
Capítulo 325
O Extra é um Gênio!?
A carruagem tremia ao cruzar a ponte de pedra que levava à capital de Nivária. Além do arco, a vista se desdobrava em ruas largas pavimentadas com pedra clara, filas ordenadas de lojas e praças abertas cheias de vendedores chamando suas mercadorias. O ar estava mais quente, com um cheiro salgado do mar, e ao longe o som fraco das ondas nunca desaparecia completamente.
Noel se inclinou mais perto da janela, com a expressão difícil de entender enquanto observava a cena. Em relação a Valon, aquela cidade parecia mais simples, menos adornada — mas tinha uma solidez, um ar de confiança na maneira como seu povo se movia. Pescadores carregavam redes pesadas nos ombros, comerciantes negociavam em vozes afiadas, e crianças corriam descalças pelas bordas da rua.
Ao lado dele, Elena sorriu suavemente. "Faz tempo que não vinha aqui. Quase tinha me esquecido do cheiro de sal no ar."
Lívia também se inclinou para a janela, com os olhos suaves. "Está mais movimentada do que eu lembrava. Os mercados cresceram."
A carruagem virou do centro movimentado para um bairro mais tranquilo. Árvores alinhavam a avenida larga, oferecendo sombra que refrescava o caminho de pedra. As casas aqui eram maiores, mais robustas, com portões altos e bandeiras que balançavam preguiçosamente na brisa do mar.
O olhar de Noel se afinou quando a carruagem desacelerou, parando diante de uma mansão imponente. As paredes brancas se erguiam alto, os portões decorados com delicados entalhes de ondas e lanças. Guardas com armaduras em tons de deserto abriam-nos sem hesitação, fazendo uma reverência enquanto a carruagem entrava.
As rodas pararam na vasta couraça. À espera nos degraus estavam duas figuras conhecidas — Marcus, de pé, com seu sorriso habitual, e Clara ao seu lado, com postura serena, mas composta.
A porta da carruagem se abriu e Elena foi a primeira a descer. Seus olhos âmbar se iluminaram ao avistar as duas figuras aguardando. "Marcus! Clara!"
Clara rapidamente foi ao encontro dela, as duas meninas se abraçando apertado, a risada suavizando o clima. "Faz alguns dias," disse Clara com calor. "Fico muito feliz que tenham chegado sãs e salvas."
Elena se afastou com um sorriso radiante. "Também estou feliz por te ver de novo."
"Faz tempo demais." Ela acrescentou brincando.
Enquanto isso, Marcus avançou com seu sorriso habitual, chamando a atenção de Noel. "Então, você finalmente chegou também. Como foi a viagem?"
Noel desceu completamente, Elena voltando quase instintivamente ao seu lado, com a mão tocando a dele como se confirmasse sua presença. "Longa," respondeu Noel simplesmente. "Mas tudo bem."
Elena assentiu com um gesto afirmativo. "Deu pra nos vir bem."
Marcus levantou uma sobrancelha. "Dessa gente toda, isso provavelmente quer dizer que tiveram que enfrentar monstros na estrada e iam passando por cima deles como se fosse coisa pouca."
Noel sorriu de leve, mas antes que pudesse responder, Clara se virou de Elena para o restante deles, com uma voz suave, mas firme. "Ainda bem que chegaram em segurança. Mas não se acomodem — os monstros do Caça ao Festival desta vez não serão os mesmos de antes."
Elena inclinou a cabeça. "Mais fortes?"
Clara assentiu, com os olhos cor de avelã sérios. "Sim. Assim como todos nós crescemos, as provações também vão evoluir. Não podemos esperar que o que funcionou na última vez nos leve adiante novamente."
O olhar de Noel permaneceu nela, pensativo. 'Ela está certa.'
Marcus, sempre alguém que gostava de quebrar o clima tenso, colocou a mão no ombro de Noel. "Não se preocupe tanto. De alguma forma, vamos dar conta. Elena ganhou na última vez. Mas este ano, eu ganho."
Elena sorriu levemente, os dedos tocando de leve o de Noel novamente. "Exato, eu ganhei na última."
O momento parecia uma verdadeira reunião — amigos, parceiros, aliados — ligados novamente após o que parecia ter durado demais.
Mas então, o rangido das rodas atravessou os portões.
Outra carruagem entrou na couraça, pesada e imponente.
O clima mudou de imediato.
Porque esta não levava amigos, mas a família de Noel.
A pesada carruagem parou, suas rodas rangendo contra a pedra do pátio. Por um instante, o ar ficou imóvel, carregado de expectativa. Então, a porta se abriu.
Primeiro desceu o Lorde Albrecht Thorne. Com as costas retas, seus olhos varreram a couraça com a expressão de julgamento. Mesmo sem erguer a voz, o silêncio que carregava exigia obediência.
Seu olhar se fixou em Noel. "Parece que a carta que enviei — que você não deveria estar ausente — chegou. E você obedeceu. Bom."
Noel se erguia firme, encarando os olhos do pai. "Recebi." Sua voz foi calma, sem subserviência nem desafio.
Albrecht apertou os lábios numa linha fina, mas não falou mais nada. Logo atrás dele desceu Lady Mirelle, com os olhos se estreitando ao ver Noel, como se pudesse despir seu corpo apenas com um olhar. Ao lado dela, Kael e Damon desciam, ambos mais altos que a maioria, com uma presença forte e séria.
Depois veio Lady Serina, com cabelos que capturavam a luz, passos suaves, mas a língua mais afiada que seu sorriso. Caminhando logo atrás dela, estava Sylvette — postura fingidamente modesta, mas seu sorriso malicioso entregava quem ela era. Seus olhos brilharam ao encontrarem Noel, com um olhar que prometia diversão às suas custas.
O pátio, que até pouco tempo tinha sido palco de risos e calor, ficou rígido, carregado de tensão não dita.
A voz de Mirelle quebrou o silêncio primeiro, firme e fria como vidro. "Pelo menos agora você aprendeu a ficar de pé ao ser chamado. Progresso, se acabara isso."
Serina seguiu com um tom zombeteiro e suave. "Ele parece mais saudável do que eu esperava. Talvez a academia finalmente tenha feito dele alguma coisa."
Kael deu um passo à frente, com um sorriso educado, quase caloroso. "Irmão. É bom te ver de novo. Você mudou desde a última vez que nos encontramos."
Damon assentiu, com tom direto, mas não hostil. "Pois é. Mais forte também. Dá pra perceber. Acho que a academia fez bem em te preparar."
As palavras deles não carregavam veneno ou arrogância — eram apenas um reconhecimento franco de que Noel já não era mais aquele menino de antes.
No entanto, Sylvette não tinha mudado. Seu sorriso de esperto se alargou ao prender o olhar em Noel. "Senti sua falta," ela murmurou, alto o suficiente para ele ouvir. "Assistir você se contorcendo."
A mandíbula de Noel se cerrava, embora sua expressão permanecesse difícil de ler. Elena, ao seu lado, se mexeu um pouco, com os olhos âmbar se estreitando de aviso silencioso.
A mão de Veyron pairava perto do braço da irmã, pronto para segurá-la caso a situação piorasse.
O silêncio se alongou, pesado e frio, até Albrecht falar novamente. "Chega. Vamos entrar. Ainda temos muito o que conversar."
Enquanto Albrecht caminhava em direção às portas da mansão, com Mirelle e Serina ao seu lado, o peso de sua presença carregava quase toda a atmosfera. Sylvette ficou só o tempo de lançar mais um olhar divertido a Noel antes de seguir atrás.
Damon cruzou os braços. "Da última vez que te vi, parecia que carregava peso demais nos ombros. Agora, você parece... firme. Mais forte."
Noel os observou por um momento, depois inclinou a cabeça levemente. "Posso dizer o mesmo. Como vocês estão?"
Kael sorriu de forma mais suave do que o normal. "Tenho estado ocupado. A família me ocupa bastante, embora nem sempre de uma maneira que eu goste. Mas... as coisas mudaram para mim recentemente." Seus olhos brilharam de forma tímida, embora seu rosto estivesse estranho com aquela expressão incomum para ele, normalmente tão calmo.
Damon deu uma risada curta. "Quer dizer que achou uma garota. Deu uma surpresa pra todo mundo, na real. Nunca pensei que o Kael fosse se envolver assim."
Noel levantou uma sobrancelha, com um leve sorriso de diversão. "Você? Com uma namorada? Nunca pensei que fosse ouvir isso."
Kael deu uma risada, esfregando a nuca. "Nem eu. Mas... ela vale a pena."
Noel assentiu rapidamente. "Ótimo. Fico feliz."
Foi uma troca simples, mas nele Noel percebeu a verdade — seus irmãos tinham mudado. A arrogância se foi, dando lugar a algo mais firme, mais enraizado.
De longe, as vozes de Albrecht ecoaram forte. "Chega de demora. Dentro."
Kael e Damon trocaram olhares, depois começaram a avançar, Kael dando uma palmada leve nos ombros de Noel ao passar. Damon os seguiu com um sorriso no rosto.