
Capítulo 403
O Extra é um Gênio!?
A luz da manhã penetrava pelas janelas altas, tingindo a sala de jantar com um dourado suave. Todos estavam reunidos ao redor da longa mesa — Noel no centro, as garotas às suas laterais, e Noir descansando aos seus pés como uma sombra silenciosa.
Poucos momentos passaram sem que alguém speaksse. Apenas o tilintar tênue dos talheres quebrava o silêncio.
Finalmente, Elyra suspirou, empurrando seu prato para frente. "Então… hoje é o dia."
Noel assentiu, com a expressão tranquila, mas com o olhar distante. "Sim. Até o pôr do sol, começará."
As mãos de Elena apertaram levemente sua xícara. "Você vai com Lorde Albrecht?"
"Sim. Selene também vai," respondeu Noel. "Fiquem aqui com Noir. Sigam qualquer movimento ou alteração ao redor da propriedade. Se algo mudar, enviem uma mensagem imediatamente."
Elyra inclinou-se à frente, agora séria. "Nós cuidaremos disso. Não se preocupe."
Charlotte, que até então tinha ficado quieta, se levantou e juntou as mãos. "Antes de vocês irem…"
Uma tênue luminosidade envolveu suas palmas — suave, dourada, pura. O ar ao redor da mesa aqueceu, não com calor, mas com conforto. Os outros ficaram em silêncio enquanto ela sussurrava as palavras de sua Benção.
Quando a luz desapareceu, Noel sentiu — uma gentileza quente no peito, como o sol contra a pele fria.
Charlotte sorriu fracamente. "Pronto. Uma bênção para todos vocês. Que retornem em segurança."
Os olhos de Noel suavizaram, mas uma sombra permanecia atrás deles. Ele sabia o quanto uma bênção como aquela custava a ela — parte de sua essência vital, que se consumia cada vez que ela a invocava.
Ele se levantou e colocou uma mão em seu ombro. "Obrigado. De verdade."
Charlotte olhou para cima, os olhos brilhando apesar do cansaço. "Só… certifique-se de que não foi em vão, ok?"
Noel conseguiu um sorriso discreto. "Pode deixar que eu garanto."
Após o café da manhã, a mansão caiu em silêncio. A maior parte dos empregados já tinha ido embora, instruídos a permanecer dentro até que a horda fosse controlada. Os únicos sons que acompanharam Noel foram o eco suave de seus próprios passos e o ritmo delicado ao seu lado de Selene.
Eles atravessaram o pátio juntos, o ar da manhã fresco e quieto. Selene ajustou a alça do coldre de sua varinha, olhando para ele. "Tem certeza de que somos suficientes para isso?"
Noel assentiu levemente. "O pai disse que trazer mais pessoas só ia colocá-las na linha de fogo. Os monstros que vêm hoje não são do tipo que soldados normais conseguem lidar."
" Então somos só nós", disse Selene calmamente. Não havia medo em sua voz — apenas foco.
Uma voz profunda, medida, quebrou o silêncio. "Isso mesmo."
Albrecht apareceu do outro lado do pátio, trajando seu casaco escuro, que se arrastava atrás dele. O brilho suave de runas nas luvas mostrava que ele já estava preparado para a luta. Seus olhos passaram brevemente por eles antes de pararem em Noel. "Estão prontos?"
"Sim," respondeu Noel.
Albrecht deu um único aceno de cabeça e se virou na direção do caminho que levava atrás da mansão — a entrada para os túneis antigos sob a propriedade de Thorne.
Noel e Selene o seguiram em silêncio, seus passos ecoando suavemente pelo corredor de pedra enquanto desciam. A luz ficava mais fraca a cada curva, substituída pelo brilho fosco de cristais embutidos nas paredes.
Por um tempo, nenhum deles falou. Então, Selene murmurou: "É estranho… entrar numa luta que não podemos prever."
Noel olhou adiante, olhos firmes. "Toda luta é assim."
A voz de Albrecht vindo da frente, calma e fria. "Então, certifique-se de estar de pé no final dela."
O túnel se estendia infinitamente à frente, o ar pesado e frio. Seus passos ecoavam suavemente pelo chão de pedra — três passos em ritmo perfeito.
Por algum tempo, Noel permaneceu em silêncio. Mas a curiosidade, e algo que ele não conseguiu nomear, finalmente o fez quebrar o silêncio.
"O que aconteceu com Mirelle?" ele perguntou calmamente, olhos fixos à frente. "Depois que eu fui embora."
Albrecht não respondeu de imediato. Sua passada também não vacilou — calmo, deliberado, quase contemplativo. Quando finalmente falou, sua voz estava firme, mas mais suave do que Noel esperava.
"Conversamos," disse Albrecht. "Ela e Serina. Foi… mais que necessário há tempos."
Selene olhou entre eles, mas permaneceu silenciosa, sentindo que não devia interromper.
Albrecht continuou, tom baixo, sem raiva. "Muitas coisas foram ditas — coisas que deveriam ter sido faladas anos atrás. Arrependimentos. Acusações. Verdades que ninguém quis admitir."
Noel piscou, um pouco surpreendido. A voz do pai não tinha mais o tom frio e autoritário ao qual estava acostumado; parecia… humana.
"Ela estava irritada," continuou Albrecht. "Mas percebi que grande parte daquela raiva vinha dela mesma, não de mim. Ainda assim, uma linha foi cruzada. Ela foi confinada em seus aposentos por agora. Uma punição, mas sem crueldade. Eu não a odeio."
Noel desacelerou um pouco, observando as costas do pai. O homem que caminhava à sua frente parecia diferente — não mais a figura dura, distante, que sempre conheceu, mas alguém que parecia… cansado. E, talvez, pela primeira vez, em paz.
"Você parece mais calmo," disse Noel, finalmente.
Albrecht deu um pequeno aceno, sem olhar para trás. "Pulei muitos anos carregando fantasmas, Noel. Talvez seja hora de deixar alguns deles para trás."
O peito de Noel se apertou. Pela primeira vez, ele não via Albrecht como seu pai — mas como um homem que finalmente começara a perdoar a si mesmo.
O túnel se abriu lentamente, as paredes se alargando até que o brilho esmeralda do cristal no câmara distante reluziu à vista. O ritmo pulsante de sua luz banhava seus rostos — suave, constante, quase vivo.
Eles pararam bem na entrada. Por um longo momento, nem pai nem filho falaram. Apenas a vibração silenciosa do cristal preenchia o ar.
Então, Albrecht respirou fundo, sua voz baixa. "Noel… Não vou fingir que fui um bom pai. Nem mesmo que ganhei o direito de me chamar assim."
Noel virou um pouco o rosto, olhando nos olhos do pai. Desta vez, não havia frieza — só uma resignação silenciosa.
Albrecht continuou, com tom firme. "Mas, neste momento, nada disso importa. O que vem… não posso impedir sozinho. Preciso da sua ajuda."
Noel olhou para a cristal luminosa, cuja luz tremeluziu fracamente contra seus olhos. "Você não precisa perguntar," disse ele após uma pausa. "Isso não é sobre família. É uma coisa que tenho que fazer de um jeito ou de outro."
Albrecht franziu a testa levemente, mas não insistiu. Algo no tom de Noel — uma certeza, um peso — fez com que ele percebesse que continuar pressionando não levaria a lugar algum.
"…Muito bem," disse Albrecht, em tom baixo.
Noel deu um passo à frente, a luz do cristal refletindo em seus olhos esmeralda. "Além disso," acrescentou, com uma pontinha de humor seco, "se eu não fizer, quem mais fará?"
Isso quase lhe rendeu um sorriso breve, genuíno.
O silêncio que se seguiu não foi tenso. Foi… firme. Dois homens lado a lado — não como pai e filho, mas como guerreiros, prontos para enfrentar o que o mundo lhes reservar.