
Capítulo 392
O Extra é um Gênio!?
O sol estava se despedindo, espalhando tiras de luz âmbar pelas janelas altas do estudo. Partículas de poeira pairavam preguiçosamente na luz quente, e o fraco som de servos preparando o jantar ecoava mansamente pelo corredor.
Noel estava sentado com as quatro garotas ao redor de uma pequena mesa redonda. Noir descansava ao lado de sua cadeira, balançando a cauda lentamente enquanto suas orelhas se movimentavam diante de cada som.
Ele respirou fundo lentamente. "Tudo bem... já que temos um tempo antes do jantar, preciso contar o que realmente está acontecendo."
O ambiente imediatamente mudou—Elyra se endireitou, o rosto alegre de Charlotte suavizou, os olhos de Selene ficaram afiados, e Elena colocou sua xícara com cuidado na mesa.
"Este território", começou Noel, "não é apenas uma terra ancestral. Há algo sob ele—algo que nossa família protege há gerações."
Ele hesitou. A verdade pressionava na sua mente, pesada e perigosa. Sabia o que poderia acontecer se avançasse demais. Ainda assim, tentou.
Uma pontada aguda atravessou seu crânio—como uma reação ao mana, cru e familiar. Não era novidade, mas ainda assim faz sua respiração ficar presa. Seus dedos tremeram levemente enquanto se equilibrava na cadeira.
Charlotte se inclinou imediatamente para frente. "Noel?"
Elyra franziu a testa. "De novo?"
Elena estendeu a mão na direção dele, com voz suave. "Está acontecendo como antes, não é?"
Selene piscou, surpresa. "Antes? O que está acontecendo?"
Noel forçou uma respiração calma, massageando a ponte do nariz até que a tensão passasse. "Não é... nada. Às vezes, quando tento falar de certas coisas, simplesmente... acontece."
As sobrancelhas de Selene franziram. Ela nunca o tinha visto reagir assim, e, pela primeira vez, uma fagulha de preocupação cruzou seu rosto geralmente sereno.
"Estou bem," acrescentou Noel, esboçando um sorriso fraquinho. "Mas vou ser direto. Há um objeto sob a propriedade dos Thorne—algo que atrai monstros. E, recentemente, atraiu mais do que apenas eles."
Os olhos de Elyra se estreitaram. "Quer dizer—"
Noel assentiu uma vez. "Os Terceiro e Quarto Pilares. Noir os viu."
A sala ficou silenciosa. Os últimos raios de pôr do sol desapareciam além do horizonte, e a cauda de Noir parou de balançar.
Os olhos de Elyra se tornaram mais intensos no instante em que Noel terminou. "Então—isso pode acabar como na Capital Sagrada, ou em Tharvaldur?" ela perguntou, com a voz baixa e seca. Não havia mais brincadeiras; ela estava totalmente concentrada.
"Não," disse Noel, e depois se corrigiu. "Sim. É maior do que uma infiltração. Pode ser catastrófico se quiserem o mesmo efeito dominó." Ele massageou a têmpora, sentindo a dor familiar sussurrar na periferia de seus pensamentos. 'Fala menos, ou o sistema vai me picar de novo,' lembrou-se internamente.
Elyra não precisava da explicação completa. "Então, não é só uma horda com que você está lidando. Você tem duas... pessoas—dois Pilares—que estão se movendo nas sombras." Ela cruzou os braços. "Precisamos encontrá-los. Descobrir o que eles querem."
"Noir os viu," respondeu Noel. "Um homem e uma mulher, mais ou menos da nossa idade—algo estranho no mana e no cheiro deles. Se estiverem preparando aquilo que os Pilares fazem, temos que impedir antes que a horda ataque. Se ambos os acontecimentos ocorrerem ao mesmo tempo, fica complicado—chega a ser demais. Preciso estar com meu pai para lidar com a horda. Não posso estar em dois lugares ao mesmo tempo." Ele olhou fixamente para Elyra, de forma direta e sincera. "Vou com ele. Isso não é negociável."
Elyra inclinou-se para frente, com os dedos entrelaçados. "Então, vamos cuidar do outro problema. Se você deixar Noir agir, posso coordenar com Charlotte—feito na surdina, recolhendo informações. Charlotte pode providenciar bênçãos e cobertura. Elena fica encarregada de curar e proteger. Selene—" Seus olhos se voltaram para Selene, "—será a âncora do campo de batalha, caso precise de confronto."
Selene levantou uma sobrancelha. "Você acha que eu não vou estar na linha de frente?"
"Você estará na linha de frente," disse Elyra, com tom direto. "Mas quero dizer: vamos te manter onde você seja mais eficaz. Controle e perturbação. Você não estará sozinha."
Noel piscou, surpreso com a calma e eficiência das vozes delas. "Vocês realmente fariam isso? Se colocarem-se—"
"Nós viemos," interrompeu Charlotte, agora firme. "Então, ficamos. Não peçam pra gente fugir se as coisas ficarem difíceis."
Noel sentiu uma warmth que não tinha relação com o chá. "Tudo bem. Se Noir conseguir os olhos deles, e vocês três armarem uma rede, talvez consigamos descobrir quem são e onde vão atacar." Ele hesitou, escolhendo bem as palavras. "Se ficar muito perigoso, prometam que vão recuar."
Elyra sorriu de leve, mas assentiu. "Você se preocupa demais. Planejo que não vamos morrer."
Noel soltou um suspiro que nem tinha percebido que segurara. Noir pulou no seu colo e empurrou sua mão com o focinho; o puxão mental da voz dela tocou sua mente, clara e segura. 'Vou encontrá-los, pai.'
Ele sorriu, mesmo sem querer. "Tudo bem. Então, vamos começar. O jantar está quase aí, mas depois disso—mapeamos, ouvimos, agimos. Silenciosamente."
A conversa se acalmou, deixando uma estranha sensação de tranquilidade no ar. Lá fora, os últimos vestígios de luz do dia se esgueiravam para o azul noturno, e o leve zumbido das luminárias de mana acendia-se nas paredes.
Charlotte recostou-se na cadeira, esticando os braços acima da cabeça. "Sabe, não esperava que nossa reunião se transformasse em outro conselho de crise," ela comentou, com a voz meio brincando, meio resignada.
Elyra sorriu. "Você devia saber que, onde Noel vai, problemas sempre aparecem."
"Ei," murmurou Noel, lançando-lhe um olhar.
"É verdade," disse Selene secamente, tomando um gole da sua xícara. "Capital Sagrada, Tharvaldur, agora aqui. Começo a perceber um padrão."
Noel suspirou. "Pois é, melhor que esse acabe sem uma cidade pegando fogo."
Sorriso de Charlotte diminuiu um pouco. "Você acha que realmente pode ficar tão ruim assim?"
Ele hesitou antes de responder. "Se os Terceiro e Quarto Pilares estiverem aqui, é porque estão preparando algo. E não se movem sem motivo. Se fosse para arriscar, a horda é só uma distração—ou talvez parte do que eles estão tramando."
Elyra repousou o queixo na mão, com os olhos estreitados. "Então, vamos detê-los antes que comece. Já temos os olhos da Noir e o faro da Charlotte. Com isso, não vão chegar muito longe."
'Você esqueceu de mim, senhorita Elyra,' a voz de Noir ecoou suavemente na cabeça deles, enquanto sua cauda se agitava. 'Se precisar, eu posso mordê-los.'
Selene levantou uma sobrancelha. " Ela falou sério?"
Noel deu uma risadinha. "Totalmente."
Uma risada suave e cansada se espalhou pela sala—quieta, mas sincera. Por um breve instante, a tensão deu uma trégua, dando espaço a uma sensação mais leve.
Finalmente, Elena falou, com tom calmo. "Então, estamos combinados. Depois do jantar, descansamos. Amanhã de manhã, Noir começa sua busca, e ficamos atentos."
Noel assentiu, recostando-se na cadeira. "Ótimo. Só mais uma coisa..." Seu olhar foi até a porta, onde passos ecoavam suavemente pelo corredor. "O jantar é em cinco minutos. Meu pai não gosta de esperar."
O ambiente voltou ao silêncio. Charlotte olhou entre eles. "Então... será que ele vai gostar da gente?"
Elyra sorriu de lado. "Pela reputação dele?"
Selene completou. "Baixo."
Noel suspirou quieto. "É, essa é a ideia."
Noir inclinou a cabeça, a cauda balançando uma vez. 'Então, vou ficar ao seu lado, pai. Você vai precisar de apoio emocional.'
Ele sorriu levemente. "Sim... provavelmente vai."