O Extra é um Gênio!?

Capítulo 341

O Extra é um Gênio!?

A caverna cheirava levemente a fumaça e carne assada, com uma pequena fogueira crepitando no centro. Noel se agachou perto dela, virando cuidadosamente tiras de carne presas em uma haste metálica. O brilho alaranjado dançava em seu rosto, destacando a curva afiada de Presa do Revivido ao seu lado.

Selene estava a alguns metros de distância, com a varinha repousando relaxadamente contra o joelho. Pela primeira vez, ela não fazia guarda ou escaneava as sombras — apenas estava sentada, silenciosa, olhando ele trabalhar.

"Isso me lembra a última vez," ela declarou de repente, sua voz calma, mas cortando o crepitar do fogo.

Noel a observou, com a sobrancelha levantada. "A última vez?"

"Nos Picos de Iskandar. Quando você... me levou." Ela hesitou nas palavras, seus olhos cianos pulsando para a carne antes de se desviar. "Parece a mesma coisa."

A sombra do sorriso de Noel desapareceu, uma fagulha de memória puxou por ele. Ele se lembrou dos penhascos congelados, do vento cortante, e de Selene segurando comida com mãos trêmulas, lágrimas escorrendo pelo rosto enquanto comia como se não tivesse visto uma refeição há semanas.

"É, sim," ele falou suavemente. "Parece mesmo."

O fogo estalou, e o silêncio preencheu novamente o espaço entre eles. Noel deslocou a haste, deixando os sucos escorrerem e fazerem barulho na brasa. Sua voz veio mais baixa, mais cuidadosa. "Como você está?"

A resposta de Selene foi quase automática. "Estou bem."

Mas Noel estudou seu rosto, a calmaria demasiado rígida, a palavra curta demais. Ela parecia ser suficiente — sempre foi assim — mas ele sabia que não podia acreditar totalmente nela. Ainda assim, não insistiu.

Ele assentiu uma vez, virando a carne novamente. "Ótimo."

A carne começou a chiar sobre o fogo, o cheiro de bordas queimadas e gordura escorrendo preenchendo a caverna. Noel se inclinou mais perto, virando devagar a espeto até ficar satisfeito, então o retirou e cortou uma porção com sua faca.

Entregou o pedaço a Selene sobre uma pedra plana. Ela aceitou sem dizer uma palavra, a varinha repousando no colo enquanto examinava a comida com o mesmo scrutinio que daria a um feitiço inimigo[1].

"E aí?" Noel perguntou, levantando uma sobrancelha.

Ela mordeu devagar, com cuidado inicialmente. Sua expressão não mudou — até que mudou. Seus olhos se arregalaram um pouco, e ela mastigou mais rápido, com mais gana. "…Boa," ela murmurou, quase baixinho demais para ouvir.

A pity do sorriso de Noel se espalhou enquanto ele recostava num braço. "Então está boa, hein?"

Selene fez uma pequena reverência, e sua máscara habitual rachou. "Muito."

"Que bom ouvir isso. Ainda tem bastante, então não se segure."

Por um momento, ela hesitou, depois deu uma mordida mais despreocupada, desta vez menos precavida. O jeito como comia — eficiente, mas claramente gostando — puxou uma memória na cabeça de Noel.

Ele deixou o silêncio se prolongar antes de falar novamente. "Você sabe... até algumas horas atrás, você falava mais."

Selene congelou na metade da mordida, as palavras a pegando de surpresa. "…Falei mesmo?"

"Sim," Noel respondeu com facilidade, observando-a. "O que aconteceu? Agora só responde com uma palavra."

A garganta dela se apertou. A verdade — qualquer que fosse — não fazia sentido nem para ela. Sentar ali, sozinha com ele, fazia seu peito apertar de uma forma que ela não conseguia explicar. Palavras pareciam mais pesadas que feitiços.

"Estou... focada," ela finalizou, com um tom cortado, controlado.

"Focada, é? No que, na comida?" Nikol teve um sorriso sarcástico.

Os lábios dela se apertaram, e embora sua expressão não mudasse, o leve vermelhidão nas pontas das orelhas a denunciava. "…Na Caçada."

"Entendido." Ele riu baixinho, deixando o comentário cair. "Acho que vou aceitar essa desculpa."

Selene não respondeu. Em vez disso, comeu mais rápido, como se encher a boca fosse mais seguro que falar.

O crepitar do fogo ecoou pela caverna. Noel a observava silenciosamente, um sorriso de meia-altura se formando nos lábios. Ela podia enganar os drones lá em cima — mas não a ele.

"Você pode comer mais se quiser," ele disse. "Ainda temos uma Caçada inteira pela frente. Melhor manter sua força."

Selene aceitou a oferenda sem hesitar desta vez. Seus olhos cianos permaneceram fixos na comida, não nele, mas seu ritmo revelava sua fome.

Noel recostou-se, mastigando pensativamente. "Então... essa é sua primeira Caçada, né? Iskandar nunca participou antes."

Selene assentiu, engolindo antes de responder. "Correto."

"O que mudou?" Noel perguntou, com os olhos verdes curiosos. "Por que agora?"

Selene hesitou. A luz do fogo refletia em seu rosto enquanto ela colocava o prato no chão, seu tom ficando mais frio. "... Não sei. E não me importo com as decisões da minha mãe."

Sua franqueza cortou mais que sua varinha jamais conseguiria. Noel a estudou por um momento, depois deu de ombros lentamente. "Justo."

Aquietou entre eles, mais pesado do que antes. Selene se mexeu um pouco, como se se preparasse para outra pergunta, até que finalmente murmure: "Vamos deixar de falar dela, por favor."

Noel se endireitou um pouco, percebendo até onde ia a linha. Levantou as mãos em um pequeno gesto de rendição. "Tudo bem. Desculpe perguntar."

Ela sacudiu a cabeça, os olhos se direcionando ao fogo. "Não peça desculpas. Só... deixa pra lá."

A caverna voltou ao silêncio, apenas o crepitar suave do fogo preenchendo o espaço. Noel mastigava lentamente, pensando, quando Selene quebrou o silêncio.

"...Cadê seu lobo sombra?" ela perguntou de repente. "Não a vejo faz tempo."

Noel parou na metade da mordida. Seus olhos verdes se moveram para a escuridão atrás dele, depois de volta às chamas. O sorriso que ele costumava usar desapareceu, substituído por algo mais contido. "Ela... está descansando. Dentro da minha sombra."

Selene inclinou a cabeça, esperando por mais.

Ele suspirou, balançando a cabeça. "Na verdade, não tenho certeza do que está acontecendo com ela. É como se ela... estivesse mudando. Só posso esperar."

O peso na voz dele não era algo que Selene esperava. Ela lançou um olhar, percebendo a tristeza sutil gravada no rosto dele. Por um momento, seu próprio semblante suavizou, embora rapidamente olhasse para o prato.

Sem pensar muito, cortou um pedaço de carne e estendeu para ele do outro lado do fogo. "Aqui."

Noel piscou, surpreso. "O quê—?"

"Toma," ela disse, na mesma tom, mas a ação entregava mais do que sua voz.

Noel a olhou por um momento, então aceitou, um pequeno sorriso se formando nos lábios. "Obrigado."

Selene não respondeu, voltando-se para sua comida como se nada tivesse acontecido. Mas Noel percebeu o leve rosa nas bordas de suas orelhas, a mesma coisa que ela sempre tentava esconder quando algo escapava de sua fachada gélida.

Ele mastigou a mordida que ela ofereceu, aproveitando mais que o resto. "Nada mal," ele disse em voz baixa.

Selene não olhou para cima, mas, pela primeira vez, o canto de seus lábios se curvou ligeiramente.

Acima deles, os drones zuniam suavemente, registrando a cena. Iriam mostrar a luz do fogo, carne, dois caçadores comendo em silêncio.

Comentários