
Capítulo 426
O Extra é um Gênio!?
A manhã do dia da partida nasceu silenciosa na propriedade Thorne. Nuvens de névoa permaneciam nos jardins e nas pedras rachadas do pátio, borrando os vestígios dos danos deixados pela batalha. Servos agitavam-se entre as carruagens, carregando malas e suprimentos ao ritmo marcado pelos cascos e comandos agudos.
Noel estava próximo ao portão. Observava Elyra, Selene e Elena conversando pela última vez com Seraphina antes de partirem. As três meninas pareciam cansadas, mas cada uma pronta para retornar à academia, a algo que se parecia com uma vida normal.
Elyra se virou na direção dele com seu sorriso habitual. "Tente não causar confusão enquanto estivermos fora, OK?"
Noel lançou um sorriso discreto. "Promessas, ninguém faz."
Selene acenou com a cabeça em silêncio. "Até logo em Valon."
Elena ajustou sua bolsa, com um tom mais gentil. "Cuide bem dela, Noel."
Ele não precisou perguntar quem ela queria dizer. Charlotte estava a alguns passos atrás, com o capuz puxado, a luz tênue refletindo os fios de seu cabelo rosa. Ela acenou uma vez para as demais, sorrindo levemente.
Seraphina supervisionava tudo com sua autoridade calma habitual. "O comboio real partirá dentro de uma hora", disse ela. "A segunda carruagem será sua,"—ela trocou olhares entre Noel e Charlotte—"e levará vocês diretamente a Valon, ao castelo."
Noel assentiu. "Entendido."
Quando as outras finalmente partiram, o pátio voltou a ficar silencioso—apenas o ranger suave das rodas e o farfalhar distante das folhas queimadas ao vento.
Charlotte exalou, com a voz baixa. "É estranho… vê-los partir."
"Sim," respondeu Noel, olhando na direção do horizonte onde as outras carruagens desapareceram. "Dói."
Ele abriu a porta para ela, e ela entrou. O interior era forrado com veludo azul profundo, o aroma de cedro e de pergaminho antigo permeando o ar. Noel entrou logo depois, e, ao fechar a porta, o barulho lá fora sumiu.
De repente, a carruagem começou a se mover, o ritmo dos cascos firme sob eles.
Charlotte encostou a cabeça na janela, observando a mansão Thorne ficar menor a cada giro da roda.
Noel recostou-se, soltando lentamente o ar. "Pois é," murmurou, com uma leve brincadeira na voz, "não tem mais volta."
Charlotte sorriu fracamente. "Não… acho que não."
O ritmo constante das rodas preenchia o silêncio entre eles, o balanço quase hipnótico. O olhar de Charlotte permanecia na janela, onde a floresta se transformava em manchas verdes e douradas ao longe. Noel sentou-se do lado oposto, a mão descansando de forma frouxa na empunhadura de Revenant Fang ao seu lado.
Após algum tempo, quebrou o silêncio. "É estranho, não é? Nicolas costumava nos alertar para sermos cuidadosos, e agora é ele quem vamos visitar."
A boca de Charlotte curvou-se suavemente. "Ele odiaria essa ironia."
Noel suspirou baixinho, seu tom ficando mais sério. "O Primeiro Pilar realmente prioritou mudar as coisas de novo. Primeiro Nicolas, agora o cristal. Mais um desastre esperando para acontecer." Ele pausou, percebendo o que tinha dito, e amaldiçoou baixinho. "Ah—desculpe, não queria tocar nesse assunto. Não na sua frente."
Noel coçou a nuca. "Você ficou quieta desde ontem. Meio cabisbaixa, sabe? Eu não quis lembrar você dele."
Os olhos dela suavizaram. "Obrigada, Noel. A todos vocês. Sei que estavam tentando ajudar." Ela respirou com dificuldade. "Tem sido difícil. Eu deveria ser a Santa, lembra? Aquela a quem as pessoas recorrem para consolo. Mas como posso sorrir sabendo que o deus ao qual dediquei minha vida não é aquilo que eu acreditava?"
As palavras ficaram suspensas no ar, frágeis.
Noel se inclinou para frente, com a voz suave mas firme. "Ei… lembre-se do que Noctis disse. Elarin foi bom uma vez. O primeiro a tocar mana, quem ajudou as pessoas e construiu o que este mundo é hoje. O que a Igreja ensina não é mentira — é só uma história incompleta."
Ele hesitou, depois completou em tom tranquilo. "Ele só mudou depois de alcançar o Núcleo de Mana. Depois disso… tudo virou do avesso. Soube disso quando ficamos presos na biblioteca. Desculpe não ter contado antes."
O sorriso de Charlotte voltou, fraco mas verdadeiro. "Tudo bem. Você não podia me contar, né? O sistema ou o que quer que seja provavelmente não deixou."
Noel assentiu brevemente. "Sim."
Ela olhou novamente pela janela, a luz dourada refletindo em seus olhos. "Obrigada por me contar agora."
Ele recostou-se, observando-a em silêncio. Pela primeira vez desde que deixaram a mansão, a expressão dela parecia menos carregada—cansada, sim, mas não derrotada.
A carruagem vibrava sobre o caminho de pedra, o som ritmado e constante. A floresta começou a rarear, dando lugar às planícies abertas que levavam a Valon. Uma luz quente filtrava-se pela janela, pintando o interior da cabine em tons dourados.
Charlotte quebrou novamente o silêncio. "Então… o que você acha que Nicolas quer falar com você?"
Noel deu uma respirada, com os olhos semicerrados, recostando-se. "Se eu tivesse que apostar? Provavelmente para me dar uma bronca. Faz quanto tempo que ele não conseguiu fazer isso?"
A boca de Charlotte se curvou num pequeno sorriso. "Acha que ele fez uma lista?"
"Com certeza," disse Noel sem hesitar. "O primeiro da lista."
Charlotte riu baixinho, balançando a cabeça. "E, mesmo assim, você acabou sendo o melhor na prova prática. Lembro dele dizendo: 'As notas do garoto Thorne não fazem sentido'."
"Ele não estava errado," disse Noel, sorrindo. "Mas tenho certeza de que ele ainda vai arrumar um jeito de me dar uma bronca por isso. Essa é a diversão dele."
Charlotte riu novamente, relaxando os ombros. "Ele se importava, sim. Sempre tentou parecer severo, mas todo mundo sabia que tinha um fraquinho por você."
Noel inclinou a cabeça levemente. "Fraquinho ou dor de cabeça, não sei ao certo."
Ela soltou mais uma risada silenciosa—daquelas que aquecem bem o espaço pequeno ao redor.
Depois de um instante, ela apoiou queixo na mão, olhando para ele. "Sabe, eu meio que tenho saudades disso. Da academia, do barulho, até do Daemar gritando para todo mundo parar de incendiar o campo de treinamento."
"Ei," protestou Noel, com leveza, "só aconteceu duas vezes."
Charlotte ergueu uma sobrancelha, fingindo descrença. "Duas que você admite, talvez."
Noel não conseguiu esconder um sorriso. "Você é sortuda, estou tão cansado que não tenho ânimo para discutir."
As risadas se desvaneceram, dando lugar a um silêncio confortável—daquele que só aparece após batalhas compartilhadas e noites longas.
Charlotte olhou pela janela, pensativa. "Qualquer coisa que Nicolas queira te falar… espero que seja uma boa notícia. Depois de tudo, a gente merece."
"Sim," murmurou Noel, fixando o olhar no horizonte. "Ele também."
O sol se pôs lentamente enquanto cruzavam o último trecho da estrada rumo a Valon. A paisagem ficou dourada e silenciosa, os campos balançando preguiçosamente ao vento da tarde. Dentro da carruagem, o clima ficou mais suave—menos tenso, apenas duas pessoas na calmaria entre tempestades.
Charlotte encostou-se na cadeira, os olhos seguindo o horizonte. "Sabe… por um momento, quase me esqueci de que estamos indo para o castelo."
Noel deu um sorriso de canto. "Primeira vez que você diz isso. Você sempre fica nervosa quando vamos lidar com nobres."
Ela deu uma risadinha. "E você não fica?"
"Já cansei deles por uma vida," respondeu, com sotaque seco, fazendo-a rir.
Aquietação que seguiu não foi constrangedora—foi estável, frágil, do tipo que faz o ar parecer mais real. Charlotte olhou para ele por mais tempo do que o habitual, os lábios se abrindo ao falar.
"Noel… obrigado," ela murmurou.
Ele piscou. "Por quê?"
"Por não me tratar como um símbolo," ela falou baixinho. "Desde que nos conhecemos, você só… falou comigo. Lutou ao meu lado. Não como a Santa, nem como uma milagrosa—apenas como eu."
Noel olhou para ela por um longo segundo, depois sorriu suavemente. "Acho que nunca fui muito bom com nomes e títulos."
Ela sorriu triste, com um sorriso pequeno. "Você devia ter nascido padre, sabia? Você faria as pessoas voltarem a acreditar."
"Eu mal acredito em mim mesmo," disse ele, divertido.
Ela soltou uma risada, mas a expressão dela mudou novamente, pensativa, quase nostálgica. "Talvez se eu fizer isso…" ela sussurrou, com a voz mais suave que o trêmulo das rodas.
Ele franziu a testa um pouco. "Fazer o quê—?"
Antes que pudesse terminar, Charlotte se inclinou para frente e o beijou.
Foi um beijo breve—suave, trêmulo, quase hesitante—mas carregava tudo o que ela não conseguiu dizer. Por um instante, nem o barulho da carruagem existiu. Apenas calor, respiração e o aroma sutil de lavanda e poeira.
Quando se afastou, evitou o olhar dele. "Talvez isso me ajude a esquecer," ela disse baixinho.
Noel piscou uma vez, depois sorriu—terno, brincalhão, um pouco nervoso. "Desculpe," falou em voz baixa, "mas acho que não vou deixar você esquecer."
Charlotte olhou para cima com timidez, e uma risadinha tímida escapou. "Claro que sim."
Quando a lua surgiu, as luzes distantes de Valon brilharam no horizonte. A cidade era vasta e radiante, seus torres brilhando com veias de mana que pulsavam suavemente na escuridão. A carruagem desacelerou ao passar pelo portão de mármore.
Charlotte ergueu a cortina, seus olhos se arregalando um pouco ao ver o que havia lá fora. "Já estamos aqui…"
Noel assentiu, esticando os braços com um suspiro tranquilo. "Carruagens reais—mais rápidas do que qualquer coisa que já andei."
As ruas, naquele horário, estavam quase vazias, com o brilho suave das lanternas de mana refletindo nas pedras polidas. As rodas pararam diante da entrada imponente do castelo, guardas alinhados sob as bandeiras de Valor.
Charlotte ajustou seu manto e virou-se para Noel, com uma expressão mais calma do que antes. "Pronto?"
Ele encontrou o olhar dela, um leve sorriso surgindo nos lábios. "Tão pronto quanto posso estar."