
Capítulo 358
O Extra é um Gênio!?
A última automata caiu com um estrondo metálico, seu corpo espalhando faíscas antes de parar completamente. O silêncio voltou a envolver a câmara, pesado e sufocante.
Noel cambaleou um passo, a Lâmina do Fantasma ainda vibrando suavemente em sua mão, a lâmina amaldiçoada absorvendo os resíduos de seu mana. Seus pulmões ardiam, suas costelas doíam, mas o pior era a exaustão que inundava cada parte de seu corpo.
Selene abaixou lentamente sua varinha, a luz desaparecendo até que apenas um brilho tênue de geada permanecia grudado aos seus cílios. Ela ficou ereta, a respiração firme, mas Noel não deixou de perceber o modo como seus ombros se movimentaram, a tensão se esvaindo após a tempestade que ela tinha desencadeado.
Então o chão tremeu.
A estátua de Elarin gemeu, a pedra rangendo contra a pedra. Raios de luz se espalharam pelo chão antes da base se deslocar com um estrondo profundo. Poeira saiu das frestas ao se revelar uma passagem oculta—uma abertura larga o suficiente para que eles passassem, mas envolta em sombras negras e densas.
A mão de Noel se fechou com mais força ao redor da espada. "Ótimo. Outra surpresa."
Os olhos de Selene se estreitaram, afiados mesmo na escuridão. "Não é uma armadilha. Ao menos, ainda não. O mecanismo só revelou a passagem."
Ambos olharam fixamente para a entrada. O ar que saía dela era frio, mais antigo que a poeira pela qual tinham acabado de lutar, carregando o peso de algo que aguardava.
Noel expirou, encostando as costas na parede. Seus braços tremiam, a fadiga pesando em cada respiração. "Não vamos entrar assim. Se eu desabar na metade do caminho, você vai ter que me arrastar pra fora."
O olhar de Selene permaneceu nele, expressão indecifrável. Então ela inclinou a cabeça uma vez. "Primeiro, precisamos de descanso. Entrar desse jeito é suicídio."
Noel deslizou pela parede até se sentar no piso frio de pedra, a Lâmina do Fantasma repousando em seu colo. Seu peito subia e descia de forma irregular, cada respiração aguda contra as costelas machucadas. A lâmina amaldiçoada ainda pulsava levemente, como se alimentando do aftermath da batalha.
Selene ficou a alguns passos, a varinha abaixada, mas o olhar fixo nele. Sua expressão era calma, mas seus olhos mostravam cálculo. Finalmente, falou, a voz firme e fria: "Tire a camisa."
Noel piscou surpreso. "Como assim?"
"Você está sangrando. A menos que queira abrir seus ferimentos ainda mais, faça o que mando."
Ele soltou um riso sem humor, mas a dor nas costelas silenciou qualquer protesto. Com um suspiro relutante, puxou a camisa por cima da cabeça. O tecido grudou com sangue seco antes de se desprender, deixando seu torso à mostra na luz tênue dos cristais de mana.
A respiração de Selene ficou presa por um momento, embora ela tenha disfarçado rapidamente. Seu corpo mostrava marcas da batalha—cortes recentes nos braços e ombros, hematomas escurecendo suas costelas, e inúmeras cicatrizes, antigas e novas, gravadas na pele. Cada uma um lembrete de quantas vezes ele esteve à beira da morte.
Sua mão pairou no ar por um instante, antes de uma luz fria brilhar na ponta de sua varinha. Ela se ajoelhou ao lado dele, aplicando o feitiço sobre sua pele. Geada se espalhou suavemente pelos ferimentos, selando a carne com precisão cortante.
Noel expirou ao sentir a dor diminuir. 'Ela não precisa ver isso. Essas cicatrizes não são pra admirar. São prova de tudo que quebrei só pra sobreviver.'
Selene não disse nada, mas os dedos apertaram a varinha com mais força. Ela passou a magia por mais uma cicatriz, os lábios entreabertos por um instante antes de se obrigar a ficar em silêncio.
O silêncio entre eles ficou mais pesado do que antes.
A magia de Selene fluía com ritmo constante, cada ferida se fechando sob seu controle cuidadoso. A dor aguda se transformou em dormência, deixando o corpo de Noel marcado, mas sem sangue escorrendo.
Então, por um instante, suas mãos pararam. A luz na ponta da varinha piscou fracamente.
De repente, veio à mente dela—os lábios dele contra os dela, o beijo impulsivo que ela roubara. Ela se lembrou do calor, das palavras que seguiram: que ele não podia decidir nada sem Elyra, Elena e Charlotte, que já estavam ligados a ele.
O peito dela apertou, embora a expressão não traísse nada. 'Por que estou pensando nisso agora? Concentra, Selene.'
Noel levantou uma sobrancelha ao perceber a calma repentina. "Você já terminou?"
Seus dedos tremeram. "...Não."
A luz voltou a brilhar intensamente, mais forte do que antes, enquanto ela aprofundava a geada curativa em seu lado. Ela não se permitiu olhar nos olhos dele, com medo de que ele pegasse o leve tremor em sua compostura.
Noel a observou por mais um momento. A forma como sua mão permaneceu ali, a precisão de seus movimentos—algo parecia estranho. Ele sorriu fracamente, embora por dentro estivesse desconfortável. 'Ela está escondendo algo. Melhor deixar assim.'
O silêncio entre eles se prolongou, carregado de palavras não ditas. Noel recostou a cabeça contra a pedra, fechando os olhos por um instante enquanto a magia fria de Selene se espalhava por ele.
Selene controlou sua respiração, focando totalmente nos ferimentos. Mas, por mais que tentasse, a lembrança daquele beijo não desaparecia, teimando em não se apagar.
Por um tempo, ninguém falou. A câmara permaneceu silenciosa, quebrada apenas pelo gotejar suave de água do teto e o crepitar delicado do metal congelado.
Então, um som baixo ecoou ao longe. Selene congelou.
Os olhos de Noel se voltaram para ela. "...Foi seu estômago?"
Suas bochechas ficaram levemente coradas, a menor expressão de desconforto em seu rosto. Ela virou a cabeça de lado. "..."
Noel sorriu, inclinando-se para frente. "Quer comer alguma coisa?"
Foi um longo momento de silêncio antes que ela desviasse a cabeça numa confirmação mínima, tensa e relutante, como se admitir fraqueza fosse mais difícil que a batalha.
Ele soltou um suspiro e puxou a fivela do cinturão até encontrar a pequena bolsa presa ao lado. A Bolsa Dimensional cintilou suavemente enquanto a abria, retirando um pacote de provisões secas e uma garrafa d'água. Colocou-os entre eles.
"Não é muita coisa, mas é melhor que passar fome," murmurou, rasgando um pacote.
Selene aceitou a comida com mãos discretas, evitando o olhar dele. Mastigou lentamente, mantendo a postura ereta, embora o leve rubor nas bochechas revelasse sua vergonha.
Noel mastigou sem cerimônia, encostando-se na parede. 'Melhor ela comer. Depois do que a mãe dela lhe fez, depois de tantos anos sendo intencionalmente privada de alimento… não posso deixá-la passar fome. Não de novo. Pelo menos enquanto eu estiver aqui, não quero que ela lembre do passado.'
Por um momento, o ar entre eles parecia quase normal—duas pessoas fazendo uma pausa, não sobreviventes presos numa fortaleza amaldiçoada.
Quando os últimos farelos desapareceram, Noel se levantou, mexendo os ombros. As costelas ainda doíam, mas pelo menos ele podia ficar ereto.
A passagem se abriu atrás da estátua, escura e silenciosa, esperando.
Selene também se levantou, a varinha na mão, a compostura restabelecida. "Vamos."
Noel olhou para ela, com um sorriso meio desafiador. "Vamos ver o que mais esse lugar está escondendo."