
Capítulo 396
O Extra é um Gênio!?
Noir voltou a desaparecer na sombra de Noel enquanto ele e Elyra atravessavam o corredor. O murmúrio suave de conversas da sala de jantar ficava mais alto a cada passo até que as pesadas portas duplas voltaram a aparecer à vista. Noel passou a mão pelo rosto, sentindo a ardência de um hematoma recente logo abaixo do olho. Sua manga estava rasgada, e tênues manchas de sujeira grudavam na jaqueta.
Elyra olhou de lado para ele. "Parece que você brigou com um urso."
"Quase isso," murmurou Noel, empurrando as portas.
O barulho lá dentro morreu instantaneamente. Vários olhares se voltaram para eles — entre eles, o olhar afiado do pai. Charlotte se levantou da cadeira, com preocupação visível nos olhos dourados. "Noel—o que aconteceu com você?"
Elena e Selene seguiram logo atrás, ambas igualmente tensas. A expressão de Selene passou de alarme a aquela máscara fria e calma que ela usava em momentos sérios.
Noel fez um gesto sutil com a mão. "Fomos atacados. Dentro do território."
As palavras pesaram no ar, deixando todos em silêncio de choque.
A cadeira de Albrecht rangendo suavemente ao ele se erguer, sua voz firme, mas comedido. "Dentro do meu território?"
"Sim," respondeu Noel, com a voz firme apesar do aperto no peito. "E precisamos conversar. Agora. Em particular."
Por um instante, ninguém se mexeu. Então, Albrecht assentiu uma vez, de forma seca. "Muito bem. Sigam-me."
Enquanto os dois homens se dirigiam à saída, Noel parou ao lado de Elyra. Sua voz ficou um pouco mais suave, só para ela ouvir. "Conte aos outros o que aconteceu. Eu vou cuidar do meu pai."
Elyra encarou seus olhos, compreendendo a troca de mensagens entre eles. "Cuide-se."
"Sempre me cuido," respondeu quieto, antes de seguir Albrecht para fora do salão e entrar no corredor escuro que se estendia além.
A porta do escritório de Albrecht fechou com um estrondo, abafando a conversa do corredor atrás deles. O ar lá dentro parecia mais pesado — carregado com o cheiro de papel envelhecido, metal e vestígios de mana. O ambiente era decorado com estantes altas cheias de mapas, registros familiares e troféus de batalhas de gerações passadas.
Albrecht caminhou até sua escrivaninha e ficou em pé atrás dela, o olhar fixo em Noel. "Comece a falar," disse, de forma direta.
Noel não perdeu tempo. "Mirelle deixou a ceia. Noir a seguiu. Ela encontrou uma reunião com duas pessoas nos jardins do leste — estranhos, mas poderosos. Confrontei-os. Uma delas era do mesmo grupo que atacou a Capital Sagrada e Tharvaldur."
Um silêncio longo se instalou. Albrecht não reagiu — nem com choque, nem com dúvida. Apenas encarou, com uma expressão indecifrável.
"Lutei com ele," continuou Noel, com firmeza. "Ele recuou, mas não antes de confirmar o que suspeitávamos. São responsáveis pelos ataques às hordas, e estão usando Mirelle como contato."
Ao ouvir isso, o olhar de Albrecht se endureceu. "Cuidado com as palavras, Noel."
"Estou dizendo a verdade," insistiu Noel. "Ela está trabalhando com eles."
A mandíbula do homem mais velho se tensou, mas seu tom permaneceu calmo — até demais. "Você acusa sua madrasta sem provas. Mirelle faz parte desta casa há mais tempo do que você vive. Quando sua mãe morreu, ela foi quem manteve esta família unida. Ela—"
"—não é quem você pensa que ela é," interrompeu Noel, com a voz baixa e controlada. "Você não viu o que eu vi."
As mãos de Albrecht descansaram sobre a mesa, com os nós dos dedos brancos de leve. "O luto pode distorcer a visão de um homem, Noel. Você tem carregado demais desde Valor, e agora enxerga inimigos onde não há."
Os lábios de Noel se comprimiram em uma linha fina. "Então você não acredita em mim."
"Creio que você lutou com alguém, sim," respondeu Albrecht. "Mas não que Mirelle esteja envolvida. Ela não faria isso."
A certeza na voz dele só fazia a barriga de Noel se contorcer.
'Claro,' pensou amargamente. 'Mesmo agora... ainda cego.'
Noel ficou em silêncio por um momento, fixando o olhar no pai do outro lado da mesa. O brilho fraco das luminárias projetava sombras longas sobre o rosto de Albrecht, acentuando cada linha.
"Então é isso," concluiu Noel, seco. "Você vai acreditar na palavra dela mais do que na minha."
Albrecht não titubeou. "Prefiro fatos a emoções. Você lutou com alguém em nossos jardins — tudo bem. Mas afirmar que Mirelle é traidora? Você está viajando."
'Inacreditável,' pensou Noel, com a mandíbula apertada. Mesmo com provas na cara dele, recusa-se a ver a verdade.
Albrecht virou-se ligeiramente para a janela grande atrás da escrivaninha, por onde a luz da lua se infiltrava tênue pelo vidro. "De qualquer forma," disse, com a voz calma novamente, "você vai me acompanhar na próxima ofensiva das hordas. Normalmente, fico cuidando sozinho, mas desta vez, você vem comigo. Queria mostrar sua força — essa é a sua chance."
Os olhos de Noel se detiveram. "Você acha que isso é para provar minha força?"
"Sempre foi sobre isso," respondeu Albrecht, de forma simples. "A força mantém nossa casa viva. A dúvida a enfraquece."
Noel respirou lentamente pelo nariz, tentando reprimir a irritação que fervia no peito. "Tudo bem. Estarei pronto."
Ao se virar na direção da porta, Albrecht acrescentou: "Você cresceu, Noel. Mas não deixe a paranoia te tornar descuidado. A linhagem Thorne sobreviveu porque confiamos na nossa gente."
Noel parou na porta, com a mão ainda no maçaneta. A tensão no ambiente era tanta que parecia cortá-la. Ele não se virou quando falou:
"Então venha comigo," disse em voz baixa.
Albrecht franziu o rosto. "O quê?"
"Você não sabe onde ela está, não é?" continuou Noel, com o tom firme, porém frio. "Desde que ela saiu da ceia, você não a viu nenhuma vez. Então, vamos buscá-la juntos."
Pela primeira vez naquela noite, Albrecht hesitou. Seus olhos se voltaram para a janela lateral, como se estivesse calculando algo. A hesitação durou apenas um segundo antes que seu calmante habitual retornasse. "Você acha que confrontar ela agora vai ajudar?"
"Acho que encontrar ela antes que ela faça algo pior," respondeu Noel, sem raiva—apenas certeza. "Se eu estiver errado, tudo bem. Você terá sua prova. Mas se eu estiver certo..." ele finalmente cruzou o olhar com o pai. "...então não podemos esperar mais."
A silência entre eles se prolongou, preenchida apenas pelo som discreto das chamas das luminárias.
Por fim, Albrecht respirou fundo pelo nariz, endireitou-se e falou: "Tudo bem. Vamos procurá-la."
Noel deu um único aceno de cabeça. "Bom. Vamos lá."
Eles saíram do escritório juntos, os passos ecoando pelo corredor escuro. A noite lá fora era silenciosa, quase demasiado quieta — aquele tipo de silêncio que só precede uma tempestade.
Ao entrarem no pátio, o sussurro de Noir passou pelas pensamentos de Noel:
'Pai... ela não está longe. Posso sentir o rastro dela.'