
Capítulo 384
O Extra é um Gênio!?
A chuva caía suavemente contra a janela, traçando linhas finas de prata na vidraça. Noel encostou-se ao quadro, uma mão repousada na empunhadura de Mandílica Espectral, com os olhos fixos na linha das árvores ao longe, onde a barreira de Thorne brilhava fracamente. A noite havia caído sobre a propriedade, silenciosa—demais.
Ele exalou, uma névoa tênue saindo de seus lábios. "Já se passaram sete dias," murmurou. "E ainda nada."
Por trás daquele tom calmo, sua mente revia a semana como um filme lento.
Passara o tempo procurando—percorreu todos os corredores da mansão, atravessou os campos de treinamento, os depósitos subterrâneos, até os aposentos dos empregados. Checou por vazamentos de mana, núcleos corrompidos e qualquer sinal de invasão. Nada. Nem um rastro.
'Se a família Thorne realmente cair, não será de fora,' pensou, estreitando os olhos. 'Sei lá o que é, mas já está dentro dessas paredes.'
O vento carregava o cheiro sutil de chuva e terra através da fresta aberta na janela. Na noite anterior, ele escutara os guardas cochichando—sobre como Lady Mirelle quase não tinha saído do quarto durante toda a semana. Como ela dispensava os empregados sem aviso prévio. Como falava sozinha em seus aposentos.
No começo, Noel não se importou. Tinha visto dramas nobres antes—ciúmes, disputas de herança, orgulho. Mas algo na sua quietude incomodava. Não era apenas raiva ou vergonha. Sentia… algo errado.
Ele afastou-se da janela, fechando-a silenciosamente. "Tanta paz, né," disse baixinho.
Voltando-se para sua mesa, seu olhar caiu sobre algumas anotações espalhadas—mapas da propriedade, esboços dos fluxos de mana, fragmentos de pergaminho queimado que encontrara no ala oeste. Todos apontando para a mesma conclusão: algo nesta casa mexia sob a superfície.
Noel massageou as têmporas, seu reflexo no vidro escuro encarando-o de volta. "Amanhã é o sétimo dia," murmurou. "Se alguma coisa vai acontecer, será então."
Finalmente, olhou para a janela uma última vez. Lá fora, trovões roncavam ao longe, pouco audíveis.
'Eu sinto isso,' pensou. 'A tempestade já chegou.'
A rotina de Noel virou mecânica—acordar, observar, analisar, repetir. Cada canto da propriedade de Thorne parecia igual de sempre, mas algo embaixo dela não estava certo.
Não eram sons ou sussurros; não havia sinais claros de perturbação. Mas seus instintos—os mesmos que o salvaram uma vez do Sexto Pilar—continuavam gritando. Tinha algo errado aqui. Algo escondido à vista de todos.
Cada vez que passava pelo ala oeste—domínio de Mirelle—o ar ficava mais pesado. Não frio, não amaldiçoado. Apenas… errado. Como se uma presença estivesse ali, mas só quando ele não olhava.
'É a mesma sensação,' pensou pesadamente. 'Como se alguém estivesse andando na pele de outra pessoa.'
Ele observava Mirelle de longe durante as refeições familiares e eventos formais. Seus movimentos, seu tom, seus olhos—tudo normal. Demasiado normal. O tipo de normalidade que vem com treino.
Ela ria nos momentos certos. Comia na quantidade certa. Sorri de leve quando Albrecht falava.
Mas seus olhos… não seguiam mais as pessoas. Seguiam os ambientes. Cantos. Portas.
Como se estivesse esperando que algo invisível se movesse.
'Ela não mudou fisicamente. Mas seu comportamento mudou, embora certamente por causa da escolha do Herdeiro da casa, e seus dois filhos foram deixados de lado, com Sylvette vencendo, então pode ser isso...'
Ela tinha um jeito de parecer normal, mas ele já tinha visto isso antes—quando o Sexto Pilar era apenas um ajudante numa entidade de órfãos. Parecia alguém comum, mas na verdade era alguém usando a pele de outra pessoa, e claro, havia itens específicos para isso.[1]
Noel anotou suas descobertas em rapidez no seu caderno:
Dia 3: Sem novidades.
Dia 5: A observação continua.
Ele recostou-se na cadeira, encarando as notas, franzindo a testa. 'O romance poderia aprofundar mais isso se fosse tão importante para o mundo... Será que coisas importantes às vezes não aparecem porque seguem um protagonista...'
Do lado de fora, trovões retumbaram novamente, ecoando como um coração distante.
Noel encostou-se na borda da mesa, fixando os olhos na chuva que escorria pela janela. A tempestade lá fora não havia parado o dia inteiro, um ritmo constante que combinava com o pulsar na cabeça dele.
Ele soltou uma respiração lentamente. "Ontem…" murmurou.
A lembrança se reproduzia claramente—o eco de passos no corredor, as lâmpadas douradas fraquejando nas paredes. Ele voltava para seu quarto após verificar a barreira de mana quando cruzou com ela.
Lady Mirelle.
Ela estava à janela, vestida com seu vestido carmesim, joias de prata captando a pouca luz. Por um momento, parecia quase serena—se ele não soubesse melhor.
'Só mais uma noite no inferno.'
Ele se lembrou de parar por cortesia. "Lady Mirelle," disse, com tom educado mas vazio.
Ela olhou na direção dele, com o mesmo desprezo de sempre. "Ainda fazendo o papel de filha obediente, Noel?"
Ele não caiu na provocação. "Alguém tem que fazer isso."
Isso acabou por fazê-la sorrir—um sorriso silencioso, cruel. "Que nobre. Quase parece uma Thorne."
Clássico. Ela sempre arranjava um jeito de transformar palavras em navalhas. Mas, ao começar a passar por ela, ela disse algo que não combinava com sua típica malevolência. Algo mais silencioso, mais distanciado—quase como se não estivesse falando com ele.
"Falta uma semana."
Na época, Noel congelou no meio do passo, inclinando-se meio na direção dela. "O quê?"
Mas ela não respondeu. Simplesmente foi embora, sua silhueta desaparecendo no corredor como fumaça.
Agora, olhando novamente para a janela, os dedos de Noel batiam contra o vidro.
'Falta uma semana… até o quê?'
Na situação presente, a tempestade tinha se dissipado em uma garoa tênue. A luz que entrava pela janela de Noel era cinza, suave—o tipo de calma que precede qualquer movimento.
Ele sentou-se na ponta da cama, girando uma pequena esfera de ferro na mão—um peso de treino que usava para aguçar reflexos. Sem pensar, jogou-a para cima, pegou, jogou de novo. O tilintar suave contra a palma da mão preenchia o silêncio do quarto.
Sua mente, porém, não estava na esfera.
'Falta uma semana.' pensou novamente, observando-a traçar arcos no ar.
Ele recordou o que Albrecht dissera naquela manhã, antes de sair para a floresta.
"Em sete dias, a horda chega. Esteja preparado."
Noel exalou, recostando-se um pouco. Os fios começaram a se encaixar—a contagem, as palavras de Mirelle, a mana se acumulando nas defesas externas da propriedade. Tudo se encaixava de forma demasiado perfeita.
'Então era isso que ela quis dizer. "Falta uma semana". A onda de monstros.'
Ele arremessou a esfera novamente, desta vez mais alto, acompanhando o giro com os olhos.
Ela voltou a cair. Ele a pegou uma, duas vezes, até errar a terceira tentativa.
Bum.
A bola de metal acertou sua testa e rolou pelo chão.
"Droga…" murmurou Noel, esfregando o ponto atingido e lançando um olhar para a esfera, como se ela tivesse passado a lhe trair pessoalmente.