
Capítulo 356
O Extra é um Gênio!?
A medida que avançavam, o santuário parecia menos uma ruína e mais um local deliberadamente preservado. As paredes se ampliavam em corredores altos, revestidos por glifos desbotados que pulsavam suavemente sempre que as luzes de mana passavam por eles. O ar era espesso, úmido, pesado pelo peso de séculos.
As botas de Noel rangiam no piso de poeira que não era perturbada há eras. Sua mão permanecia próxima à Presa do Ressurgente, cada nervo à flor da pele após as patrulhas que tinham passado de raspão. Ao seu lado, Selene caminhava com sua postura aguda habitual, mas ele percebia como seus olhos percorriam cada marca, absorvendo cada detalhe.
Eles entraram numa câmara ampla que exalava cheiro de decomposição. Prateleiras tombadas como soldados caídos, madeira semi-invadida por cupins, espalhando livros e pergaminhos em pilhas caóticas. Alguns manuscritos tinham se dissolvido inteiramente em pó, outros permaneciam desesperadamente em forma, com a tinta manchada em cicatrizes negras.
Selene parou. Ela se ajoelhou ao lado de uma prateleira quebrada, os dedos tocando uma página frágil. Seus olhos—friamente cianos em batalha, mas agora suavizados—refletiam uma fascinação silenciosa. Por um momento, ela parecia menos a prodígio inabalável da academia e mais uma garota diante de um tesouro proibido.
A voz de Noel quebrou o silêncio, baixa e regular. "Não crie apego. A maior parte disso é ilegível. E carregar qualquer coisa nos desacelera."
Ela não respondeu imediatamente. Seus dedos permaneceram por mais tempo, como se estivessem decorando a textura da história. Finalmente, ela se levantou, espirrando poeira das mãos na saia. "Sei. É que… esses escritos podem ser mais antigos do que Valor em si."
"Não importa se não conseguimos sair vivos," respondeu Noel, passando pelos restos de pergaminho.
Selene apertou os lábios, formando uma linha fina. Ela assentiu rapidamente, controlando sua expressão de volta ao estado de calma. Juntos, continuaram avançando, deixando para trás a biblioteca destruída e o peso de séculos.
O corredor se abriu em uma câmara vasta, e ambos congelaram.
Dezenas—não, centenas—de constructos preenchiam o salão. Autômatos, mas dessa vez não patrulhando. Estavam de joelhos, perfeitamente imóveis, com as mãos blindadas juntas ou repousando sobre os joelhos dobrados. Cada um encarava o fundo da câmara, com as cabeças baixas em uma sincronia estranha. Parecia menos uma guarnição e mais uma congregação congelada em oração.
O maxilar de Noel se apertou. A imobilidade parecia errada, opressora. Nenhuma engrenagem se movia, nenhuma dobradiça rangia, mas o próprio ar vibrava como se percebesse sua presença.
Ele levantou a mão, sinalizando para Selene. Ambos se esconderam atrás de uma coluna de pedra maciça, as costas coladas à sua superfície fria. O silêncio pesava cada vez mais, mais pesado a cada segundo.
Selene se aproximou, seu sussurro quase inaudível. "Nunca vi nada assim. Nem mesmo nas ruínas antigas que a academia catalogou."
Os olhos de Noel acompanharam as fileiras de joelhos. Cada um tinha a mesma postura, o mesmo ângulo de inclinação. Essa uniformidade lhe causava arrepios. "Que diabos eles estão fazendo? Talvez esperando por algo?"
Ela respirou silenciosamente, os nós das mãos brancos contra a varinha. "Esperando o quê?"
Pensou grimamente: Nós, Noel, embora não tenha dito. Em vez disso, escaneou a câmara. Olhos de todos os constructos—embora abaixados—apontavam em direção ao fundo do corredor. Algo estava lá, semioculto na sombra.
Ele inclinou o queixo, na direção exata do seu olhar. Os olhos de Selene se estreitaram ao perceber também.
Uma estátua. Monumental, impondo-se acima dos devotos de metal de joelhos.
Noel exalou lentamente, um sorriso sem humor se formando nos lábios. "Certo."
"Devemos… nos aproximar?" perguntou Selene, com a voz tensa.
Ele ajustou sua empunhadura na Presa do Ressurgente. "Não temos escolha se quisermos encontrar algo útil."
De passo em passo, atravessaram a câmara. O som das botas foi engolido pelo silêncio opressivo, mas Noel não conseguia se livrar da sensação de que cada construto ajoelhado os ouviu. Manteve a Presa do Ressurgente solta ao lado, pronta para atacar ao primeiro movimento de metal.
No final do corredor, as sombras recuaram, revelando a monumento. Uma estátua gigante, esculpida de uma pedra perfeita: um homem com cabelos longos que caíam até os ombros, peito nu, como as estátuas dos impérios antigos. Músculos perfeitamente proporcionais, expressão de confiança régia, como se a própria figura exigisse reverência.
A base trazia uma única inscrição, gravada fundo o suficiente para sobreviver à eternidade:
ELARIN.
A respiração de Noel ficou presa — não de admiração, mas de reconhecimento. "O primeiro homem a formar um núcleo de mana. O chamado origem de tudo. Então era assim que ele era."
Ao seu lado, Selene permanecia inesperadamente imóvel. Seus olhos percorriam cada linha da inscrição, cada detalhe na pedra. Por um longo momento, ela não falou—apenas observou, ponderando o que via em relação a tudo que aprendera.
Por fim, sua voz quebrou o silêncio, calma mas firme. "Então, esse é Elarin? O deus que nos ensinam a venerar em Vaelterra? …Ele parece diferente das estátuas na Capital Sagrada."
Noel inclinou a cabeça, franzindo os olhos para os traços perfeitos da pedra. "Sério? Essa é a minha primeira vez vendo ele de verdade."
O olhar dela não saiu da monumento. "Não condiz com a imagem que nos mostraram a vida toda."
"Aposto que até deuses têm retratos bons e ruins," murmurou Noel com um sorriso tênue nos lábios.
Selene lançou um olhar de soslaio para ele, expressão difícil de decifrar, depois voltou-se para a estátua.
Por impulso, Noel se virou, se aproximando. A superfície da pedra brilhou suavemente sob a luz de mana. Contra seu próprio juízo, estendeu a mão e tocou o braço da estátua.
Fria. Morta. Somente pedra.
Ou assim parecia.
O toque quebrou algo invisível.
Um tremor percorreu o salão, baixo e metálico, como um batimento de coração ecoando dentro do ferro. Uma a uma, as autômatos ajoelhados vibraram, as cabeças se ergueram em perfeita sincronia. Seus olhos ocos acenderam-se, uma luz pálida brilhando de dentro dos encaixes.
O silêncio foi destruído pelo rangido de engrenagens e pelo estrépido de articulações antigas, se libertando após séculos de imobilidade. Dezenas de cabeças se voltaram para eles, movimentos rápidos, mecânicos, inevitáveis.
Noel sentiu imediatamente — a arma amaldiçoada em sua mão pulsava, um frio ardente invadindo suas veias.
[Traço: Foco Tormentado — Ativado.]
A névoa do medo se transformou em uma clareza cristalina. Cada som, cada detalhe na câmara cortou afiado na sua percepção.
[Traço: Vontade do Esquecido — Ativado.]
Algo mais profundo veio à tona. Seus músculos se tensionaram mais ainda, seu coração pulsava como um Tambor de Guerra. Por um instante, ele se sentiu mais rápido, mais afiado, mais vivo do que nunca. O preço daquele poder sussurrou na sua mente, mas não havia tempo para pensar nisso.
"Droga… isso quer dizer que estamos em perigo real."
Selene reagiu instantaneamente, sua varinha levantada, uma espiral de gelo se formando sobre o chão de pedra sob seus pés. Mana se acumulou ao redor dela, o ar frio cortando a pele de Noel.
Ele recuou da estátua, a Presa do Ressurgente vibrando em sua mão, sua ponta negra brilhando sob a luz etérea. Seus lábios se torceram numa expressão amarga. "Sério… foda-se tudo isso."
A primeira autômato se endireitou completamente, as placas rangendo ao levantar-se. Depois outro. E todos os demais. Seus passos coordenados ecoaram como uma marcha de guerra, sacudindo o teto.
A estátua de Elarin permaneceu imóvel, um deus silencioso presidiendo sobre seus fiéis de metal, enquanto seus devotos avançaram em ordem perfeita.
A batalha tinha começado.