvez sua mãe não sobreviva a essa doença desta vez."
Elyra parou, a respiração presa na garganta. Seus olhos arduino para baixo, a compostura rígida que sempre carregou vacilando.
Então, seu olhar se voltou para Selene. "Talvez você nunca consiga se libertar das correntes que sua mãe colocou na sua vida. Talvez nunca lute de verdade."
Os lábios de Selene se enrijeceram, os olhos endureceram — não por desafiar, mas por medo.
Noctis voltou sua atenção para Charlotte. Seu tom suavizou, quase como pena. "E você — Charlotte, a Santa. Provavelmente passaria sua vida toda presa dentro da Igreja, rezando para um deus que nunca escuta você. Nunca encontrando alguém que realmente se importe de você pelo que você é."
Os olhos dourados de Charlotte se arregalaram, brilhando com lágrimas que ela tentou esconder.
Então, ele olhou para Elena, seu rosto escurecendo. "Você voltaria para sua gaiola de expectativas. Vivendo pelos outros — pela imagem que sua avó queria — nunca por você."
Elena não hesitou, mas seus dedos se fecharam nas mangas. O silêncio ao redor dela era tão barulhento que doía.
Noctis deixou o peso de suas palavras pairar antes de acrescentar, em tom silencioso: "É isso que acontece quando o tempo reseta. Todos vocês se tornam estranhos novamente. Histórias diferentes, o mesmo mundo. A única coisa que se lembra de vocês…" Os olhos dele tintilaram na direção de Noel. "…é ele."
Noel prendeu a respiração, uma dor insípida se instalando no peito. Olhou para cada um — Elyra, Selene, Charlotte, Elena — imaginando suas vidas sendo apagadas, seus laços se dissolvendo como fumaça.
Noctis falou quase em sussurro: "Se isso falhar, a próxima versão de vocês talvez nunca exista. E a próxima dele…" — seu olhar escureceu — "talvez não tenha força suficiente para se importar de novo."
O ambiente ficou silencioso. Até mesmo o leve zumbido de mana parecia desaparecer.
Charlotte colocou a mão sobre o coração, sussurrando: "Então, é isso… é isso que está em jogo."
Noctis simplesmente assentiu. "Tudo o que vocês são. Tudo o que construíram. Sumirá. De novo. E, bem, você provavelmente nem vai se lembrar disso mesmo."
O tom de Noctis mudou mais uma vez — calmo, preciso, mas carregado de um cansaço sutil. A luz intermitente de sua projeção se estabilizou enquanto ele olhava diretamente para Noel.
"Não posso dizer quem são seus inimigos," ele começou, em tom baixo e deliberado. "A influência do meu irmão alcançou mais longe do que eu consigo ver. Ele tem… mudado coisas, distorcido pedaços do ciclo. Pela primeira vez, parece estar resistindo — lutando contra o próprio reset."
Noel franziu a testa. "Resistindo? Como—"
Noctis levantou uma mão. "Não pergunte como. Apenas… tome cuidado. Não posso nomear quem são, mas posso te dizer uma coisa: não confie fácil. Especialmente aqueles que você não conhece de verdade."
O ar voltou a ficar tenso, as palavras dele carregando peso invisível.
Ele respirou fundo, a expressão impassível. "Agora… sobre o cristal. Como eu disse, ele guarda meu irmão. Enquanto ele estiver selado, ele não pode se manifestar livremente — apenas sussurrar, apenas corromper. Quem o tomou tem uma vantagem sobre nós agora. Mas ele ainda está preso."
Noctis olhou com atenção, dando um pequeno sorriso quase relutante. "A única forma dele escapar é através de um vaso — um corpo capaz de sustentar sua alma. E neste ciclo, esse corpo seria você, Noel. Ou… — fez uma pausa, os olhos brilhando com um leve humor — "Marcus. Você já sabe disso, não sabe?"
Noel assentiu lentamente. "Sim. As coisas não aconteceram como no romance. Muitas coisas mudaram."
O sorriso de Noctis retornou. "Claro que mudaram. O romance era só um rastro de um ciclo falho — a última tentativa. Marcus tinha que ser o protagonista naquela vez." Ele suspirou, com uma voz cansada. "Não deu certo. O Noel daquele mundo… não durou muito. Não conseguiu se adaptar."
Ele se apoiou um pouco para trás, cruzando os braços. "Mas você conseguiu. Sobreviveu mais, foi mais longe e fez mais do que qualquer um antes de você. Não esperava isso. Sinceramente? Estou impressionado."
Noel piscou, surpreso com o elogio repentino. "...Obrigado?"
Noctis riu suavemente. "Não fique tão inseguro. Você merece. Você fez mais em uma vida do que mil outros antes de você."
Noel hesitou, então soltou de repente: "Espera — você… viu tudo?"
Os cantos da boca de Noctis se ergueram. "Tudo que importa."
Noel ficou tenso, a expressão rígida. Olhou de esgueio para Elena e Elyra, depois murmurou: "Quer dizer— que você não viu, uh… tudo mesmo, né?"
Noctis o encarou por um instante, então explodiu numa risada verdadeira — profunda e libertadora, pela primeira vez. "Ah, não, relaxa! Não estou interessado nas suas tarefinhas extras."
Noel soltou um suspiro longo, aliviado. "Boa."
Quando a gargalhada acabou, Noctis virou-se e sua expressão suavizou. "Mas já vi o suficiente para dizer isto: você mudou. O garoto que chegou aqui perdido e zangado não é o que está agora. Você encontrou pessoas. Um motivo pra lutar. Um lugar para pertencer."
O leve zumbido de mana encheu o silêncio entre eles.
"Aproveite enquanto pode," Noctis acrescentou em tom baixo. "Porque daqui para frente as coisas não vão ficar bonitas."
A luz azul ao redor dele diminuiu um pouco, oscilando nas bordas. Ele olhou para baixo, quase como se estivesse nostálgico. "Parece que tenho cerca de cinco minutos. Então—" gesticulou de modo relaxado com a mão, seu tom voltou a ser suave — "pergunte o que quiser, Noel. Se eu puder responder, responderei. Depois disso, não verei força suficiente para aparecer de novo."
As palavras ficaram pesadas, como um peso final e absoluto no ar.
Noel trocou olhares com as garotas. Até Noir levantou a cabeça, os olhos violeta refletindo o brilho do holograma que se apagava.
Por uma vez, não havia piadas, nem interrupções. Só perguntas esperando para serem feitas.