
Capítulo 424
O Extra é um Gênio!?
As mãos de Charlotte estavam dadas sobre o coração, os lábios movendo-se em uma oração silenciosa que não chegou a terminar. Elyra encostava-se em uma estante, com os braços cruzados, a expressão uma mistura de incredulidade e cansaço. Os olhos cor de âmbar de Elena permaneciam fixos no espaço vazio onde o holograma tinha ficado, enquanto Selene permanecia próxima dela.
Noir estava enroscada ao lado de Noel, seus olhos violetas brilhando fracamente, refletindo o brilho residual da mana dissipada.
Finalmente, Noel exalou, o som rompendo o ar parado. "Acho que aquilo realmente aconteceu," ele murmurou. Sua voz estava firme, mas os olhos traíam o cansaço por trás dela.
Elyra deu uma risadinha sem entusiasmo. "Pois é. Só mais um dia normal — lutando contra monstros, destruindo Pilar e falando com algum tipo de deus de outro mundo. Totalmente normal."
Charlotte fez uma rara expressão de humor, mas o peso do que haviam visto ainda era demais para uma risada genuína. Ela sussurrou: "Ele… realmente estava tentando salvar todo mundo, né?"
Noel confirmou com a cabeça, quase imperceptivelmente. "Sim. E talvez ele ainda esteja."
Sem precisar dizer, eles se moveram juntos — puxando cadeiras mais próximas, sentados no chão da biblioteca, entre livros derrubados e fragmentos de cristal. O grande salão que antes parecia sagrado agora parecia pequeno, quase frágil em seu silêncio.
A voz de Selene quebrou a quietude. "Então… agora o que fazemos?"
Noel olhou para suas mãos, ainda tremendo levemente. "Agora?" Ele sorriu cansado, sem humor. "Agora tentamos entender que diabos foi tudo aquilo que acabamos de aprender."
Os outros concordaram lentamente. Pela primeira vez em muito tempo, não havia batalha por vir, nem perigo de correr — apenas a verdade, pesada e difícil de ignorar.
"Bom," Noel começou após uma longa pausa, sua voz calma mas firme, "acho que vocês todos estão curiosos sobre o mundo de onde vim."
A frase ficou no ar, incerta — como se ele ainda estivesse testando o peso de falar aquilo em voz alta. Quase todos se viraram para ele ao mesmo tempo. Os olhos de Charlotte estavam arregalados, mas vazios, ainda cegados pela desolação de sua fé destruída. Elyra se inclinou um pouco, com os cotovelos nos joelhos, enquanto Selene e Elena permaneciam em silêncio paciente. Noir ergueu a cabeça, a cauda mexendo ligeiramente atrás dela.
Cinco pares de olhos se voltaram para ele, esperando. Ele esfregou a nuca de forma desajeitada. "É… diferente. Não tem mana, não tem monstros, nem cavaleiros ou impérios. Só gente. Muitos deles. O mundo é enorme — continentes inteiros cheios de cidades feitas de metal e vidro. Você pode caminhar por semanas e ainda assim não ver o fim de uma."
Elyra piscou, surpresa. "Metal e vidro? Como assim funciona isso?"
Noel sorriu fracamente. "Tínhamos o que chamávamos de tecnologia. Máquinas que facilitavam a vida — trens que transportavam milhares de pessoas por países, e aviões que voavam pelo céu mais rápido que qualquer dragão ou monstro que vocês tenham visto."
Selene levantou as sobrancelhas, surpresa. "Você… consegue voar?"
"Sim," Noel respondeu, um fio de orgulho escapando em sua voz cansada. "Não com asas ou magia. As máquinas usavam motores — sistemas complexos de metal, fogo e combustível. Também tínhamos carros que se moviam sem cavalos, movidos pelos mesmos motores. Luzes que vinham de fios, não de cristais. Prédios inteiros que atingiam as nuvens."
Elena se inclinou um pouco, curiosidade transbordando de sua postura normalmente serena. "Então, ninguém usava mana algum?"
"Nada. Nem um pingo," Noel respondeu. "Aprendemos a controlar energia através da ciência — equações, pesquisas, ferramentas. É isso que substituiu a magia para nós."
Charlotte, que até então estivera silenciosa, levantou um leve sorriso nostálgico. "Parece… uma vida pacífica."
"Às vezes era," Noel disse com sinceridade. "Haviam guerras, sim, mas a maioria das pessoas vivia vidas tranquilas. Ia trabalhar, encontrava amigos, reclamava de impostos — coisa comum." Seus lábios se levantaram em um sorriso irônico. "Nossas maiores preocupações eram perder o trem de manhã ou esquecer de pagar as contas, não sobreviver a um ataque de monstro."
Isso originou uma pequena risada de Elyra, e até os olhos de Selene suavizaram.
Noel olhou para o chão novamente, traçando uma linha na poeira com o dedo. "Não era perfeito, mas era lar. Cada rua tinha uma história, cada som tinha um significado. Acho que… ainda sinto saudades às vezes."
O olhar de Charlotte permaneceu fixo nele, pensativo. "Mesmo depois de tudo que você viveu aqui?"
"Sim," ele respondeu em voz baixa. "Acho que uma parte de mim sempre irá."
Noel ergueu novamente o olhar, percebendo a melancolia tênue que se estabelecerá sobre eles. Ele deu um pequeno encolhimento, forçando um sorriso torto.
"Ah, mas não me entendam mal," ele disse, agitando a mão de leve. "Minha vida lá acabou há muito tempo. A que tenho aqui… apesar de tudo que aconteceu, não trocaria por nada."
Encostou-se de volta na estante, com uma expressão de leve sarcasmo. "Afinal, quem mais cuidaria de vocês se eu não estivesse por perto?"
Elyra soltou uma risada aguda antes que pudesse se conter. "Por favor, Noel. A filha da família mais rica de Vaelterra não precisa de babá." Ela inclinou a cabeça com orgulho, os olhos cinzentos brilhando.
Selene arqueou uma sobrancelha, escondendo um sorriso tímido. "E eu tenho me virado sozinha desde antes de te conhecer."
Elena cruzou os braços, fingindo seriedade. "Eu diria que sou quase sempre quem evita que vocês se metam em confusão."
Charlotte, que permanecera quieta na maior parte da noite, finalmente sorriu — um sorriso verdadeiro, suave, que alcançou seus olhos dourados. "Ele tem um ponto, apesar de tudo. De alguma forma, ele sempre acaba nos protegendo, não é?"
Noel deu uma risada curta, balançando a cabeça. "Pois é… alguém tem que se preocupar em não deixar vocês se matarem por aí."
Elyra cruzou os braços e o lançou um olhar severo, com um leve sorriso nos lábios. "Ora, por favor? Você é quem quase morre a cada duas semanas, não somos nós."
Selene assentiu suavemente, com calma e provocando. "Ela tem razão. Você teve mais sustos do que todos nós juntos."
Elena virou-se um pouco para frente, apoiando o queixo na mão. "Sinceramente, é um milagre que ainda esteja de pé depois de tudo que aconteceu."
Charlotte deu um sorriso pequeno e caloroso, apesar de seu rosto pálido. "Então, na verdade, somos nós quem cuidamos para você não morrer de novo."
Noel arregalou os olhos, surpreendido com a rapidez na mudança de assunto. "…Certo. Acho que isso é justo."
Elyra sorriu, triunfante. "Mais do que justo. Imagina só a gente deixando você se meter em perigo sozinho de novo. Nem pensar."
Ele suspirou, esfregou a nuca e soltou uma risada sincera. "Tá bom, tá bom — entendi. Vocês ganharam."
A voz de Selene ficou mais suave. "Bom. Então, mantenham-se vivos, e deixem que façamos o mesmo."
Por um instante, o grupo ficou quieto — não uma quietude pesada, mas algo mais firme, reconfortante.
Noir se espreguiçou preguiçosamente ao lado de Noel, os olhos violetas brilhando levemente enquanto sua voz ecoava em sua mente. 'Eles estão certos, sabia.'
'Sim,' Noel pensou, observando as quatro garotas que lutaram ao seu lado através do fogo e do sangue. 'Eu sei.'
As risadas se dissiparam, deixando para trás um silêncio mais suave — aquele tipo que parecia mais descanso do que vazio. O ar na biblioteca ainda carregava o cheiro de poeira e fumaça, mas a tensão finalmente diminuiu.
Charlotte sentou-se com as mãos sobre os joelhos, olhando para o sinal dourado fraco que brilhava em seu pulso — a lembrança de sua bênção sagrada. Sua expressão era distante, quase frágil.
Noel notou. "Charlotte," ele disse calmamente, "você está muito quieta."
Ela olhou para cima, os olhos dourados sombreados, mas firmes. "É só… tudo que Noctis disse. Todo esse tempo, acreditei que estava ao serviço de algo puro. Algo sagrado. Mas se Elarin realmente—" Ela se interrompeu, com a voz tremendo. "Nem sei mais em que acreditar."
Noel se inclinou para frente, com um tom calmo, porém decidido. "Então, acredite no que você fez. Você salvou pessoas, ajudou elas, curou. O que Elarin se tornou — isso não apaga quem você é."
Os lábios de Charlotte se abriram, mas nenhuma palavra saiu. Em vez disso, surgiu um sorriso pequeno e quebrado. "Você sempre faz parecer simples."
Elyra cruzou as pernas, apoiando o cotovelo no joelho. "Porque é. Deuses, Pilar ou seja lá o que for — não muda o que vimos. Você ainda é você, Charlotte. Isso é o que importa."
Selene concordou. "Todos nós temos pedaços do passado que não encaixam mais. O que importa é o que fazemos com eles agora."
Elena, que permaneceu silenciosa por um tempo, finalmente falou. "Ela tem razão. A verdade não apaga quem somos — só nos lembra por que continuamos avançando."
Charlotte suspirou, com o olhar entre elas. A expressão de peso em seu rosto suavizou um pouco. "Vocês são péssimos em consolar as pessoas, sabia?"
Elyra sorriu de canto. "E mesmo assim, deu certo."
Uma risada leve e verdadeira escapou de Charlotte — pequena, mas sincera.
Noel os observou, a leve sensação de calor retornando ao peito. "Já passamos por coisa pior do que isso," ele disse. "Se conseguimos atravessar a Capital Sagrada, conseguimos passar por isso também."
Elyra levantou uma sobrancelha. "Você fala como se isso fosse o fim."
Ele sorriu de lado, mais sério. "Gostaria que fosse."
Noel foi o primeiro a se levantar, escovando a sujeira das mangas. "Temos que ir," ele disse suavemente. "Os outros vão estar esperando."
Elyra estalou os dedos, alongando-se com um bocejo. "Finalmente. Se eu ficar mais um minuto aqui, vou fundir com o chão."
Selene lançou um olhar brincalhão para ela. "Ainda encontraria um jeito de reclamar, mesmo dormindo."
Isso provocou uma risada suave de Charlotte — baixa, mas real. Sua voz saiu ao se levantar, guardando um fio de cabelo cor-de-rosa atrás da orelha. "É estranho… tudo está mais quieto agora, mas pesado também."
Noel assentiu, com uma expressão pensativa. "Isso porque não acabou." Ele fez uma pausa, o olhar se desviando para a luz distante que entrava pela porta. "Mas pelo menos agora sabemos contra o que estamos lutando."
Começaram a caminhar juntos pelo corredor, os passos reverberando no mármore queimado. O ar lá fora estava frio e limpo — o amanhecer surgindo sobre a mansão ferida. Soldados reunidos no pátio cuidavam dos feridos e removiam os escombros. A voz de Sylvette ecoava ao vento, calma e controlada, dando ordens com uma confiança que fez Noel parar por um instante para observá-la.
Elyra seguiu seu olhar. "Ela está no comando."
"Sim," Noel respondeu. "Ela vai ser uma boa herdeira."
Entraram no pátio aberto, o ar frio tocando seus rostos. A fumaça dos incêndios da noite começou a se dissipar, substituída pelo cheiro da manhã.
Então Noel se virou para o grupo, seu tom firme mas calmo. "Escutem… tudo que vocês ouviram sobre mim — sobre de onde vim — fica entre a gente. Ninguém mais pode saber. Por favor."
Charlotte franziu a testa. "Nem ele?"
"Não," Noel respondeu de forma direta. "Ele já tem bastante com o que lidar. E, depois de tudo isso, quanto menos as pessoas souberem, mais seguros estaremos. O cara que roubou o cristal… ele não é alguém que podemos provocar."
Selene cruzou os braços. "E seu pai?"
Noel olhou para o fim do pátio, onde a bandeira de Thorne tremulava ao vento, fraca. "Já enviou notícias ao Rei Alveron."
Se estiver certo, a delegação imperial deve chegar em breve."
Elyra surpreendeu-se. "Isso é bem rápido."
Noel deu um sorriso sutil. "Pois é. Melhor assim. Quanto mais cedo chegarem, mais rápido podemos resolver tudo aqui e partir para a academia."
Por um momento, o grupo ficou imóvel, assistindo os primeiros raios de sol tocar as ruínas. O mundo parecia frágil novamente — ferido, mas ainda respirando.
Charlotte cruzou as mãos e falou suavemente. "Então, vamos manter esse segredo. Por enquanto."
Noel concordou com um aceno. "Obrigada."
Noir chegou ao lado dele, sua sombra alongando-se pelo pátio. 'Você confia neles, sabia.'
'Com a minha vida,' ele respondeu.