
Capítulo 377
O Extra é um Gênio!?
A luz da manhã filtrava pelas janelas altas, raios de ouro pálido escorriam pelas cortinas e pintavam longas sombras no chão. Elyra se mexeu sob os cobertores, piscou uma vez antes de se sentar. Por um momento, tudo parecia normal — o suave aroma de madeira polida, o sussurrar suave dos criados que já se movimentavam pelos corredores.
Porém, a sensação no peito dela não era normal. Uma sensação de aperto, uma coceira que ela não conseguia aliviar.
Ela afastou os lençóis e estendeu as pernas até a beirada da cama, olhando para as tábuas do piso como se pudessem lhe dar respostas. Aquela mesma sensação — aguda, persistente. A que ela aprendera a nunca ignorar.
Seus dedos roçaram a trança ao lado do ombro. "...É o Noel", murmurou baixinho, palavras dirigidas somente a si mesma. "Sei que é. Algo está errado."
Uma criada deixara o chá quente sobre a mesa, mas ela mal tocou nele. Em vez disso, dirigiu-se ao espelho, fechando a jaqueta do uniforme, seus olhos cinzentos fixando seu reflexo.
Ela parecia estável, controlada, a perfeita herdeira de Estermont. Mas por dentro, seu pulso batia irregularmente.
'Minha intuição nunca erra. Nem uma vez. Seja lá o que for, está ligado a ele. Não posso ficar aqui.'
Ao ajustar o colarinho, soltou uma respiração lenta e endireitou os ombros. A decisão já fora tomada — ela partiria para a academia. Mesmo que o semestre ainda não tivesse oficialmente recomeçado, os dormitórios estavam abertos. E esperar lá era melhor do que ficar presa aqui, inquieta e cega.
Ela virou-se em direção à porta, com passos rápidos e decididos. Seus pais provavelmente não gostariam, nem de primeira. Mas ela não ligava. Isso não era questão de permissão.
Era por Noel.
A sala de jantar estava silenciosa, apenas com o tilintar de talheres e o murmúrio suave dos criados que se moviam ao redor. Caeron sentava-se à cabeceira da longa mesa, com postura firme como aço, enquanto Elissabeth tomava seu chá com a elegância habitual.
Elyra entrou de forma enérgica, a trança balançando atrás de si ao tomar seu assento. Não se incomodou em fazer cerimônias — sua mente já estava decidida.
"Vou voltar à academia hoje", declarou simplesmente, pegando um pedaço de pão.
Seus pais fizeram uma pausa. Caeron parou o garfo no ar, seus olhos afiados se estreitaram. "A academia? Elyra, o semestre não recomeça daqui a um mês. Ainda tem semanas de folga."
Elyra deu de ombros, mastigando casualmente antes de responder. "E daí? Os dormitórios estão abertos. Quero ver meus amigos, passar um tempo lá. Ficar presa aqui me enlouquecerá."
Caeron franziu o ceo, mas não insistiu imediatamente. Sua filha não costumava falar por falar, e ele sabia disso. Ainda assim, seu instinto era questionar. "Amigos…?" Sua voz carregava mais peso do que o esperado pela palavra.
Entretanto, Elissabeth observava com mais atenção. A leve contração no canto da boca de Elyra, o sutil movimento dos olhos — aquilo não tinha a ver com amigos. Ela sabia disso.
Mesmo assim, colocou a xícara na mesa e interveio com suavidade. "Se ela quer voltar mais cedo, deixe. Elyra sempre soube o que precisa melhor do que ninguém."
Elyra sorriu levemente para sua mãe em sinal de agradecimento e olhou de volta para o pai. "Vou ficar bem. Não exagere. Não sou mais uma criança."
Caeron soltou uma respiração lenta pelo nariz, depois acenou de maneira curta. "Muito bem. Mas, se for, aja como uma Estermont. Não envergonhe esta casa."
"Nunca deixo a desejar", respondeu Elyra, com um tom leve, mas olhos firmes.
Elissabeth escondeu o sorriso de entendimento atrás da xícara. 'Ela só quer Noel. E nada do que eu diga vai impedir isso.'
Os jardins da Casa Estermont se estendiam amplos, seus buxos bem-cuidados e fontes de mármore brilhando sob o sol da manhã. No extremo do pátio, o grande quetzal aguardava — seu plumagem cintilando em tons de esmeralda e safira, asas dobradas, mas vibrando com uma potência controlada.
Um pequeno grupo de criados circulava perto. No centro, o mordomo pessoal dela carregava duas valises modestamente proporcionadas. Elyra não empacotara muito — apenas o essencial, uniformes extras e algumas coisas pessoais. Ela não sentia necessidade de mais.
Seus botas fizeram barulho contra o caminho de pedra ao se aproximar. O quetzal emitiu um trinado baixo e gutural, seus olhos dourados e afiados fixando nela como se a conhecesse bem. Elyra estendeu a mão, passando os dedos pelas penas do pescoço do pássaro. "Devagar. Temos uma longa viagem pela frente."
Sua mãe deu um passo à frente, os robes de seda levantando ao vento. Elissabeth se inclinou e deu um beijo na bochecha de Elyra, sua mão permanecendo por mais um instante. "Confie em si mesma, como sempre fez. E não deixe ninguém fazer você duvidar."
Elyra concordou com uma leve inclinação de cabeça, os lábios se formando em um sorriso. "Não vou. Obrigada, mãe."
Caeron surgiu logo atrás, imponente, com seu casaco vermelho escuro. Não a abraçou, apenas acenou com a cabeça de forma curta. Mas seus olhos suavizaram por um momento. "Lembre-se de quem você é, Elyra. Carrega nosso nome, seja em Valon ou além dela. Não se esqueça disso."
Elyra deu um sorriso irônico. "Garanto que o reino inteiro vai se lembrar."
O mordomo providenciou que as valises fossem fixadas na cabine com runas, presa às costas do quetzal. Elyra subiu com facilidade, parando uma vez apenas para olhar de volta para seus pais. Elissabeth levantou a mão em despedida, enquanto Caeron permanecia de braços cruzados, como um guardião silencioso.
O piloto deu um sinal, e, com um bater de asas ensurdecedor, o quetzal voou para cima, a propriedade se encolhendo sob eles até parecer apenas uma massa de telhados vermelhos engolidos pelas nuvens.
Horas passadas no ar, o céu infinito rompido apenas pelo brilho de rios e as linhas jaguadas das cadeias de montanhas. Então, finalmente, o horizonte se deslocou.
Valon surgiu como uma joia de pedra branca e bandeiras prateadas, esticada pelo vale. O Castelo Imperial se erguia ao seu centro — muros reluzentes ao sol, com bandeiras de carmesim e ouro esvoaçando no alto. Ruas se espalhavam em perfeita simetria, e dentro dessas muralhas, a Academia Imperial parecia uma segunda cidadela: pátios amplos, torres altas e dormitórios aninhados no distrito interno.
O grande quetzal soltou um grito agudo ao descer, girando em direção ao aeródromo da academia. Elyra se apoia na janela da cabine, com os olhos quase estreitos. 'De volta. Desta vez, está… mais pesada, de alguma forma.'
Com um vento forte e as asas batendo, o quetzal pousou, surpreendendo estudantes e criados. Elyra saiu da cabine, ajeitando a trança, enquanto seu mordomo a seguia carregando as valises.
Ela parou na borda do pátio, olhando ao redor para as torres familiares da academia. "Então é aqui que vou esperar, Noel… até você voltar."
Porém, seus pensamentos mudaram. Outro nome surgiu sem aviso. 'Seraphina… será que ela está bem.'
Como se em resposta, o som de rodas ecoou. Uma carruagem preta com dourado, ostentando o brasão de Valor, entrou no pátio. A porta se abriu, e uma figura de vestido vermelho vibrante saiu — cabelo brilhando como fogo, postura régia mas acolhedora.
Seraphina de Valor, a princesa imperial, sorriu ao cruzar os olhos com Elyra.
"Elyra!"
Os lábios de Elyra se curvaram em um sorriso, genuíno e radiante, enquanto ela avançava. "Seraphina!"
As duas trocaram mãos em saudação, rindo em união entre elas.