O Extra é um Gênio!?

Capítulo 420

O Extra é um Gênio!?

A noite lentamente caía sobre as terras de Thorne.

As fogueiras lá fora há muito se apagaram, deixando apenas rastros tênues de fumaça se contorcendo no céu escuro. Dentro do quarto de Noel, o suave zumbido das lâmpadas de mana dava um brilho dourado suave a tudo ao redor. A batalha parecia um pesadelo distante — mas nenhum deles realmente descansara.

Noel estava sentado perto da janela, com seu sobretudo folgado apoiado descontraidamente no encosto da cadeira. Charlotte, Elyra, Elena e Selene estavam próximas, cada uma ainda carregando sinais de cansaço. Noir jazia encolhida no canto, com a cauda mexendo preguiçosamente, mas seus olhos violetas permaneciam atentos.

Foi Elyra quem quebrou o silêncio primeiro. "É estranho," ela murmurou, afastando uma mecha de cabelo preto do rosto. "Em poucos dias, estaremos de volta à academia. Será o primeiro período com Daemar como diretor, e não mais Nicolas."

Elena encostou-se à mesa, levantando uma sobrancelha. "Você parece quase curiosa. Não sabe já o que acontece lá? Ainda é vice-presidente do conselho estudantil."

Elyra sorriu suavemente e sacudiu a cabeça. "Fiquei longe demais. Vou pedir para a Seraphina explicar tudo assim que voltarmos."

Noel recostou-se, com o olhar distante. "É... assim que terminar o que temos que fazer aqui, a gente volta." Sua voz tinha um tom de finalização tranquila. "Depois disso, cansei desse lugar."

Charlotte olhou para ele, suavizando a expressão. "Você realmente não vai se arrepender? Parece que sua família mudou, Noel. Até seu pai… ele não é mais o mesmo."

Noel soltou uma leve respiração, com os olhos fixos no chão. "Talvez tenham mudado. Mas isso não apaga tudo que fizeram — ou como me trataram. Pessoas assim não merecem uma segunda chance."

Ele fez uma pausa, enquanto as sombras se moviam por seu rosto. "Só quero distância. Paz."

Por um momento, ninguém falou. Então, seus olhos pairaram em Selene.

Ela enfrentou seu olhar calmamente, com uma expressão indecifrável.

"É verdade," ela disse suavemente. "Entendo como é esse sentimento."

A voz dela não carregava amargura — era pura honestidade tranquila. "Minha mãe… passou anos tentando me controlar, moldar quem eu era. Quanto mais tentava agradá-la, pior ficava. Com o tempo, percebi que não importava o que eu fizesse — ela nunca me veria como filha, só como uma ferramenta."

Elyra olhou para baixo, e as mãos de Charlotte se apertaram levemente ao redor dos joelhos dela.

Selene continuou, seu tom fraco, mas firme. "Talvez um dia eu a perdoe. Mas fingir que podemos ser uma família de novo? Não consigo. Não vou."

Noel assentiu lentamente. "Então, não estou sozinho nisso."

O ambiente voltou ao silêncio — não pesado, mas calmo, de uma forma que parecia compartilhada. Um silêncio que vem após compreensão, não após dor.

Do lado de fora, a noite aprofundava-se. Os últimos resquícios de luz desapareciam além das colinas, e as primeiras estrelas começavam a piscar acima da propriedade em ruínas.

Noir levantou a cabeça, sua voz tocando a mente de Noel. 'É hora.'

Ele se levantou, alcançando sua Gume do Desdém. "Sim. Vamos."

Os demais também se levantaram com ele. O que quer que estivesse escondido nas profundezas da biblioteca de Thorne, eles enfrentariam juntos.

Os corredores da mansão de Thorne estavam silenciosos. Somente o som distante de gotas de água quebrava o silêncio enquanto Noel e os demais avançavam pelos corredores obscuros. As lâmpadas douradas ao longo das paredes piscavam ocasionalmente, refletindo no mármore rachado e nas bandeiras rasgadas que ainda ostentavam o brasão de Thorne.

Charlotte andava alguns passos atrás de Noel, sua curiosidade evidente mesmo através do cansaço. "Então," ela perguntou, inclinando um pouco a cabeça, "o que exatamente você está planejando nos mostrar?"

As botas de Noel clicavam suavemente contra o piso de pedra. Ele não diminuía o ritmo. "Honestamente?" ele falou, olhando para trás. "Nem tenho certeza. Só sei que tem algo lá embaixo que preciso ver."

Selene, caminhando ao lado de Elyra, cruzou os braços. "Isso é reconfortante."

Noel deu-lhe um sorriso de leve. "Se ajuda, espero que seja algo bom. Depois de tudo que aconteceu, precisamos de uma pausa."

Charlotte hummed pensativa, como se estivesse refletindo. "Coisas boas geralmente não aparecem em bibliotecas."

Elena soltou uma risada suave. "Ela tem razão. Já li tantos romances de Elyra de horror que sei que isso nunca acaba bem."

Elyra revirou os olhos, limpando poeira do braço da blusa. "São dramas históricos, não horror."

"Metade dos personagens morre," Charlotte pontuou.

"Realismo trágico," Elyra corrigiu, com um tom monocórdico, mas um sorriso brincando nos lábios.

Apesar da brincadeira, o clima ficava mais pesado à medida que caminhavam mais adiante. O ar ficava mais frio, a luz se escurecia, e os corredores se abriam na longa galeria oeste que levava à parte mais antiga da mansão. Noir caminhava silenciosa na frente, com as orelhas se mexendo a cada rangido tênue ecoando pelos caibros.

Elena desacelerou por um momento, passando os dedos pelas tábuas polidas. "É estranho," ela murmurou. "Parece que o lugar todo… nos observa."

Continuaram andando até que o corredor se abriu num amplo vestíbulo circular. No extremo oposto, erguia-se um conjunto de portas duplas de carvalho escuro, cada painél gravado com o brasão de Thorne e linhas de runas delicadas que pulsavam com uma luz dourada fraca.

Charlotte deu um passo silencioso à frente, sua voz quase um sussurro. "Então, é isso?"

Noel assentiu uma vez. "A biblioteca."

Noel se aproximou da porta e colocou a mão contra a madeira fria.

Da última vez que veio por aqui, a fechadura pulsava com uma luz protegida, selada por camadas de feitiços que só seu pai conseguia levantar.

Desta vez, ela não resistiu.

As runas brilharam levemente — e ficaram imóveis. Com um clique suave e ecoante, a porta se abriu lentamente, como se estivesse esperando por ele.

Uma brisa tênue soprou, levando consigo o aroma de papel, tinta e poeira intocada há décadas. As lâmpadas atrás deles piscavam, lançando longas sombras na sala além.

Quando Noel empurrou a porta completamente, até ele precisou parar por um momento.

A biblioteca se estendia muito além do que qualquer um deles imaginava — uma catedral de livros. Fileiras e mais fileiras de estantes altas alcançavam o teto de vidro e pedra encantada, formando arcos magníficos. Orbes cristalinos flutuavam entre os corredores, lançando uma luz quente sobre corrimãos dourados e escadas de veludo que se moviam sozinhas.

Uma escada em espiral enrolava-se ao centro, desaparecendo nas camadas superiores como uma escada rumo às nuvens. O ar parecia vivo — carregado de conhecimento, mana antiga e o sutil zumbido de encantamentos enterrados profundamente nas paredes.

Olhos de Elena se arregalaram imediatamente. Ela avançou sem esperar, passando as mãos pelos volumes mais próximos. "Incrível," ela sussurrou, tremendo de admiração. "Alguns são primeiras edições. Essa escrita— é pré-reforma imperial. Só tinha visto trechos antes."

Charlotte sorriu suavemente ao ver a reação dela. "Acho que encontramos seu paraíso."

Elena nem olhou para trás, devorando as estantes com o olhar. "Se o paraíso cheira a papel e tinta, então sim."

Elyra, de mãos na cintura, soltou um suspiro discreto. "Muito bem, acadêmica. Não se deixe afogar na empolgação." Ela virou-se para Noel. "Então… o que exatamente estamos procurando?"

Noel passou a mão pelo cabelo, os olhos percorrendo o labirinto infinito de prateleiras. "Algo incomum. Um selo escondido, um livro estranho, qualquer coisa que não pertença aqui."

Puxou um suspiro profundo e murmurou para si mesmo: "Status."

Nada. Nem um lampejo, nem um som, nem um brilho azul. Apenas silêncio.

Ele franziu levemente a testa. "Acho que já era."

Os outros o olharam, questionando, mas ele apenas aguentou firme, avançando mais no salão.

Respirou lentamente, sentindo o cheiro de papel velho preenchendo seus pulmões. "Certo," ele falou por fim, expirando. "Acho que vamos ter que procurar do jeito antigo mesmo."

A voz de Noir ecoou suavemente em sua cabeça, com uma pitada de diversão: 'Você sempre escolhe as tarefas fáceis, hein?'

Noel deu um sorriso de canto. "Sim," ele murmurou. "Sempre."

E assim, eles se dispersaram — seis figuras movendo-se silenciosamente entre séculos de conhecimento esquecido.

Uma hora se passou.

O suave farfalhar de páginas preenchia a vasta biblioteca, misturado ao som ocasional de resmungos de frustração.

Charlotte estava organizando rolos antigos, Elyra inspeccionava uma estante cheia de grimórios trancados, Elena ainda maravilhada com a linguagem de volumes meia deteriorados. Selene percorria de forma metódica, verificando cantos em busca de qualquer selo oculto, enquanto Noir patrulhava silenciosa entre as prateleiras.

E Noel — Noel começava a perder a paciência.

Ele fechou outro livro com um baque alto, poeira voando em nuvem pequena. "Nada," murmurou. "Nem uma pista."

Passou a mão na nuca, andando de um lado para o outro entre duas fileiras. "Pesquisamos cada canto, e só encontramos arquivos mofados e relatórios familiares."

Elyra observava de longe. "Talvez tenham sido movidos. Ou destruídos."

Noel sacudiu a cabeça. "Não. A s—" ele parou, cerrando a mandíbula. "Disseram que tinha algo aqui. Eu sinto."

Mais um minuto se passou. Sua paciência estourou.

"Pronto," ele resmungou. "Vou obter minha recompensa."

Um leve sino soou em sua cabeça — e de repente, seu corpo ficou tenso.

Uma luz azul ripou por seus braços, as veias brilhando sob a pele enquanto mana fluía através dele. A sensação foi avassaladora — pressão, calor, e depois um alívio, como água invadindo uma câmara selada.

[Recompensa adquirida.]

[+30% Progresso do Núcleo de Mana Aumentado.]

[Progresso Atual do Núcleo: 82,68% — Núcleo de Mana: Ascendente.]

Noel ofegou cordialmente, apertando o peito. As orelhas de Noir se levantaram, percebendo o brilho. 'Sua mana… está mais forte de novo.'

"É… um pouco forte demais."

Depois, o zumbido voltou — mais alto desta vez, vibrando pelo ar.

Um clique suave, seguido por um tom pulsante de baixa frequência. As lâmpadas escureceram. Em frente a Noel, uma ondulação de luz apareceu, torcendo e assumindo a forma de uma silhueta humana.

Noel congelou, o coração acelerado. O brilho se intensificou, detalhes se formando — cabelo escuro, traços marcados, um sorriso confiante.

E então, o rosto se revelou com clareza.

"QUE PORRA!!"

Noel recuou tão rápido que tropeçou, caindo pesadamente no chão enquanto a figura luminosa se solidificava diante dele. Sua voz ecoou pela vasta biblioteca, fazendo poeira cair das prateleiras superiores.

Os outros se viraram instantaneamente.

Charlotte gritou, correndo na direção dele. "Noel?! O que foi?!

Selene apareceu ao lado, com a varinha levantada. "O que diabos—?"

Todos pararam ao verem o que vinha à frente.

A holograma permanecia calmamente diante deles — um jovem, por volta da idade deles, com cabelo preto bagunçado, olhos escuros que brilhavam suavemente em tom azul, e um sorriso descontraído que parecia totalmente deslocado na atmosfera de silêncio assustador.

Porém, nenhum deles o reconhecia.

Nem Elyra, nem Elena, nem Selene, nem Charlotte.

Elena inclinou a cabeça, sussurrando: "Ele… parece humano. Mas quem será?"

Elyra franziu o cenho. "Definitivamente, não é alguém de Valor. As roupas dele… são estranhas."

A voz de Charlotte suavizou. "Ele parece… conhecido de alguma forma, mas não consigo lembrar."

Ninguém conseguiu.

Exceto Noel.

Seu pulso pulsava forte enquanto ele encarava a projeção — porque aquele rosto, aquela expressão, aquele sorriso torto… era o dele.

Não o Noel que eles conheciam.

Não o Thorne que estava ali na frente deles agora.

Mas a face do jovem que ele fora antes.

Antes de morrer.

Antes de acordar neste mundo.

A holograma ajeitou o colarinho, olhou diretamente para ele e sorriu.

"Ei," disse casualmente, com uma voz lisa, estranhamente real. "Faz tempo."

Ele acenou com a cabeça, os olhos passando por Noel como se fosse um espelho.

"Muito bonito, hein?"

Noel ficou sem fôlego. Os outros trocaram olhares confusos.

Mas só ele entendeu o quê — e quem — ele estava encarando.

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