
Capítulo 354
O Extra é um Gênio!?
Noel foi o primeiro a se mexer. O silêncio do santuário pesava, pesado e imóvel, quebrado apenas pelo leve gotejar de água ao longe. Seu corpo doía—músculos tensos, costelas doloridas—mas não o suficiente para impedi-lo de perceber a figura ao seu lado.
Selene dormia. Dormia de verdade, não aquela meia-voz de descanso que ela normalmente conseguia. Sua cabeça inclinava-se ligeiramente em sua direção, os fios de cabelo caíam sobre o rosto, traçando suavemente sua bochecha. Neste momento, ela não parecia aquela garota fria e inacessível que todos viam. Parecia humana—pacífica.
Noel soltou uma respiração silenciosa. "Selene… você carregou demais sozinha, não foi?" Ele reviu mentalmente tudo o que sabia: a crueldade da mãe dela, a fome que suportou, os anos sem calor. Ninguém tinha ficado tempo suficiente ali para quebrar a muralha que ela construiu. Ninguém, exceto ele—e isso só porque ele já sabia a verdade, graças ao maldito romance.
Seu lábio se curvou levemente, embora não houvesse humor na expressão. "Você não nasceu fria. Foi obrigada a ser assim." Não pôde deixar de sentir algo afiado no peito, uma espécie de proteção. Entre todas as pessoas aqui, Selene era quem ele compreendia melhor. Não porque ela lhe dissesse algo, mas porque ele tinha visto os pedaços que ela tentava esconder.
O fio de cabelo que cobria seu rosto se deslocou um pouco com sua respiração. Por um momento, Noel hesitou. Então, quase contra seu melhor juízo, estendeu a mão e moveu-o delicadamente, colocando-o atrás da orelha dela.
O rosto dela, livre de sombras, parecia mais calmo do que ele já tinha visto. "Você merece parecer assim o tempo todo," pensou.
As pálpebras de Selene tremularam, uma leve mudança rompendo o silêncio. Seus olhos se abriram lentamente, as íris azul-celeste captando o brilho tênue do santuário. No instante em que percebeu que a mão de Noel permanecia próxima ao rosto dela, suas bochechas se incendiaram de cor.
"O que você está fazendo?" perguntou ela, a voz plana, mas mais fina que o habitual, traindo a onda de calor que se espalhava pela pele dela.
Noel piscou, interrompendo o gesto, e puxou a mão de volta. "...Desculpe. Seu cabelo estava cobrindo o rosto. Eu só arrumei."
Os lábios dela se comprimiram em uma expressão firme. Virou a cabeça, mas não antes que ele captasse o rubor intenso tingindo suas orelhas. "Você não devia… fazer coisas assim sem avisar."
Noel soltou uma risada silenciosa, encostando-se na pedra fria. "Justo. Ainda assim, fica melhor assim. Você fica… mais calma."
Selene congelou, o coração acelerando contra as costelas. Mais calma? Ninguém tinha dito algo assim para ela antes. Ela tentou manter a expressão sob controle, mas suas mãos apertaram a varinha, um leve tremor a traindo.
"Não diga coisas dessas tão facilmente," murmurou, os olhos fixamente na direção do chão, teimosamente.
Noel inclinou a cabeça. "Facilmente? Acredite, não foi."
O silêncio se alongou, mais pesado do que antes, até que Selene, desconfortável, finalmente se mexeu. "É… manhã," ela disse, voz rígida. "Você dormiu por um tempo. Como está se sentindo?"
"Melhor", admitiu Noel, encolhendo os ombros com uma leve careta de dor. "Dolorido, mas melhor. Acho que seu colo não é o pior lugar para dormir."
Seu rosto imediatamente se manchou de vermelho mais intenso, e ela virou o olhar para a parede oposta. "Não—não diga isso."
Ele sorriu de leve. "O quê? Estou apenas sendo honesto."
O pulso de Selene não se acalmava. Cada segundo de silêncio pesava mais contra ela, fazendo-a se sentir exposta, frágil. Ela não podia permitir isso.
Com uma precisão consciente, ela endireitou as costas e deixou sua voz cortar o ar, fria e firme. "Já passou da hora. Devemos conversar sobre onde estamos—e o que vamos fazer."
Noel levantou uma sobrancelha com a mudança repentina, mas não discutiu. Sentou-se direito, providenciando a poeira de seus ombros, seu sorriso se transformando em algo mais afiado. "Certo. Conversa prática. O que acha?"
Selene sinalizou com a cabeça na direção dos intermináveis corredores de pedra que se estendiam na escuridão. "Honestamente, acho que devemos procurar uma saída daqui. Já vimos que há coisas hostis que nos perseguem."
Noel a estudou por mais um momento, depois assentiu. "Hostis, sim. Não dá pra saber o que mais tem por aí embaixo." Ele esticou os braços, ainda com uma pontada de dor. "Então, vamos ficar juntos. Cuidar um do outro. É simples assim."
Aperto na varinha de Selene relaxou um pouco. Simples. Ela conseguia lidar com o simples. Isso a ancorava, desviando sua mente do calor que ainda persistia em seu rosto.
"Quanto mais tempo esperamos," ela continuou, "mais chances de algo mais nos encontrar. Ficar parado não é uma opção."
"Concordo", respondeu Noel.
Selene inclinou a cabeça, sua expressão voltando ao seu habitual semblante de calmaria. Por dentro, seus nervos ainda tremiam. Mas isso—estratégia, sobrevivência, estrutura—ela podia controlar.
A quietude do santuário era enganosa. Não estava vazio—Noel sentia isso nos ossos.
Seus passos ecoaram suavemente pelo piso polido, as paredes cobertas por entalhes desbotados que o tempo só tinha parcialmente apagado. Entre as sombras, brilhos suaves de movimento denunciavam a presença de mais construções. Autômatos, com corpos blindados refletindo a luz pálida de cristais de mana embutidos nas paredes. Seus passos retumbavam de forma pouco natural, como se patrolassem, com cabeças se virando com precisão mecânica.
Noel levantou a mão, sinalizando para Selene parar. Ambos se encostaram contra uma coluna, respirando lentamente enquanto dois desses autômatos passavam, os olhos brilhantes varrendo o corredor. Só quando o som do metal se dissipou é que Noel deu um passo à frente novamente, apertando com mais força sua Lâmina do Vingador.
A voz de Selene quebrou o silêncio. "O que fazemos? Não podemos lutar contra todos eles."
Noel exalou pelo nariz, seus olhos fixos na passagem que se estendia cada vez mais para dentro do desconhecido. "Não vamos. Vamos nos esconder o máximo possível. Lutar contra cada autômato aqui iria nos esgotar antes mesmo de encontrarmos o que precisamos."
Ela assentiu, embora seu olhar permanecesse calculando as rotas de patrulha. "Então, buscamos. Por quê? Uma saída?"
"Uma saída, ou… algo mais." A voz de Noel ficou mais firme, mais aguda. "Não importa o quê. Este lugar não foi feito para esconder-se pra sempre. Vai ter um núcleo, uma câmara, talvez até registros. Seja lá o que for, pode nos dar um caminho adiante."
Eles se moveram novamente, devagar, entre sombras e esconderijos. Quanto mais fundo iam, mais opressivo parecia o ar, como se o próprio santuário estivesse os observando.
"Ainda assim," acrescentou Noel baixinho, "Tenho certeza de que os outros já perceberam que saímos. Patriarcas, matriarcas… não são do tipo de ficar de braços cruzados."