
Capítulo 339
O Extra é um Gênio!?
A encosta arborizada se estendia até onde a vista alcançava, sombras entrelaçadas entre rochas irregulares e árvores finas. Selene avançava sem hesitar, seus passos silenciosos sobre a terra úmida. Cada respiração que exalava cintilava levemente, o ar ao redor sempre um pouco mais frio do que deveria ser.
Um farfalhar quebrou o silêncio. Do meio do mato, três Porcos do Rasgador de Fendas saltaram à frente — criaturas de pernas curtas com presas negras como obsidiana, faíscas de mana reluzindo ao redor delas. Seus olhos pequenos brilhavam, famintos e vorazes.
Selene não vacilou. Melhorou a pegada na varinha, que pulsava suavemente como uma luz congelada.
"Aperto de Gelo."
A terra sob o primeiro porco rachou com o frio. Mãos de gelo espectrais e irregulares surgiram, prendendo-se às suas patas antes de se espalharem pelo corpo. Elegritou e se contorceu, faíscas saindo inutilmente contra a prisão congelada.
Os outros dois, mesmo assim, avançaram. A expressão de Selene permaneceu calma. Ela deu um leve passo de lado, levantando sua varinha.
"Lança de Gelo."
Uma lança de gelo condensado disparou em direção à cabeça de um porco, atravessando-a e levando-o ao chão. O corpo se contraiu uma única vez e parou. Uma segunda lança seguiu logo na sequência, atingindo de raspão o lado do último animal, que já corria. Ele tropeçou, seu impulso rompido, e caiu numa pilha de sangue e gelo.
O primeiro, ainda preso pelo gelo, soltou um rugido abafado. Selene fez um gesto com o pulso e a geada se apertou até o corpo dele se despedaçar como vidro quebrado. O silêncio voltou, interrompido apenas pelo estalar dos pedaços de gelo derretendo.
Ela ficou ali por um momento, com a respiração controlada. Dentro, embora, seus pensamentos pressionavam sua aparência de calma.
"Três criaturas de nível Ápice, desaparecidas em segundos. E, ainda assim… não parece suficiente. Se ele estivesse aqui, Noel teria feito o mesmo. Talvez até mais rápido."
O ar mudou. Um sussurro baixo deslizou pelas rochas acima, vibrando a encosta da montanha. Selene congelou no meio do movimento, seus olhos dourados franzindo enquanto uma silhouette se desenrolava de uma borda — uma Serpente de Graviton, escamas mescladas de cinza e prata, seu corpo ondulando com peso sobrenatural. Cada movimento distorcia o ar, como correntes invisíveis que o comprimiam.
Ela avançou. O próprio chão parecia puxar seus pés para baixo, mais pesado a cada segundo. Seus dentes cerraram.
"Presença de Gravidade."
Ela repeliu a estratégia da criatura, dobrando a gravidade ao redor de sua seção intermediária enroscada. A descida da serpente vacilou, seu ímpeto desacelerando o suficiente para que ela conseguisse se desviar, suas saias raspando a poeira do impacto. O chão tremeu ao bater sua cabeça onde ela estivera segundos antes.
Sua varinha girou na mão.
"Flores de Gelo."
Flores de gelo surgiram sob seu corpo, pétalas cortantes como navalhas e brilhando com uma luz de geada. Rasgaram as escamas da serpente, respingos de sangue saindo enquanto ela recuava, soltando um novo guincho. A cauda se lançou à frente, rompendo parte do campo congelado e forçando Selene a recuar.
Seu peito subia e descia mais rápido agora, mas seu olhar permanecia firme. Ela levantou sua varinha alto, com a voz mais fria do que o próprio ar.
"Réquiem de Geada."
A temperatura despencou num instante. Sua respiração se cristalizou, formando geada que se espalhava por suas escamas. Então, uma batida de magia explodiu como um batimento — uma tempestade de branco e gelo. O vento uivou. Agulhas de gelo atingiram a serpente, cravando fundo, congelando carne e despedaçando ossos.
Quando a tempestade passou, a serpente jazia partida contra as rochas, seu corpo enorme se contorcendo na neve que, até então, não existia.
Selene exalou lentamente, abaixando sua varinha.
Ela limpou o gelo dos cílios, observando a carcaça da serpente uma última vez. O frio ainda persistia no ar, os vestígios do feitiço dela se enrolando como flocos de neve fantasma. Ela se preparava para avançar mais para dentro da encosta quando um som diferente atravessou o silêncio.
Não o farfalhar de uma criatura. Nem o peso da gravidade.
Choque de aço. Descargas de mana. Gritos de desespero.
Seus olhos se estreitaram. 'Aquilo não é um monstro.'
Ela seguiu os ecos, os passos leves sobre a geada e pedra. A encosta se curvava em um platô que dava vista para um clareira. Lá embaixo, três figuras se moviam — duas vestidas com armaduras finamente trabalhadas, insígnias reluzindo sob a luz, e uma que ela reconheceria em qualquer lugar.
Noel.
Ele estava cercado, a Presa do Revenant brilhando escura enquanto interceptava duas lâminas. Faíscas saltaram ao encontro do aço negro amaldiçoado, o som cortante mesmo de longe. Seus movimentos eram precisos, econômicos — mas havia uma ponta de agressividade na forma como avançava, empurrando os dois herdeiros com rajadas de chama e arcos de relâmpago.
O coração de Selene apertou de surpresa. 'Então decidiram enfrentá-lo. Não é contra as regras… mas claramente eles achavam que o número lhes daria vantagem.'
O olhar dela permaneceu fixo. O rosto de Noel estava calmo, mas seus olhos… afiados, calculistas, inflexíveis. Ele se deslocava entre sombras — Passo Sombrio — surgindo atrás de um herdeiro e obrigando-o a recuar com o ombro queimado. Uma resposta do outro foi recebida com "Glacialis", um fragmento de gelo que atingiu sua perna, fazendo-o cair de joelhos.
Selene segurou firme sua varinha, a respiração presa. 'Devo me mover. Intervir. Mas por que não consigo desviar o olhar?'
Cada golpe, cada feitiço pareciam gravados nela. Aínda virada para a cena, ela via o menino que uma vez viu lutando nos treinos matinais — desaparecido. O que restava era alguém assustadoramente forte.
A batalha abaixo atingiu seu ponto de ruptura. A lâmina de Noel, envolta em fogo, cortou o último guardião desesperado de um herdeiro. O rapaz recuou, o braço tremendo, a arma escapando de suas mãos. O outro, já mancando pelo ferimento de gelo,mordia os dentes e levantou a lâmina de novo — só que parou, congelado, com a Presa do Revenant a poucos centímetros de sua garganta.
A luta terminou.
Os dedos de Selene apertaram sua varinha com força, a respiração lenta. 'Ele ganhou.' O alívio deveria ter vindo, mas algo mais se agitava — algo inquieto.
Então, na calmaria que seguiu, aconteceu.
Uma faísca de mana, afiada e errada, cortou a clareira vindo da borda da floresta.
Os olhos de Selene se arregalaram. Covardes…!
Noel não viu aquilo chegar. Ainda abaixando a arma, focado nos herdeiros derrotados.
Seu corpo se moveu antes que pensasse. Ela saltou da encosta, a gravidade se curvando ao seu comando. "Passo de Gravidade." O mundo pareceu desacelerar, seus pés quase tocando o chão enquanto ela avançava, varinha em riste.
"Halo de Permafrost!"
Um anel de energia congelante se desprendeu dela, fixando-se no lugar justo quando a arco vermelho do fogo colidiu. O impacto gritou contra sua barreira, pedaços de gelo espalhando-se, a onda de choque levantando seus cabelos na cara.
As chamas apagaram-se, esmagadas pelo peso da magia dela.
Noel se virou por último, os olhos se estreitando ao vê-la de pé na sua frente, varinha firme, o gelo ainda brilhando ao redor dela.
Selene não olhou para ele. Ficou o olhar fixo na borda da floresta, com uma voz baixa e fria.
"Eles não tinham terminado. Alguém mais está aqui."
Por dentro, seu coração pulsava forte. 'Por que mexi dessa forma? Sem pensar…'
Os drones acima emitiram um zumbido suave, registrando tudo — a batalha, a emboscada, e agora ela se envolvendo para protegê-lo.