
Capítulo 353
O Extra é um Gênio!?
A câmara em que eles entraram de surpresa estava silenciosa, quase de um silêncio inquietante. Estátuas antigas alinhavam as paredes rachadas — figuras aladas esculpidas em pedra, com os rostos desgastados até parecerem máscaras sem feição. O chão coberto por uma camada grossa de poeira, mas o ar parecia errado, pesado, como se o lugar ainda estivesse vivo.
Noel arrastou a bota pelo chão e sentou-se pesadamente contra uma das estátuas. Batendo os dedos, uma tênue linha de fogo começou a surgir. «Arco de fogo.» Uma chama controlada acendeu, pairando baixo sobre o chão, dando à câmara um brilho âmbar e tênue.
Selene acomodou-se ao lado dele, com a varinha repousada no colo. Sua respiração agora estava mais estável, embora seus ombros estavam caídos de um jeito que Noel não costumava ver. Ela sempre estava comportada, composta — mas naquela noite ela simplesmente parecia… cansada.
— Você quase se esgotou lá atrás — disse Noel suavemente, observando as chamas dançarem.
Seus olhos cianos o fitaram, afiados como sempre. — E você não? —
Ele sorriu de leve, levantando a Dente do Retentor para que a lâmina amaldiçoada refletisse a luz. — A diferença é que estou acostumado com isso. —
Ela não respondeu imediatamente. Em vez disso, seu olhar permaneceu nas chamas, os dedos tocando o chão como se estivesse se conectando com o local. Após um momento, ela admitiu: — Eu exagerei. Aquilo não eram… coisas comuns. —
O semblante de Noel ficou sério. Ele deixou o silêncio se alongar, o crepitar da chama preenchendo pouca coisa. — Fala sério. Se esses são o recheio do Welcome Party, o que tem mais profundo aqui deve ser pior. —
Selene se recostou contra a parede, puxando o capucho mais para perto. — Então, teremos que ficar próximos. Sem vacilos. —
Por uma vez, Noel não discutiu. Ele apenas assentiu, os olhos fixos na passagem sombria à sua frente.
'É. Sem vacilos.'
Os restos do autômato jazia no centro da câmara, ainda fumegando suavemente onde a Dente do Retentor havia cortado seu elmo. Seu corpo parecia humano, mas era torcido — revestido por uma liga prateada-branca, com juntas demasiado perfeitas, elevando-se a um nível de fluidez de que nem os ferreiros mais modernos poderiam imaginar.
Noel agachou-se ao lado, inclinando a cabeça. Ele bateu um dedo na armadura metálica. — Parece uma armadura. Só… maior do que devia. —
— Armadura não se move sozinha — afirmou Selene, com tom monótono. Ela se ajoelhou em frente a ele, a ponta da varinha brilhando com uma luz gelada que iluminava os destroços.
— É, mas ela cai do mesmo jeito — murmurou Noel. Ele pegou um fragmento da armadura e forçou a tirar, franzindo a testa ao notar o peso. — É densa, parece ferro misturado com alguma coisa. Seja lá o que for, a Dente do Retentor cortou isso facilmente. —
O olhar de Selene estava fixo no peito do autômato, onde linhas tênues de circuitos de mana pulsavam mesmo após a morte. Runas gravadas no núcleo brilhavam com um leve restinho de luz — círculos dentro de círculos, tão complexos que até sua mente afiada tinha dificuldades em acompanhá-los.
— Isso não é… — sua voz baixou, quase para si mesma. — Mesmo em toda a coragem, nada assim existe. Esse nível de refinamento… Não entendo. —
Noel piscou, endireitando-se. — Espera. Você não entende? —
Seus olhos se ergueram de repente, afiados. — Acha que eu pareço entender? — ela indicou as runas quebradas e o núcleo quase vivo. — Isso está séculos à nossa frente. E, ainda assim, está aqui, enterrado sob ruínas pelas quais ninguém pisou há gerações. —
Noel franziu a testa, mas apenas deu de ombros. — Não importa se é avançado ou não. Bateu mana e morreu quando cortei. É só isso que preciso saber. —
As mãos de Selene apertaram a varinha com mais força, um sentimento de inquietação cruzando seu olhar. — Se nem eu consigo entender isso… então, no que exatamente a gente se meteu? —
Noel recuou contra a parede de pedra rachada, respirando com dificuldade. A energia da batalha tinha passado, mas as ondas de efeito da maldição da Dente do Retentor ainda estavam consumindo seu corpo. Cada músculo queimava, os tendões se apertando como se fogo estivesse entrelaçado com suas veias. Ele rangeu os dentes, tentando manter a respiração controlada.
Selene deu um passo adiante, abaixando completamente a varinha. — Você está ferido. —
— Não — murmurou Noel, quase perdendo as forças. Ele se apoiou na parede, forçando um meio sorriso. — Só… pagando a conta. —
Seus olhos se estreitaram, uma leve preocupação teimando na testa. Sem dizer mais nada, ela se aproximou dele, colocando um braço ao redor para guiá-lo até uma área plana na sala destruída. O peso dele parecia maior do que ele admitiria.
— Sente-se — disse ela de forma simples.
Ele obedeceu, sentando-se até que a dor diminuísse para uma pontada baixa. Selene hesitou por um segundo e se deitou ao lado dele. Quando ele se inclinou para a frente, ela se mexeu de forma desconfortável, deixando sua cabeça descansar em seu colo.
A posição fez corar suas bochechas, mas ela manteve o olhar fixo à frente, recusando-se a olhar para baixo. Seus dedos tremeram ao tocar a tecido da saia, traindo nervos que ela nunca admitiria.
Noel soltou um suspiro, fechando os olhos. — Acho que isso… funciona melhor do que um travesseiro de pedra. —
Os lábios de Selene se comprimiram em uma linha fina. Ela não respondeu, mas suas mãos pairaram próximas aos ombros dele, como se ponderasse se tocá-lo ou não. Em vez disso, ela permaneceu tensa, o coração batendo mais rápido do que a batalha permitira.
Para fora, ela era pedra — séria, fria como sempre. Mas por dentro, ela estava queimando. —
O ritmo da respiração de Noel se acalmou. Pela primeira vez desde que entraram no santuário, ele permitiu-se relaxar.
Selene permaneceu totalmente imóvel, cada músculo travado como se qualquer movimento pudesse acordá-lo. O peso de Noel, quente e sólido, repousava contra suas coxas, seu cabelo loiro caindo levemente sobre o rosto. Sua respiração estabilizada, lenta e constante — o ritmo indiscutível do sono.
Ela mordeu por dentro da bochecha. — Fique calmo. Apenas, mantenha a calma. —
Era mais difícil do que qualquer batalha que tivesse travado naquele dia. O silêncio do santuário pressionava ao redor, quebrado apenas pelo leve crepitar das veias de mana ao longe. Normalmente, ela acolheria o silêncio. Agora, ela ficava sozinha com seus pensamentos, que começavam a desgovernar-se.
Ela ousou olhar para baixo. O rosto dele estava relaxado pela exaustão, os cílios sombreados.Dele, parecendo mais jovem, quase frágil. Nada daquela força implacável que enfrentara ao seu lado contra construtos que deveriam tê-los esmagado ambos.
Seu coração deu um baque dolorido, e ela desviou o olhar imediatamente. O calor subiu pelo pescoço, subindo até as orelhas. — Por que estou assim? Ele está só dormindo. —
O pior era a confiança. Ele não hesitou em fechar os olhos, em se abrir, vulnerável na presença dela. Esse simples ato a deixava mais inquieta do que qualquer golpe que ela tivesse defendido.
Seus dedos roçaram sua barba, tremendo levemente. Queria passar uma mechinha do cabelo do rosto dele, mas o medo a travava. E se ele mexesse? E se percebesse o quanto ela estava insegura?
Então, ela apenas permaneceu ali, tensa e rígida, cada segundo parecendo uma eternidade. Seu pulso insistia em bater forte, como se quisesse sair do peito.
'Por que isso dói mais que lutar?'