
Capítulo 331
O Extra é um Gênio!?
A manhã trazia o aroma fresco de sal do mar, mais frio agora que o sol começava a subir mais alto sobre o porto de Nivária. Noel e Elena saíram do hotel lado a lado, com passos tranquilos, embora ambos soubessem que o dia à frente não seria nada leve.
Na rua à frente, carruagens estavam alinhadas, a madeira polida reluzindo sob a luz. Cada uma carregava marcas sutis de sua casa — cores, padrões, desenhos — nada extravagante, mas suficiente para indicar a qual clã pertenciam. Os cocheiros aguardavam à porta, com réins na mão, os cavalos inquietos após ficarem parados por muito tempo.
Chegou o momento de se separar.
Elena apertou a mão de Noel por um instante, com seus olhos dourados procurando os dele. A vermelhidão nas orelhas entregava sua relutância. “Vou te encontrar lá.”
"É melhor," respondeu Noel com um sorriso discreto, escondendo um pequeno peso que apertava seu peito.
Ela sorriu, breve mas calorosa, antes de finalmente soltar a mão. Os criados de seu pai já estavam chamando por ela. Elena subiu na carruagem, a porta se fechando com um estalo suave.
Noel permaneceu por mais um instante, observando enquanto a carruagem dela avançava, as rodas estalando contra o calçamento antes de desaparecer na estrada. Depois, seu olhar se voltou para a carruagem de Thorne que aguardava.
Um criado fez um gesto educado para que ele embarcasse. Noel soltou lentamente o ar, passando a mão pelo punho da Espada do Retrato antes de subir na carruagem.
A jornada à frente não seria curta. A região selecionada para a Caça ficava bem no interior do território de Nivária — uma terra de densas florestas íngremes e montanhas escarpadas, bem longe da segurança das cidades costeiras. Levaria horas, talvez a maior parte do dia, até chegar ao terreno que Lorde Edric preparara.
Ele se recostou no assento acolchoado, fechando os olhos por um momento. Ainda podia sentir o calor de Elena permanecendo em sua mão, um lembrete da noite anterior. Mas logo aquele conforto precisaria ceder lugar a outra coisa.
O interior da carruagem de Lestária era acolhedor, revestido de carvalho escuro e almofadas bordadas com fio de prata. Elena sentava-se em frente ao pai, Lorde Thalanor von Lestária, cujo sorriso sempre presente já amainava a sombra do começo de manhã. Ao lado dele, sua mãe, Lady Avelyne, graciosa e composta, embora seus cabelos dourados e olhar gentil lhe conferissem um ar mais acessível do que a maioria dos nobres.
Thalanor inclinou-se levemente, apoiando os cotovelos nos joelhos. "Então," começou com um brilho brincalhão nos olhos, "como o jovem Noel tem te tratado? Não me diga que minha filha deixou-se envolver por um rapaz entediante."
"Pai..." Elena corou intensamente, as orelhas vermelhas, com os olhos desviando para a janela. "Precisa perguntar de forma tão direta?"
"Claro que preciso. Um pai tem o direito de saber," respondeu Thalanor, rindo. "Aliás, da última vez, eu disse que queria muitos netos, e você prometeu que me deixaria orgulhoso."
Elena prendeu a respiração. Sua mãe lançou-lhe um olhar curioso, enquanto o sorriso de Thalanor se ampliava como se já tivesse percebido algo.
"Bem..." murmurou Elena, torcendo um fio de cabelo platinado entre os dedos, "isso talvez não esteja tão distante assim."
Thalanor piscou e recostou-se na carruagem com uma risada forte que preencheu o ambiente. "Ah? Tão cedo? Que ótimo!" Ele deu um tapinha brincalhão na mulher. "Ouvi isso, Avelyne? Nossa pequerruja já não é tão pequenina."
"Thalanor," repreendeu Avelyne suavemente, embora também estivesse sorrindo agora.
Elena escondeu o rosto com as mãos, o coração disparando. "Não pareça dessa forma! Não é... exatamente o que você pensa."
Seu pai inclinou-se novamente, ainda sorrindo. "Então, quando será o casamento?"
A pergunta atingiu-a mais forte do que esperava. Elena abaixou as mãos, com a expressão entre o constrangimento e a hesitação. "Isso... é complicado."
A sobrancelha de Thalanor se franziu pela primeira vez. "Complicado? Por quê?"
A voz de Elena baixou quase um sussurro, o olhar focado no colo. "Porque... não sou a única."
Riram-se instantaneamente na carruagem. Mesmo o semblante calmo de sua mãe vacilou, embora ela rapidamente recuperasse a neutralidade.
O sorriso de Thalanor desapareceu, a curiosidade aflame em seu tom. "A única?!"
As orelhas de Elena tremeram nervosas. "Não, Noel... ele tem outras. Não sou só eu."
Elena hesitou, lançando um olhar rápido para sua mãe antes de inclinar-se um pouco mais em direção ao pai. Sua voz caiu, quase um sussurro. "Ele já tem três. Incluindo eu."
Thalanor piscou, surpresa passando por seu rosto antes de suavizar de novo — curiosidade, cálculo e uma faísca de divertimento. "Três? Isso é... ousado. Para alguém tão jovem."
Avelyne cruzou as mãos neatly no colo, sua expressão calma, mas com olhos afiados de interesse. "E quem são as outras?"
Elena engoliu, as bochechas quentes. "Elyra von Estermont," admitiu primeiro.
As sobrancelhas de Thalanor levantaram-se. "Estermont? Segundo após a família Imperial em Valor." Ele soltou um assobio baixo, recostando-se na cabine. "Isso não é ousado, é insano."
"Pai," murmurou Elena, com as orelhas avermelhadas.
Mas Thalanor só riu, coçando o queixo. "Ainda assim, explica muita coisa. O garoto tem ambição, vou te dizer isso. Imagine só, chamar a atenção de uma Estermont..."
Elena abaixou o olhar, sua voz mais suave ainda. "A terceira é... Charlotte."
Ambos os pais ficaram em silêncio por um longo momento. O sorriso de Thalanor lentamente voltou, mas carregava uma ponta de malícia. "Charlotte... como a Santa?"
Elena acenou rapidamente, sussurrando: "Sim. Mas essa é segredo. Mal alguém sabe."
Thalanor riu, embora agora de modo mais silencioso e pensativo. "Três mulheres — uma Estermont, uma Santa, e minha filha. E todas concordaram? Hah. Ou o menino é realmente excepcional... ou é o maior bobo azarado que existe."
"Thalanor," disse Avelyne suavemente, embora um sorriso quase imperceptível surgisse nos lábios dela. "Não brinque com isso. Pode ficar complicado..."
"Claro que é complicado," respondeu ele, fazendo um gesto de descaso. "Mas isso não quer dizer que seja impossível." Ele se inclinou para frente, os olhos afiados apesar do tom caloroso. "Precisaremos conversar. Com Noel, com Caeron e Elisabeth Estermont, e com o Padre Orthran. Uma reunião que eu não perderia por nada."
Elena suspirou, levando as mãos ao rosto. "Você parece que já condenou tudo."
Seu pai riu, passando a mão suavemente pelos cabelos dela. "Condenar? Nem pensar. Se há alguém que consegue sobreviver ao impossível, é quem escolheu. E isso, Elena, é algo raro mesmo."
A carruagem de Thorne avançava lentamente sobre pedras irregulares, com as cortinas puxadas o bastante para deixar entrar pequenos raios de luz matinal.
Noel estava sentado em frente a Lorde Albrecht Thorne, cuja postura rígida permanecia intocada pelo movimento da carruagem. Seus olhos cinzentos, agudos e indecifráveis, repousavam sobre Noel com um peso que parecia maior que o ar ao redor.
Ao lado de Albrecht, na ponta do banco, estava Frederick, o velho mordomo. Com a postura levemente curvada pela idade, seu rosto marcado por anos de linhas, mas seus olhos ainda afiáveis como os de uma águia. Ele não dizia nada, apenas observava.
O silêncio se intensificou. Não havia irmãos desta vez. Nenhuma distração. Apenas Noel e o homem que lhe deu o nome, encarando-se em um espaço pequeno demais para escapar.
Noel virou o olhar para a janela, observando as árvores passando rapidamente. "Então é assim que vai ser..."
As rodas passaram por um buraco, sacudindo um pouco a carruagem. Nem Albrecht nem Frederick se moveram.
Por fim, Albrecht exalou lentamente pelo nariz, seus olhos nunca deixando Noel.
O silêncio permaneceu. Se algo, aprofundou-se — pesado, intencional, como se as palavras só surgissem quando ele achasse que eram merecidas.
Noel recostou-se, com a mandíbula apertada. "Tudo bem. Se quer jogar assim, eu também posso esperar."
A carruagem seguiu adiante, levando-os ambos para uma conversa que ninguém poderia evitar.