
Capítulo 324
O Extra é um Gênio!?
A primeira luz da manhã filtrou-se pela copa das árvores, pintando longas listras de ouro pelo clareira. As brasas da noite anterior tinham virado cinzas, com uma fumaça tênue se alongando preguiçosamente no ar frio.
Noel já estava acordado. Sentado perto das cinzas, a Farpas do Renascido repousava sobre seus joelhos, a lâmina escura e parada. Com movimentos calmos e treinados, limpou a espada, verificando todas as arestas como se a matança da noite anterior não tivesse nem mesmo preocupado.
Elena se mexeu dentro do seu cobertor. Seus olhos âmbar se abriram, ajustando-se à claridade, antes de se fixarem na figura de Noel. Apoiou-se nos cotovelos, um sorriso suave surgindo nos lábios.
'Ele está tão forte agora… mais forte do que eu imaginei. E ele é meu, ou melhor, nosso? Ele não é exatamente meu sozinho.'
Ela ficou quieta por um momento, apenas observando-o. O brilho tênue da manhã o fazia parecer diferente—mais calmo, de alguma forma mais velho.
Noel olhou para as árvores ao longe, seus pensamentos medidos. 'Ser Ascendente me coloca em outro nível. Bestas comuns como aqueles Uivadores… nunca irão passar de uma preocupação agora.'
A lembrança das notificações piscou na sua mente. Cada abate tinha dado apenas um fio de progresso—mal 0,05%. Parecia que o sistema estava zombando dele, forçando-o a grindar sem parar por migalhas. Mas, mesmo assim, a diferença entre ele e os monstros comuns era indiscutível.
O estalo de lona balançando se fez ouvir. Veyron saiu da tenda improvisada, alongando os braços com um bocejo longo. Seus cabelos prateados estavam bagunçados, caindo sobre o rosto. "Hah… já amanheceu? E, claro, você foi o primeiro a levantar."
Noel encolheu os ombros. "Hábito."
Veyron riu, esfregando os olhos. "Hábito? Você fala como se não precisasse de sono nenhum. Assim vai acabar deixando o resto da turma pra trás."
Finalmente, Elena se sentou, alisando os cabelos e envolvendo o cobertor nos ombros. Não conseguiu esconder o orgulho na voz ao olhar para Noel. "É assim que ele é."
Noel lançou um olhar de lado para ela, meio divertido, apesar de não dizer nada.
O acampamento voltou a ficar silencioso, exceto pelo canto dos pássaros—finalmente retornados após o caos da noite. A tempestade de sombras havia passado, deixando apenas a calma matinal.
O fogo foi reforçado, suas chamas lamberam uma pequena panela de ferro equilibrada sobre as brasas. O café da manhã foi simples—pão duro mergulhado em água quente, frutas secas e algumas tiras de carne curada. Não era muito, mas, após a noite que tiveram, era suficiente.
Veyron arrancou um pedaço de pão e sorriu para Noel do outro lado da fogueira. "Você sabe, quase me senti enganado. Tinha minha espada pronta ontem à noite, esperando uma boa luta. E você foi lá e eliminou uma matilha inteira antes que eu pudesse piscar."
Noel levantou uma sobrancelha, rasgando seu pão. "Prefere que eu deixe alguns com vida pra você?"
Veyron riu, sacudindo os ombros. "Verdade. Mas, pelo menos, finjo que sou útil."
Noel permitiu um pequeno sorriso, o canto da boca se contorceu. A risada de Elena se juntou à de Veyron, leve e despreocupada.
Porém, nem todos estavam sorrindo. Livia colocou sua comida de lado, os olhos cor de mel fixos em Noel. "É estranho", ela falou em voz baixa. "Meu irmão nem sempre foi tão forte assim. Noel… como você conseguiu tanto poder tão rápido?"
A risada se silenciou. Noel mastigou mais uma vez, engoliu e respondeu de forma simples: "Quando seus inimigos vêm para tirar sua vida, você aprende rápido. Ou então… morre."
O olhar dela se afinou um pouco. "É só isso?"
Noel encontrou seus olhos sem hesitar. "Nada além disso. Só treino diário até não conseguir me mexer mais. E repetir tudo no dia seguinte."
Livia o estudou com atenção, os lábios se abrindo como se quisesse insistir mais, mas não o fez.
Elena se inclinou rapidamente, com uma voz suave, mas insistente. "Não importa o jeito. O que importa é que ele está aqui, conosco. Isso já basta."
Veyron sorriu de lado, levantando sua tira de carne em uma saudação de brincadeira. "E eu, por minha parte, estou feliz que ele esteja. Assim não preciso me preocupar em ser despedaçado por cães sombrios enquanto durmo."
Até o meio da manhã, a clareira começou a esquentar sob o sol nascente. As brasas do fogo foram reduzidas a cinzas mais uma vez, e o acampamento foi lentamente desmontado.
Veyron prendeu a lona da tenda com destreza, cantarolando baixinho enquanto trabalhava. "Sabe," ele disse por cima do ombro, "tinha me esquecido de como é cansativo montar esse troço só pra desmontar depois. Agora até agradeço por ter cama."
Noel apertou as correias de uma das caixas de suprimentos, verificando o arnês dos cavalos. "Pelo menos é mais rápido desmontar do que montar."
Veyron riu. "Isso é verdade mesmo."
Elena se movimentou com graça entre eles, dobrando mantas e sacudindo a sujeira antes de guardá-las na carruagem. Ela olhou uma vez para Noel, as bochechas levemente coradas, antes de se ocupar de novo. 'Ele realmente não parece alguém que acabou de lutar contra monstros sozinho. Como se fosse algo comum…'
Enquanto isso, Livia recolhia os restos da refeição em uma cesta, certificando-se de não deixar nada para trás. De tempos em tempos, seu olhar permanecia em Noel, curiosa sobre seu irmão mais novo.
Quando tudo foi arrumado, Veyron bateu as mãos. "Certo! Cavalos descansaram, suprimentos garantidos. Vamos andar antes que o dia esquente demais."
Ele ofereceu a mão a Elena, ajudando-a a subir na carruagem. Livia seguiu com elegância, acomodando-se no assento acolchoado.
Noel ficou um momento, observando a linha das árvores. A lembrança da luta da noite anterior parecia distante agora, mas ele sabia que não podia presumir que a floresta ficaria tranquila. 'Ascendente ou não, é melhor ficar atento.'
Satisfeito, subiu atrás deles. A porta se fechou, o cocheiro segurou as rédeas, e a carruagem voltou a partir.
O caminho na floresta se estendia à sua frente, com a luz do sol filtrando-se pelas folhas. O ritmo das rodas e o trote constante dos cascos os levavam adiante, afastando-se da clareira rumo à próxima etapa da jornada.
Dentro, o ambiente era mais leve do que na noite anterior. Veyron inclinou-se para trás, cantando novamente, enquanto Elena descansava o queixo na mão, observando o cenário desfilar pela janela.
À tarde, a paisagem fora da carruagem tinha se tornado mais familiar, embora ainda distinta. A floresta densa tinha afinado, dando lugar a longos trechos de estrada costeira. O ar ficou mais quente, salgado, carregando o leve cheiro do mar.
Pela janela, Noel avistou a orla—ondas rolando e quebrando contra areias claras, trechos de praia com barcos de pesca puxados para a costa. Um pouco mais ao interior, grupos de casas e pequenas fazendas pontuavam o verde, comuns, mas vivas, moldadas pelo ritmo do mar.
Noel se encostou na janela, os olhos se estreitando um pouco. "Então esses dois cresceram aqui, né? Sorte deles, morar bem na praia. Faz sentido—a magia da água da Clara, a terra do Marcus. Combina com o lugar."
Elena sorriu suavemente, assentindo. "Exato. Os elementos deles refletem o lar tanto quanto suas personalidades."
Veyron riu, alongando-se preguiçosamente na cadeira. "Você ficaria surpresa com o quanto a terra molda as pessoas. O mar dá, o mar tira. Nivária faz seu povo ser mais resistente do que parecem."
O olhar de Livia suavizou enquanto ela acompanhava a linha da costa com os olhos. "Você nunca viu nada assim antes, né, Noel?"
"Nunca," admitiu sem hesitar. "Nosso território não se compara a isso. Sem mar, sem areia infinita. Cada coisa… diferente."
Ela devolveu um sorriso discreto. "E mesmo assim aqui parece comum. É a coisa estranha das fronteiras—dividem mundos que vivem lado a lado."
O carrinho trepou sobre pedras irregulares, e Elena segurou na barra da lateral para não perder o equilíbrio. Olhou para Noel, com os olhos âmbar calorosos. "Realmente, é lindo. Simples, mas bonito."
Veyron se inclinou para frente, sorrindo ainda maior. "Espere só até ver a cidade. A força de Nivária não está só na terra—está nas pessoas que fazem ela prosperar. Você vai entender quando chegarmos. Quem sabe, talvez até goste."
Noel não respondeu, seu olhar fixo nas ondas que se desfaziam na orla. 'Praia no quintal… devia ter sido uma vida boa.'