O Extra é um Gênio!?

Capítulo 417

O Extra é um Gênio!?

Nevava pelo ar como cinzas caindo, enterrando o que restava da vila numa silenciosa palidez. As casas eram vazias — madeira consumida pela podridão, janelas negras de fuligem. Já não havia luz de fogo, apenas o branco infinito.

A menina se movimentava silenciosa, seu corpo pequeno coberto por panos rasgados. Sua respiração saía em nuvens cortantes e irregulares. Nos ombros dela, um menino se agarrava, com o rosto meio escondido no encaixe do pescoço dela. Ele era leve — demais.

— Você está com frio? — ela perguntou suavemente.

Ele balançou a cabeça, mas as mãos tremeram contra o peito dela. Os lábios dele estavam azuis.

Eles atravessaram a rua vazia, com as botas crunchando na neve e no vidro quebrado. Ela empurrou a porta de uma padaria destruída e vasculhou as prateleiras com mãos trêmulas. Não havia nada além de poeira. Ela suspirou, os ombros caídos, antes de limpar uma ponta do balcão onde podiam se sentar.

O menino a olhava em silêncio, com olhos arregalados e cansados. — Não tem mais nada? —

Ela sorriu de relance, tentando dar calor à voz. — Hoje não. Mas amanhã vai ser melhor.

Ele não respondeu. Já tinha deixado de acreditar naquelas palavras há semanas.

A garota arrancou uma pequena tira da manga e a envolveu nos dedos dele, massageando-os para manter o sangue fluindo. — Amanhã vamos para o sul — ela sussurrou. — Talvez encontremos comida lá. Talvez pessoas.

O vento uivava pelas janelas rachadas, levando o som distante de corvos.

Quando a noite chegou, ela acendeu alguns pedaços de madeira com uma pedra de fogo que roubara meses atrás. A chama mal pegou, mas foi suficiente para tingir seus rostos de laranja por um tempo.

O menino pegou no sono primeiro, encolhido ao seu lado, com a respiração superficial e irregular. Ela afastou um hair do rosto dele e beijou sua testa.

— Ninguém vem buscar a gente — ela sussurrou na escuridão. — Então vamos cuidar um do outro. Sempre.

Do lado de fora, a neve continuava a cair, cobrindo as ruas, os telhados e cada nome esquecido enterrado por baixo.

Pela manhã, já não haveria mais pegadas deles.

Os dias se confundiam depois disso. Manhã, noite — não fazia mais muita diferença. O sol era pálido e distante, fraco demais para derreter a neve, cansado demais para oferecer calor.

O cabelo da irmã tinha ficado quebradiço, sem cor nas pontas. Ela tinha parado de contar os dias, mas o irmão não. Na parede do estábulo desabado onde dormiam, ele desenhava dezenas de linhas com um graveto queimado — uma para cada nascer do sol que sobreviveram. As marcas pareciam cicatrizes esculpidas na pedra.

— Oitenta e três — sussurrou numa noite, rastreando-as com o dedo. — Então estamos vencendo, né?

Ela sorriu de relance, embora os lábios estivessem rachados. — Sim. Ainda estamos aqui.

Ele acenou com a cabeça, como se aquilo fosse suficiente para mantê-los aquecidos.

Quando a comida acabou, ela aprendeu a roubar. No começo eram frutas de carrinhos, depois pão de viajantes. Uma vez, tentou pegar a mochila de provisões de um soldado e pagou com sangue. Eles a bateram até ela ficar branca de vazio na cabeça, até só ouvir o irmão gritando o nome dela.

Ele a puxou, tropeçando pelos becos, até chegarem à nova cobertura. O rosto dela estava inchado, o corpo tremendo. Ele chorou no braço dela a noite toda, sussurrando que sentia muito.

— Não chore — ela sussurrou, tentando manter a voz firme. — Não dói tudo isso assim.

Ele balançou a cabeça, choramingando. — Por que você continua fazendo isso?

— Porque você não devia ter que fazer.

Do lado de fora, um vento frio uivava, empurrando neve pelas frestas do estábulo. Ela apertou-o mais forte, mantendo a cabeça dele encostada no ombro.

— Vamos aguentar o inverno — ela disse baixinho, como se essa frase pudesse torná-la verdadeira. — Você vai ver.

Ele queria acreditar nela. Queria mesmo. Mas naquela noite, quando finalmente adormeceu exausta, ele colocou a mão na dela — pequena, fria, calejada — e sussurrou o que ela sempre dizia antes dele.

— A gente vai cuidar um do outro. Sempre.


A tempestade quebrou semanas de silêncio.

Quando a neve finalmente parou, a vila não era mais do que ossos — vigas tortas, vidros quebrados e carrinhos meio enterrados, congelados no lugar. Pela primeira vez em meses, o sol conseguiu passar pelas nuvens, pintando as ruínas de um dourado delicado.

Os irmãos despertaram com vozes.

Vozes reais — profundas, fortes, vivas.

O menino correu até a entrada do abrigo e olhou através da luz. Soldados e caravanas cruzavam o vale lá embaixo, carregando bandeiras e carroções cheios de suprimentos. A fumaça dos acampamentos se erguia como um sinal celeste.

— Olha! — ele gritou, sorrindo pela primeira vez em semanas. — Eles voltaram! Alguém finalmente voltou!

O coração da irmã deu um salto. Ela ficou tonta, de pernas travadas pelo frio, e saiu atrás dele. O sol doía nos olhos dela. Parecia quase surreal, depois de tanto tempo na sombra.

Eles correram.

Descendo a colina, pelo neve, escorregando e rindo — vozes tremendo entre esperança e incredulidade. Quanto mais se aproximavam, mais forte ficava o cheiro de comida: pão assado, carne assada, algo quente e vivo.

Quando chegaram ao acampamento, um soldado os deteve com uma mão na lança.

— Onde estão seus papéis? — ele perguntou.

O menino piscou, confuso. — Papéis?

— Cartões de racionamento, selo familiar, qualquer coisa.

A irmã deu um passo à frente, segurando o braço do irmão. — Por favor. Estamos aqui desde a última invasão. Não temos papéis — só nos dá alguma coisa pequena, qualquer coisa, e a gente vai embora.

O soldado franziu a testa, os olhos duros. — Ração é para cidadãos. Sigam o caminho.

Ele a empurrou para trás. Ela tropeçou e caiu na neve, raspando as mãos. O menino congelou, encarando a irmã. A risada de antes morreu de repente.

Outro guarda riu baixinho. — Mais bichos duros de lobos. Não param de vir.

O menino ajudou a irmã a levantar, olhando fixamente para os soldados. As mãos cerradas, mas ela o impediu antes que pudesse falar. A mão dela era suave no pulso dele. — Não — ela sussurrou. — Por favor.

Eles se viraram e se foram sem mais palavras. O sol, que parecia tão quente pouco antes, agora parecia cruel.

Naquela noite, eles se sentaram sob um arco quebrado, partilhando a crosta de pão velho que ela tinha guardado. As mãos do menino tremiam enquanto rasgava o pão ao meio. — Eles podiam nos ajudar.

— Eu sei.

— Por que não ajudaram?

Ela olhou para o céu — infinito, cinza, indiferente. — Porque o mundo não nos deve nada.

Ele ficou em silêncio por um longo tempo. Então, com os dentes cerrados, disse: — Então, vamos fazer o mundo nos dever.

Ela sorriu de relance, passando o polegar pela bochecha dele. — Talvez.

O vento uivou novamente, mais frio do que antes. Ela virou o capuz do sobretudo mais apertado, segurando-o próximo enquanto a escuridão se instaleava.

— Vamos cuidar um do outro. Sempre.

Quando o gelo derreteu, o menino tinha parado de se mover.

Seu corpo jazia encolhido contra o peito da irmã, sob um carrinho desabado, com a neve manchada de escuro nas bordas. Ela enrolara cada pedaço de pano ao redor dele, pressionara seu próprio corpo ao dele para compartilhar o pouco calor que tinha. Havia feito sonhar ele até sua voz se partir, até as estrelas ficarem borradas. Ele não acordara.

O amanhecer infiltrou-se pálido pelas frestas dos tablados. Ela acordou com a cabeça dele no colo, sem respiração e com o mundo excessivamente alto em sua silence. As mãos tremiam enquanto ela procurava no rosto dele qualquer sinal — um tremor, uma respiração — e não encontrou nada. Tudo dentro dela se curvou e esvaziou como uma campana tocada uma vez, soando e depois sumindo.

Por um tempo, ela se negou a chamar aquilo de morte. Disse a si mesma que ele estava dormindo, que o sono simplesmente o levava a um lugar mais profundo. Molhou as mãos com a boca e pressionou o rosto ao cabelo dele até suas lágrimas congelarem. A vila se movia ao redor dela em ritmos lentos e indiferentes: um carrinho rangia, um martelo ao longe batia na pedra, um cachorro latia e se afastava. Ninguém percebeu as duas figuras encolhidas sob a ruína. Ninguém veio.

Uma sombra parou à beira da praça naquela tarde. Alguém finalmente se deteve — uma figura envolta num manto escuro, com o rosto de costas para o sol. Moviam-se com a confiança silenciosa de quem já viu coisas piores e se tornou indiferente. A irmã apertou o corpo frio contra ela e observou com esperança desvanecendo.

A figura ajoelhou-se ao lado, sem olhar para o menino. Em vez disso, falou suavemente com a irmã, com voz como veludo antigo: "Você cuidou bem dele."

Ela soltou uma risada que tinha gosto de ferro. — Está frio.

— Podemos mudar isso — disse a pessoa. Tirou de dentro do manto algo que brilhava como óleo misturado com luz da lua. Não sorria. — Posso aquecê-lo. Posso trazê-lo de volta.

O coração dela disparou e depois gelou. — Como? — Sua voz era pequena. De repente, voltou a ser uma criança implorando a um Deus que nunca atendia.

A mão do estranho, com o manto, pairava sobre a origem da poção — fora de alcance. — Há uma dívida. — disseram, de uma forma que fazia as palavras parecerem como corda se enrolando. — Ele viverá, mas não de graça. Você se ligará a mim — por serviço, obediência. Uma corrente de promessa. Você receberá trabalho. Você terá lugar. Você não estará sozinha.

Sua primeira reação foi rir — amarga e breve — diante da crueldade. Sua segunda, foi que daria o mundo, mil vezes, para ver seus olhos se abrirem. Lembrou das mãos pequenas dele desenhando as marcas na parede, do riso quando ela inventava uma história, de como ele confiava nela para consertar tudo quando o mundo rachava. Já tinham levado tudo o que era seu. O que era mais um acordo?

Ela cambaleou, como se fosse atingida, e então estendeu a mão para a poção. — Faça isso. — Sua voz rasgou, mas não quebrou. — Traga ele de volta.

A figura inclinou a cabeça. Não parecia cruel como ela esperava — era apenas vazia, como galhos de inverno sem folhas. Colocou o frasco nos lábios dele e deixou o líquido escorrer pela pele fria. A irmã segurou a mão dele e sussurrou o que sempre dizia na escuridão, a promessa que os manteve vivos na fome e na neve.

— A gente vai cuidar um do outro. Sempre.

Por um tempo, nada aconteceu. O sol se pôs, as sombras se alongaram; ela balançava com o peso dele, olhando o horizonte como se fosse um desejo. Então, quase imperceptível, os dedos dele tremeram na sua mão. As pálpebras piscavam. Ele inspirou — um som raso, trêmulo, que parecia uma pancada e uma misericórdia ao mesmo tempo.

Ele abriu os olhos. Por um instante assustador, eles não eram o verde brilhante que ela lembrava, mas uma piscina translúcida refletindo algo mais antigo e frio. Então, com a luz se acalmando, a centelha antiga retornou — débil e frágil, mas lá. Ele tossiu, piscou e olhou para ela com aquela confiança pequena e obstinada.

Ela riu então, meia soluço, meia risada chorosa, e o agarrou com tanta força que sentiu as costelas doerem. A figura estranha levantou-se, silenciosa como fumaça. — O acordo será cumprido — disseram simplesmente. — Você saberá os termos quando chegar a hora.

Ela não perguntou. Não se importou. Carregou-o nas costas mais uma vez quando o crepúsculo caiu, seu peso instantaneamente mais pesado e mais leve ao mesmo tempo. O mundo tinha sido trocado por ele — um preço que ela pagaria sem saber quanto custaria.

Antes de deixarem a praça destruída, ela pressionou os lábios na testa dele e sussurrou o voto que dizia há mil noites para mantê-los juntos — foi uma promessa feita em frio branco e medo intenso, repetida até que sua voz se acalmasse.

— A gente vai cuidar um do outro. Sempre.

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