
Capítulo 373
O Extra é um Gênio!?
A carruagem vibrava pela estrada da montanha até desacelerar, parando em uma clareira ao bordo do caminho, onde guardas aguardavam com cavalos e suprimentos novos. O ar aqui era mais quente do que nas altas cimeiras, com uma leve fragrância de pinho e terra.
Noel foi o primeiro a sair, alongando os braços enquanto a rigidez da viagem se dissipava nos ombros. Dente do Espanto segurava suavemente na cintura dele, um peso familiar. Sylvette seguiu logo atrás, aceitando um cantil de água de um dos carregadores antes de se sentar numa pedra próxima.
Por um momento, ninguém falou. Então Sylvette quebrou o silêncio, com a voz baixa, mas curiosa. “A academia… como é que é?”
Noel olhou para ela, surpreso com a pergunta. “Movimentada. Às vezes dura. Você está sempre sendo testada, sempre treinando. Mas… também é vibrante. Pessoas buscando objetivos, lutando por algo maior do que si mesmas.”
Sylvette inclinou a cabeça, estudando-o. “Parece melhor do que ficar trancada na propriedade, estudando etiqueta e política.”
Seu tom não era exatamente amargo—mas carregava um peso. Ela levantou o cantil novamente, fazendo uma pausa antes de acrescentar: “Eu te invejava, sabia? Meu pai nunca deixou eu ir. Dizia que a academia não era necessária para mim.”
Noel encostou na carruagem, com os braços cruzados de forma despreocupada. “Claro que ele não permitiria. Para ele, a família é uma ferramenta. Ele só deixa as pessoas irem aonde acha que vão ser úteis.”
“Não é perfeita,” disse Noel finalmente. “Mas… é minha. Pelo menos, por enquanto.”
Sylvette soltou uma risada leve, sem humor. “Só isso já me dá inveja.”
Antes que Noel pudesse responder, passos pesados se aproximaram. Os guardas se afastaram e Albrecht Thorne apareceu, sua presença ocupando a clareira como uma sombra projetada no chão.
Sem dizer uma palavra, abriu a porta da carruagem e entrou.
O maxilar de Noel ficou tenso. Sylvette exalou lentamente, então entrou atrás do pai.
Assim que a porta se fechou atrás deles, o ar na carruagem ficou espesso, pesado com um silêncio não dito.
A carruagem retomou o movimento, as rodas batendo contra as pedras enquanto os cavalos ganhavam velocidade. Dentro, o silêncio se esticava. Noel permaneceu com os braços cruzados, o olhar fixo na borda borrada da floresta além da janela. Sylvette endireitou a postura, os ombros tensos, como se estivesse se preparando para algo inevitável.
Não demorou muito.
A voz de Albrecht cortou o silêncio, profunda e firme. “Agora que estamos todos aqui, é hora.”
A cabeça de Sylvette girou bruscamente. “Hora do quê?”
Seus olhos vermelhos se deslocaram de ela para Noel, pesando ambos. “De decidir o herdeiro. A casa não pode ficar mais em aberto.”
O maxilar de Noel se fechou. Ele esperava por isso, mas ouvir as palavras em voz alta era um peso diferente.
“Você provou seu valor na caça,” continuou Albrecht, com um tom implacável. “Primeiro lugar. Inflexível. Isso sozinho te coloca acima dos outros, Noel. Os outros fracassaram. De uma forma ou de outra, estão mortos. A família precisa de força, e você mostrou isso.”
As palavras eram ditas sem calor, sem orgulho—apenas fatos, frios e cortantes como aço.
Sylvette se mexeu, os dedos apertando a saia. “E quanto a mim?”
O olhar de Albrecht se moveu para ela. “Você também é forte. Mas força é avaliada pelo resultado. Você ficou atrás dele. Ele ficou em primeiro.”
Sylvette segurou a resposta, os dentes pressionando os lábios.
Noel finalmente falou, com a voz equilibrada, silenciosa. “Então é isso? Uma competição, e quem vencer usa a corrente?”
Os olhos de Albrecht se estreitaram. “Não é uma corrente. É uma responsabilidade.”
Os lábios de Noel se contorceram em algo mais próximo de um sorriso irônico, amargo e afiado. “Responsabilidade? Depois de tudo que você me tratou por anos? Agora que sou útil, de repente sou digno de ser herdeiro?”
O peso dentro da carruagem se deslocou instantaneamente. Os olhos de Sylvette se arregalaram, pulsando de um lado para o outro entre pai e irmão, mas a expressão de Albrecht permaneceu impassível.
“Você aguentou,” disse Albrecht, de forma plana. “Isso prova mais do que palavras. Preciso de um herdeiro que sobreviva. Que lute. Que vença.”
Noel se inclinou um pouco para frente, o olhar frio. “Você não precisa de mim. Precisa de uma arma. Uma ferramenta. É isso que você sempre quis.”
Pela primeira vez, Sylvette falou, com a voz tensa. “Então você realmente recusa? Assim, de repente? Depois de tudo—”
Noel a interrompeu com um olhar, depois voltou a olhar para Albrecht. “Não vou fazer isso. Tem outra opção. Uma em que eu não jogue o seu jogo.”
Os olhos de Albrecht brilharam com uma autoridade silenciosa. “Você acha que recusar é tão simples? Você carrega o nome Thorne. Carrega meu sangue. Não é uma escolha.”
A mão de Noel se fechou com força ao forquilho de Dente do Espanto, embora ele não tivesse puxado a espada. Sua voz permaneceu calma, mas cada palavra cortava como uma lâmina. “Talvez não para você. Mas para mim… sempre há uma escolha. E eu não vou me amarrar a um trono que nunca pedi.”
Mais uma vez, o silêncio caiu, o som das rodas preenchendo o vazio. O peito de Sylvette subia e descia rapidamente, sua mente acelerada, enquanto o olhar de Albrecht permanecia inalterado, impassível, indecifrável.
‘Ele não vai ceder,’ pensou Noel. ‘E eu também não.’
As rodas continuaram a ralar, o ritmado claque preenchendo o silêncio após a rebeldia de Noel. Por um longo momento, Albrecht apenas o encarou, olhos vermelhos afiados, impassíveis.
Então, para o choque de Sylvette, ele se recostou um pouco, cruzando os braços sobre o peito. “Muito bem. Respeitarei sua decisão.”
A cabeça de Sylvette se virou para ele rapidamente. “Pai—”
Albrecht levantou a mão, silenciando-a. Seu olhar permaneceu fixo em Noel. “Você recusa o cargo agora. Não vou forçar. Mas,” sua voz se aprofundou, cada sílaba deliberada, “vou exigir uma coisa em troca.”
O maxilar de Noel se endureceu. “Claro que há uma condição.”
Albrecht fez uma leve inclinação de cabeça. “Quando voltarmos ao território dos Thorne, você me ajudará com algo que diz respeito diretamente à casa. Uma questão que só você pode resolver.”
Noel franziu a testa, uma suspeita surgindo no peito. “E se eu disser que não também?”
Perdendo seu sorriso, uma sombra na boca de Albrecht se tornou afiada e sem humor. “Então você prova que não é só relutante, mas inútil. E, nisso, não vou tolerar, Noel.”
As palavras pesaram mais que aço, mas o tom de Albrecht permaneceu calmo—como se estivesse apenas enunciando as regras do mundo.
Sylvette se mexeu, insegura. “E depois disso?” ela perguntou com cautela.
O olhar de Albrecht escorregou para ela. “Depois disso, falaremos como uma família. Todos nós. A posição de herdeiro não ficará indefinida. De uma forma ou de outra, será resolvida.”
Noel recostou-se lentamente na cadeira, exalando devagar. ‘Então ele aceita minha recusa… por enquanto. O que quer que aguarde no território Thorne, também não será simples, já que há a missão — e provavelmente envolve o que Albrecht acabou de me dizer.’
A carruagem rolou ao descer a última encosta da montanha. Além do horizonte, se estendiam as terras da Casa Thorne.