
Capítulo 389
O Extra é um Gênio!?
O som do água correndo preenchia o cômodo, um ritmo constante contra a pedra. Vapor se acumulava sobre o piso de mármore enquanto Noel se inclinava para frente, apoiando ambas as mãos na parede do banho.
Ele exalou lentamente, o calor percorrendo suas cicatrizes — marcas de monstros, batalhas e erros. A mansão tinha estado silenciosa nesses últimos dias.
'Todo mundo mudou,' pensou, fechando os olhos. 'Damon e Kael finalmente ficaram quietos. Sylvette… diferente. Até o pai olha pra mim de outro jeito agora.'
Água escorria pelo seu rosto, misturando-se ao leve aroma de sabonete e ferro. Mas um nome cortou seus pensamentos. Mirelle.
'Ela não mudou nada. Ainda fria. Ainda fingindo que sou algo que ela precisa tolerar.' Ele franziu a testa levemente, inclinando a cabeça para trás sob o chuveiro. 'Mas ultimamente… ela está pior. Nervosa. Como se estivesse escondendo algo.'
Ele desligou a água e pegou uma toalha, passando-a pelos cabelos. Uma gota caiu do queixo no chão. "Talvez eu esteja pensando demais," murmurou, mas mesmo enquanto dizia isso, não acreditava realmente.
Enquanto se vestia, percebeu seu reflexo no espelho — olhos cansados, traços mais agudos. Diferente do garoto que primeiro entrou neste mundo. "Mais um problema a resolver…" falou baixinho, colocando a camisa parcialmente antes de fazer uma pausa.
Quatro nomes cruzaram sua mente — Elyra, Charlotte, Elena, Selene. Cada uma delas indo na direção do Território Thorne neste momento. Quase podia ouvir a conversa animada de Charlotte ou as provocações de Elyra.
Noel sorriu de leve. "Quatro sob o mesmo teto. O que pode dar errado?"
Ele balançou a cabeça, fechando o último botão. O cômodo silencioso não deu resposta, mas no íntimo, ele sabia que a paz não duraria muito.
Noel saiu do banheiro, com a toalha frouxamente pendurada no pescoço, a água ainda escorrendo dos cabelos. O ar no quarto parecia mais frio agora, carregando o leve aroma de sabonete e metal.
Um movimento na esquina — então Noir saiu das sombras perto da escrivaninha, pequenas patas tocando o chão silenciosamente. Seus olhos brilhavam com aquele tom violeta suave que sempre parecia enxergar além dele.
'Você parece menos insatisfeita do que o habitual,' ela brincou, a cauda balançando preguiçosamente.
Noel sorriu de leve. "Agradeço o elogio." Ele passou a toalha pelos cabelos mais uma vez antes de jogá-la de lado. "Na verdade, preciso que você faça uma coisa."
'Uma missão?' ela perguntou, as orelhas se levantando.
"Mirelle," disse Noel, com a voz ficando firme. "Siga ela por mim. Discretamente. Veja o que ela anda fazendo ultimamente."
Noir piscou uma vez, sua brincadeira desaparecendo. 'Por que ela?'
"Ela… está diferente. Algo no mana dela parece estranho, como se não combinasse com o corpo. Se essa queda da casa for realmente próxima, acho que ela está ligada a isso de algum jeito."
A pequena loba se aproximou, olhando para ele. 'Você acha que ela é perigosa, pai?'
Noel encontrou os olhos dela no espelho. "Ainda não tenho certeza. Mas se for o caso, quero saber antes que ela se mova."
A expressão de Noir se afinou. Sombras se enrolaram suavemente em suas patas como fumaça. 'Entendido. Vou segui-la e ficar escondida. Você vai saber assim que descobrir algo.'
"Tenha cuidado," disse Noel baixinho, fechando o último botão da camisa. "Se algo parecer errado, recuse-se. Compreendido?"
'Sim, pai,' respondeu Noir com um sorriso audível na voz. 'Tente não sentir muita minha falta.'
Seu corpo brilhou e se dissolveu no chão, engolido por sua própria sombra até que o cômodo ficasse silencioso novamente.
Noel olhou para o ponto onde ela desaparecera, seu reflexo o observando de volta no espelho.
"Não deixe me pegarem," murmurou, mais para si do que para ela.
Nãoir deslizou silenciosamente pelos corredores, seu pelo negro se integrando a cada mancha de sombra. Ela seguiu o som suave de passos e conversas baixas até chegar ao jardim dos fundos. Lá — sob o brilho suave das lanternas — estava Mirelle.
Ela parecia… normal. Calma, composta, com uma expressão polida como sempre. No entanto, ao seu lado, estavam duas figuras vestidas com casacos escuros, com uma postura demasiado casual, confiantes demais para meros convidados. Pareciam ter a mesma idade de Noel, talvez um pouco mais velhos.
Noir se agachou atrás de um vaso de pedra, observando. 'O mana da Mirelle parece limpo,' pensou. 'Sem corrupção. Sem distorções. Mas aqueles dois…' Seu nariz se enrugou. 'Eles têm cheiro estranho.'
A fragrância ficou mais forte quanto mais ela permanecia ali — uma mistura pungente de ferro queimado e terra estragada. Não era humano. Seja o que fossem, se disfarçavam bem, suas risadas soando perfeitamente normais. Demasiado normais.
Um deles se aproximou de Mirelle, cochichando algo que a fez rir suavemente. Noir abanou a cauda uma vez. 'Ela nem sabe,' percebeu. 'Está falando com monstros disfarçados de humanos.'
Então — um dos estranhos parou no meio da frase. Sua cabeça se inclinou, os olhos varreram lentamente o jardim… direto para o esconderijo de Noir.
Seu pulso acelerou. 'Não.'
Antes que ele pudesse focar o olhar, o corpo dela se dissolveu em fumaça. Passo Sombrio. O mundo se turvou em rajadas de preto e prata, e ela reapareceu no alto de uma viga no terraço, invisível contra o teto escuro.
O homem franziu a testa, voltou a olhar para Mirelle por um momento, o ceticismo desaparecendo. Continuaram conversando, suas vozes baixas demais para ouvir.
Noir esperou até que eles finalmente se dirigissem ao portão e desaparecessem além das muralhas.
Ao pousar suavemente, ela exalou, o pelo ainda eriçado. 'Não foi bom,' pensou, estreitando os olhos. 'Cheiravam como morte… e sabiam que alguém os observava.'
Seu corpo se aprofundou no chão novamente, desaparecendo em um redemoinho de névoa violeta. 'O pai precisa saber. Agora.'
Noel estava sentado na beirada da cama, meio vestido, passando a toalha pelos cabelos. A tranquilidade do seu quarto era somente quebrada pelo suave murmúrio do vento noturno entrando pela janela.
Então, uma ondulação atravessou o chão. Noir emergiu de sua sombra, pousando suavemente no tapete. Seu pelo eriçado, orelhas abaixadas, olhos ainda brilhando em um tom violeta fraco.
"Você voltou," disse Noel, colocando a toalha de lado. "O que encontrou?"
'Mirelle está limpa,' Noir respondeu rapidamente. 'Ela está bem. Mas ela se encontrou com duas pessoas fora da mansão. O cheiro… estava errado. Como podridão e ferro. E uma delas quase me viu.'
A expressão de Noel se endureceu. "Duas do mesmo jeito que eu… mais ou menos?"
Ela assentiu, abaixando a cauda. 'Sim.'
Noel respirou lentamente pelo nariz, exalando devagar. Sua mente acelerava. 'Podridão e ferro… duas coisas diferentes, mas juntas…' Ele fechou os olhos por um momento, juntando as peças. "Os Três e Quatro Pilares. Os gêmeos."
'Os Pilares?' Noir perguntou baixinho, inclinando a cabeça.
"Sim," murmurou Noel. "Eles não deveriam estar aqui, nem tão cedo. No romance, a queda da Casa Thorne foi mencionada — mas nunca explicada. Sem detalhes, sem motivo. Agora sei. Foram eles. Os gêmeos."
Ele cerrava o punho, a compreensão profunda. "Se o que você viu for verdade, Noir… você me deu a resposta que ninguém jamais teve."
As orelhas da loba caíram um pouco. 'Desculpe por não ter conseguido chegar mais perto… não fui suficiente—'
"Ei," interrompeu Noel, com voz firme, mas suave. "Não se desculpe. Você fez mais em uma noite do que eu consegui em uma semana."
Noir piscou, surpresa, depois sorriu levemente, a cauda balançando uma vez. 'Ainda assim… farei melhor na próxima, pai.'
Ele respirou fundo, dando-lhe um sorriso leve em troca. "Eu sei que vai."
Ele se virou em direção à janela iluminada pela lua, o olhar sério e determinado.
'Os gêmeos,' pensou negativamente. 'Então foi por isso que a Casa Thorne caiu; agora, a questão é como.'