
Capítulo 349
O Extra é um Gênio!?
A noite passou em silêncio, interrompida apenas pelo leve gotejar de água ao longe. Quando Noel mexeu-se, Selene já estava de pé, com a varinha na mão, seus olhos cianos fixos na escuridão do corredor que se estendia mais profundamente pelo santuário.
Ele se levantou lentamente, tirando a poeira da roupa, a Presa Abissal pendurada frouxamente em sua mão. "Acho que o sono aqui embaixo não dura muito."
Selene não se virou. "Precisamos nos mover. Ficar parado não é seguro."
Noel seguiu seu olhar até o túnel. O ar parecia mais pesado à medida que avançava, carregado com algo que não conseguia identificar—mana, talvez, mas distorcida. Seus passos ecoavam fracos na pedra, o som quase imediatamente engolido pelo silêncio cavernoso.
O santuário não era apenas grande. Era impressionante. Torres de colunas quebradas emergiam do chão em ângulos estranhos, murais meio devorados pelo tempo se espalhavam pelas paredes. Símbolos estranhos brilhavam fracamente em alguns lugares, como se a própria pedra respirasse.
Noel passou a mão por uma das paredes rachadas, franzindo o rosto. "Não são só ruínas. Este lugar foi construído para durar. Alguém quis que ele resistisse… até mesmo enterrado sob montanhas."
Selene desacelerou um pouco, olhando por cima do ombro. "O que quer dizer que era importante."
"Importante geralmente vem acompanhado de problemas." Ele ajustou a pegada na Presa Abissal, com tom neutro. "Fique perto. Seja o que for este lugar, não quero que você se perca."
Por um momento rápido, sua compostura vacilou. Uma leve sensação de calor tocou suas bochechas, rapidamente escondida quando ela voltou a olhar para o corredor.
Noel levantou uma sobrancelha ao perceber sua calma momentânea. "Você está bem?"
"Estou bem," ela disse rapidamente, com a voz firme novamente.
Mas Noel não deixou passar o leve lampejo de cor no rosto dela. 'Certo. Totalmente bem.'
O ar ficou mais frio à medida que o corredor se abria para outra câmara, grande o suficiente para que seus passos ecoassem. Marcadores estranhos cobriam as paredes, linhas nítidas mesmo após séculos. Noel ficava inspecionando as sombras, mas foi Selene quem acabou quebrando o silêncio.
"Noel..." Sua voz era baixa, quase hesitante. "O que você acha que significa… quando alguém se sente estranho perto de outra pessoa?"
Ele a olhou de lado. "Estranho como?"
Ela não encontrou seus olhos. Em vez disso, fixou sua atenção na muralha rachada à frente. "Uma amiga minha me contou. Ela disse que sempre que vê alguém, fica… desconfortável. O peito aperta. Quando estão próximos, seu pulso acelera. E, quando ele se machuca, ela não consegue parar de se preocupar."
Noel parou no meio do caminho, ergueu uma sobrancelha. 'Uma amiga? Selene, sério?'
Selene continuou, sua voz cuidadosa, quase clínica, como se estivesse descrevendo um caso de estudo ao invés de emoções. "Ela não entende isso. Não está habituada a sentir-se nervosa quando alguém passa a mão no braço dela, ou quando olham nos olhos dela. Diz que é irritante, confuso… mas ela não consegue ignorar também."
Por um momento, Noel apenas olhou para ela. Os cantos da boca tremiam, mas ele se segurou para não rir. "Sua amiga parece que está sob alguma maldição… ou apaixonada."
A cabeça de Selene virou abruptamente, os olhos cianos fixos nele. Sua expressão não mudou, mas um leve toque de rosa tingiu suas orelhas. "…Apaixonada?"
"É o que a galera chama, normalmente." Ele deu de ombros. "Parece algo comum. Enche o saco às vezes, mas é normal."
Ela voltou a olhar para frente, os lábios se abrindo como se fosse dizer algo mais—mas nada saiu.
Noel sorriu levemente, embora por dentro seus pensamentos se apertaram. 'Selene. Com uma amiga. Claro. Como ela ia passar o dia inteira trocando confidências com alguém, além de mim.'
Ele não insistiu. Em vez disso, falou de leve: "Diga para sua amiga que ela vai se acostumar. Ou não. De qualquer jeito, não é algo que ela possa fugir."
Os dedos de Selene apertaram sua varinha por um breve instante antes de relaxar. "…Eu vou contar para ela."
Eles seguiram em silêncio, embora o peso das palavras dela fosse mais denso que o ar ao redor.
Avançaram mais dentro do santuário, seus passos sendo tragados pelo silêncio vazio. Noel caminhava um pouco à frente, observando cada sombra com a Presa Abissal ao lado. Selene o acompanhava, a varinha firme, embora seu aperto estivesse mais por motivos que nada tinham a ver com perigo.
'Amor?' A palavra ficou insistindo na cabeça dela como um eco indesejado.
Ela nunca tinha pensado nisso antes. Não a sério. Não por si mesma. Emoções eram coisas a serem contidas, controladas, descartadas como distrações. Sua mãe sempre fazia questão disso—palavras frias, tratamento ainda mais frio. Carinho não era algo que Selene pudesse sentir, muito menos entender.
Mas agora… 'Quando ele me olha, meu peito aperta. Meus braços tremem quando ele se machuca. Quando ele me tocou mais cedo, quando me carregou… não consegui respirar direito.'
Seu ritmo diminuiu. Ela mordeu o lábio, o pensamento torcendo de um jeito desconfortável. 'Será que alguém como eu pode sentir isso? Ou estou só enganando a mim mesma?'
E veio o pensamento mais pesado, que fez seu estômago se embrulhar: 'Noel já tem três mulheres que o amam. Elyra von Estermont, Elena von Lestaria, Charlotte, a Santa… todas fortes, todas bonitas. Onde é que eu me encaixaria entre elas? Não seria só… ficar atrás?'
A ideia cortou mais fundo que uma lâmina. Ela nunca tinha se importado em ficar em segundo lugar para alguém—nunca permitiu. Mas aqui, neste santuário escuro, com só o som das botas dele à sua frente, ela sentia aquele medo rasgando seu interior. 'Se eu tentar, vou estar sempre atrasada?'
Seus dedos tocaram na varinha, apertando forte. 'E mesmo assim… quando penso em não tentar, a sensação fica pior. Mais vazia. Como se eu estivesse perdendo algo que nunca tive.'
Inspirou lentamente, forçando seu rosto a ficar neutro novamente. O cheiro de poeira e pedra preenchia o ar, frio e firme.
'Não sei o que é isso. Não sei se quero saber. Mas não consigo fazer parar.'
Selene levantou os olhos para o traseiro de Noel, a tênue luz de sua mana ainda envolvendo-o, constante, aquecida. E, pela primeira vez, o pensamento a assombrou mais que as ruínas em si.
O corredor se estreitou, depois se abriu novamente para uma câmara oca com o teto rachado, onde uma luz tênue filtrava. Eles pararam ali, sincronizando a respiração na quietude. Noel apoiou a Presa Abissal no ombro, inspecionando as sombras em busca de movimento. Selene ficou ao lado, com a varinha baixada, mas ainda na mão, posturada tensa — de uma maneira que não tinha nada a ver com inimigos.
Noel percebeu. "Aquela sua amiga que dava conselho sumiu?" perguntou, com curiosidade tranquila.
O pulso de Selene acelerou, ela apertou mais a varinha. Queria desviar o olhar, recuar para trás da parede que sempre guardou entre ela e o mundo. Mas, ao invés disso, as palavras saíram antes que pudesse se impedir.
"Essa amiga… sou eu."
Noel piscou, inclinando a cabeça, os olhos verdes estreitando. "…Quando você virou amiga de si mesma?"
O sarcasmo quase acalmou seus nervos—quase. Mas a rachadura no seu controle já tinha se aberto demais. Ela deu um passo à frente, o peito subindo e descendo mais rápido, os olhos cianos se recusando a se desprender dele.
"Eu não estou falando de outra pessoa," ela disse, a voz baixa, tremente nas pontas mas firme o suficiente para passar. "Sou eu. Sou quem… sente isso."
A boca de Noel se abriu, surpresa passando pelo rosto dele. Mas, antes que pudesse falar, Selene fechou a distância.
Seus lábios pressionaram contra os dele num beijo rápido e desajeitado, nada parecido com a graça treinada que ela mostrava na batalha. Sua mão livre segurou a manga dele como se estivesse ancorando-se, com medo de que ele desaparecesse se ela soltasse.
Por um instante, o santuário pareceu prender a respiração.
Quando ela se afastou, as bochechas ardiam em um tom intenso de vermelho, mas sua voz manteve-se firme. "Era isso que queria dizer."
Noel olhou para ela por um longo momento, pasmo, antes de um sorriso lento surgir em seus lábios. "…Acho que sua amiga deu um conselho bem honesto."