O Extra é um Gênio!?

Capítulo 374

O Extra é um Gênio!?

A carruagem tremeu ao descer da última vertente, deixando para trás os caminhos rústicos das montanhas. O ar aquecia perceptivelmente, carregando o aroma de campos abertos ao invés do frio das pedras. Noel inclinou-se levemente na direção da janela, estreitando os olhos enquanto as terras da Casa Thorne se desenrolavam abaixo.

Planícies vastas se transformavam em vinhedos e vilarejos dispersos, orbitando a mansão no centro. A propriedade parecia uma fortaleza disfarçada de nobreza: altos muros cinzentos, torres de pedra trabalhada, bandeiras rubras e negras tremulando acima dos portões. Servidores e guardas alinhavam a estrada enquanto a carruagem passava, com o olhar cuidadosamente neutro — embora Noel sentisse o peso dos olhares sobre si.

A luminosidade familiar do sistema piscou na esquina de sua visão:

[Missão: Impedir a Queda da Casa Thorne.]

[Tempo Limite: 45 Dias.]

[Recompensa: A Verdade.]

'Por causa da missão, tenho que ligar agora. Tenho que impedir. Mas o que exatamente devo procurar? Qual é o gatilho? Corrupção? Traição? Uma guerra de fora?'

Ele ajustou a Gume Renascentista na cintura enquanto a carruagem passava pelos portões. 'Quarenta e cinco dias… e eu nem sei onde estão as fissuras que devo encontrar.'

A carruagem passou sob o portão de ferro. As portas da mansão se abriram amplamente, servos curvando-se enquanto Albrecht saía primeiro, sua presença cortando o ar como uma lâmina. Sylvette seguia, sempre composta, mas Noel percebeu um lampejo de tensão em sua expressão.

Quando finalmente desceu, os sussurros se intensificaram ao seu redor, embora ninguém ousasse erguer a cabeça. Ele ajustou a Gume Renascentista ao seu lado, fingindo ignorar.

'Quarenta e cinco dias. Este lugar poderia facilmente ser uma bomba-relógio.'

Seguiu os demais para dentro, a echo de seus passos se apagando na imensa entrada.

Noel abriu com cautela a pesada porta de carvalho de seu quarto e parou. As dobradiças rangeram, como se não fossem tocadas há anos.

O ar carregava poeira, como uma fina neblina. Teias de aranha se agarravam aos cantos do teto e até à moldura da janela. As cortinas, antes de um vermelho profundo, estavam agora acinzentadas, parecendo cansadas, e o chão de pedra exibia uma camada tênue de sujeira sob seus tênis.

Ele entrou lentamente, a Gume Renascentista batendo suavemente ao seu lado. 'Sempre a mesma coisa. Claro que ninguém se incomoda. Escondido, em silêncio.'

Por um momento, ele ficou ali, encarando o quarto. Uma cama, uma escrivaninha, um guarda-roupa. Nada mais. Parecia menos um aposento para um filho da Casa Thorne e mais um quarto de hóspedes esquecido em algum hotel distante.

'Se tenho que ficar aqui um mês, não vou morar num sucatão.'

Com um suspiro silencioso, ele tirou o casaco e colocou sua bolsa dimensional sobre a escrivaninha. Encontrou um pano velho em uma das gavetas e começou a limpar as superfícies, puxando-o ao longo da mesa até que a poeira finalmente se elevasse. Abriu a janela para deixar entrar uma corrente de ar, espalhando teias de aranha e o ar viciado.

A rotina o acalmou. Escrivaninha limpa, cama limpa, janela limpa. Pequenas coisas, mas que colocaram sua mente em ordem.

Quando a maior parte da sujeira foi embora, Noel se endireitou, encostando-se à moldura da janela e olhando para o pátio abaixo. Servidores se moviam como formigas, guardas patrulhavam com precisão mecânica.

'Este lugar parece forte por fora, mas se está podre por dentro, pouco importa. Se o sistema me enviou aqui, tem uma linha de falha em algum lugar. Só preciso encontrá-la.'

Ele voltou-se para o interior, os olhos cinzentos estreitando-se diante do guarda-roupa pesado e das prateleiras acima dele. 'Melhor começar por aqui. Não faz sentido perder tempo.'

Noel começou uma busca metódica pela sala, decidido a aproveitar cada hora ao máximo.

Quando percebeu que o cômodo estava minimamente habitável, saiu, a Gume Renascentista presa nas costas. Os corredores da mansão Thorne se estendiam longos e impecáveis, iluminados por lustres e decorados com retratos de ancestrais encarando do alto, em molduras douradas. Os pisos de pedra estavam polidos, as paredes, impecáveis.

Ele caminhou devagar, os passos ecoando no silêncio, vasculhando por algo fora do lugar. Servos abaixavam a cabeça rapidamente ao passar por ele, guardas faziam continências rígidas. Tudo parecia perfeito na superfície—exatamente como na Capital Sagrada.

'É isso que me incomoda. Muito limpo, muito normal. Da última vez que percorri corredores assim, havia monstros disfarçados de padres escondidos sob a santidade da Igreja. Parecia seguro… até que não era.'

Ele parou diante de uma janela alta que dava vista para os pátios internos. A propriedade estava viva—trabalhadores se movimentando com propósito, guardas patrulhando em ritmo. Nenhum sinal de fragilidade.

Noel fez careta. 'Infiltradores de novo? Talvez. Explicaria por que o sistema marcou esse lugar. Se os Pilares estão envolvidos… talvez o Terceiro e o Quarto. Os gêmeos.'

Sua mão passou por cima da empunhadura da Gume Renascentista, apertando inconscientemente. 'Sem a bênção da Charlotte para detectar corrupção, vou às cegas. Vai complicar. Um erro e estou morto.'

Ele retomou a caminhada, passando por portas trancadas, atravessando o salão de jantar, depois a biblioteca—com suas portas seladas com ferros. Tentou abrir a maçaneta, mas não se moveu.

Daqui não escapa ninguém.

Cada corredor que percorria parecia mais pesado. Os retratos observavam excessivamente. O silêncio parecia ensaiado.

Noel respirou fundo pelo nariz, a mandíbula firme. 'Se o sistema quer que eu evite a queda, a podridão já está aqui. A única questão é onde ela começa. E até onde vai.'

Ele seguiu mais adiante na mansão, passos firmes, expressão calma. Mas no seu interior, cada instinto gritava que as fissuras estavam lá—só esperando ele tropeçar nelas.

"Jovem mestre Noel."

A voz veio de trás dele— baixa, firme, carregando a pesagem de anos. Noel virou rapidamente a cabeça.

Lá estava Frederick, o mordomo da Casa Thorne. Magro, quase esquelético sob seu sobretudo impecável, cabelos brancos penteados perfeitamente, apesar da postura curvada. Seus olhos, pálidos e afi±s, fixaram Noel com uma calma que deixava claro que observava há mais tempo que um instante.

"Não creio que seu pai tenha lhe dado permissão para entrar na biblioteca," disse Frederick, com tom seco porém respeitoso.

Noel se endireitou, a mão escorregando da maçaneta. "Na verdade, deu. Há muito tempo." Uma leve sombra de sorriso surgiu em seus lábios. "Mas acho que terei que lembrá-lo."

Frederick nem franziu a testa, nem sorriu. Apenas inclinou a cabeça, como arquivando a resposta. Então ajustou as mangas e falou novamente.

"De qualquer forma, há outra questão. Hoje à noite, a família reunirá para o jantar. Não será uma refeição casual. Discutirá-se o futuro herdeiro da Casa Thorne. Sua presença é esperada."

O sorriso de Noel desapareceu, substituído por algo mais frio, mais calculista. 'Claro. Direto ao ponto.'

Frederick fez um gesto de lado, indicando o corredor com uma mão frágil porém firme. "Até lá, aconselho que descanse, jovem mestre. Precisará de uma mente clara."

Noel o estudou por mais um momento. A postura de Frederick era curvada, sua voz silenciosa, mas havia um picro no olhar que lembrava uma lâmina escondida na bainha.

"…Tudo bem," disse finalmente, passando por ele. "Eu estarei lá."

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