O Extra é um Gênio!?

Capítulo 314

O Extra é um Gênio!?

A câmara de treinamento estava silenciosa novamente, os vestígios de geada e sombra lentamente se dissipando na pedra. Noel calçou a presilha do canino espectro com um rangido suave, o som ecoando no silêncio. Selene permanecia a alguns passos de distância, sua respiração firme, mas sua expressão impossível de ler — salvo pelo mais tênue franzir de testa que Noel já tinha aprendido a perceber.

Ele hesitou por um instante, então mergulhou a mão no saco. Seus dedos passaram por outros itens até fecharem na possível couro desgastado do manual. Tirou-o, pesando-o em suas mãos.

Os olhos de Selene imediatamente se fixaram nele, atentos e interrogativos. "O que é isso?"

Noel abriu o livro deitada casualmente, fingindo desinteresse. "Algo que tenho estudado." Deixou as páginas abrirem-se para uma seção coberta por glifos em laços e diagramas que se torciam em uma espécie de nonsense. "Mas não consigo entender completamente."

Selene deu um passo à frente, a brisa fria ao redor dela seguiu seu movimento. "De onde você conseguiu isso?"

Noel não piscou. "Nicolas me deu. Disse que poderia ajudar no meu treinamento." Fechou o livro na metade, abaixando a voz. "Mas, pra falar a verdade... é mais difícil do que eu imaginava."

Seu olhar se narrow, uma pequena faísca de dúvida passando por seus olhos antes que ela rearranjasse suas feições. Não questionou mais, porém. Em vez disso, inclinou a cabeça, estudando o livro de onde estava.

Noel virou outra página, deixando os símbolos estranhos absorverem o brilho das runas na parede. "Consigo usar algumas coisas básicas, como Passo das Sombras. Mas o resto..." Expirou fundo. "Me parece incompleto. Esperava que você pudesse me ajudar a entender."

Por um longo momento, Selene permaneceu em silêncio, seu olhar ilegível. Mas Noel percebeu a mais tênue mudança em seus olhos — o brilho de curiosidade que ela tentava, infrutuosamente, esconder.

Noel deixou o manual repousar sobre seu colo, as runas na página brilhando suavemente sob a luz de mana. Passou o polegar pela borda, respirando fundo. "Já tentei. Várias vezes. Os glifos se tornam charadas quanto mais eu olho para eles. Consigo fazer Passo das Sombras porque forcei a barra, mas os outros..." Sacudiu a cabeça. "Para mim, estão incompletos."

Selene ficou com os braços cruzados, a varinha ainda na mão, como se não tivesse deixado para trás o treino. Sua expressão era fria, mas o silêncio parecia pesar mais que as runas na parede.

Noel olhou para ela, encontrando seus olhos cor de ciano. "Achei… talvez você pudesse ajudar. Você lê coisas que eu não consigo. Entende de estruturas. Símbolos. E, se alguém pudesse decifrar isso, seria você."

Por um momento, ela permaneceu imóvel. Então, lentamente, Selene se aproximou, seus passos suaves sobre os cacos de gelo dispersos pelo chão. Parou à sua frente, olhando para o livro.

"Não são símbolos comuns," ela falou finalmente, com voz mais serena, porém tranquila. "Estão em camadas. Os traços se entrelaçam como poços gravitacionais — spiralando para dentro."

Noel ergueu uma sobrancelha ao analisar sua explicação. 'Justamente como eu imaginei. Ela percebe mais rápido que eu, uma verdadeira gênia.'

As sobrancelhas de Selene se franziram levemente enquanto ela traçava um símbolo com o dedo, sem tocar na página. "Eles não estão quebrados. Estão… rearranjados. É por isso que parece errado quando você tenta copiar."

Noel recostou-se, um sorriso sutil surgindo nos lábios. "Então vai ajudar?"

Os olhos dela ficaram fixos nos dele por um momento, antes de voltarem ao livro. Seus lábios cerrados, como ponderando a decisão. Então, com um breve gesto de cabeça, disse: "Mostre-me."

Noel soltou um suspiro de alívio silencioso.

Selene ajoelhou-se diante do manual, a varinha descansando sobre os joelhos. Seus olhos vasculharam cuidadosamente os glifos, a luz tênue refletindo nas íris de ciano.

"Isso aqui não é aleatório," ela disse após alguns instantes. Sua ponta do dedo traçou o ar logo acima da página. "O símbolo principal aqui —" apontou para uma espiral irregular — "não é para ser lido de esquerda para direita. Ele gira para dentro. Isso altera toda a estrutura."

Noel se agachou ao lado dela, com as sobrancelhas franzidas. "Girar? Quer dizer… de cabeça para baixo?"

Selene lhe lançou um olhar breve, que não era frio, mas carregava um subtítulo de sério, sério mesmo. Então, ela balançou a cabeça. "Não de cabeça para baixo. Você segue a curva, como a gravidade puxando tudo para dentro. Por isso seu feitiço colapsa — você está forçando mana na direção errada."

Noel coçou a nuca, claramente sem convencimento. "Se você diz. Eu só… empurro mana até acontecer alguma coisa."

Seus lábios mostraram um sutil sorriso, uma leve diversão que ela tentou suprimir. "Forçar à força funciona para passos básicos. Mas se continuar fazendo isso com esses, vai destruír suas vias de mana."

Noel expirou pelo nariz. "Tudo bem, então. Mostre."

Selene estendeu a varinha, traçando o glifo no chão com um fio de mana pálida. As linhas se torceram formando uma garra espiral, as runas se encaixando perfeitamente. Quando o último traço se uniu, uma mão sombria surgiu do chão, agarrando uma das manequins de treino pelo pé. Ela ficou firme por alguns segundos, antes de se dispersar.

Selene abaixou a varinha, calma como sempre. "É assim que deve ficar."

Noel assobiou baixinho, depois deu um passo à frente, mexendo os ombros. "Minha vez." Ele imitou o padrão à memória, sua mana ficando mais áspera, menos elegante — mas o glifo ainda se formou. A mão sombria emergiu, instável e trêmula, mas segurou o manequim por um instante a mais que a tentativa anterior.

Ele sorriu. "Viu? Praticar supera teoria."

Noel limpou o suor da testa, mantendo o foco na runa trêmula aos seus pés. Ajustou a postura, lembrando-se das instruções de Selene. "Puxe para dentro… não através." Deixou a mana girar ao invés de forçá-la em linha reta.

As linhas ficaram estáveis por um segundo. A mão sombria se levantou, segurando o manequim pelas duas pernas, por mais tempo antes de se dissolver em fumaça.

Ele expirou, um leve sorriso nos lábios. "Melhor."

Selene assentiu uma vez, de forma precisa e aprovatória. "Mais próximo. Você vai precisar de mais controle para mantê-la, mas a estrutura agora está correta."

Noel olhou de canto para ela. "Você percebeu isso em minutos. Eu fiquei dias olhando para isso."

Ela inclinou a cabeça, expressão fria, mas sem ser desdenhosa. "A teoria… é mais fácil para mim." Hesitou por um momento, então acrescentou: "Mas não conseguia forçar a barra na instabilidade como você fez. Você tem um instinto que eu não tenho."

Noel riu baixinho, apoiando a Presa do Espectro no ombro. "Então sou o lutador e você a gênio. Acho que estamos no mesmo nível."

Selene apertou os lábios, parecendo resistir a uma resposta. Por um instante, quase virou um sorriso — mas se segurou, voltando ao manual.

"Se continuar lidando assim com o livro, vai arruinar ele," ela disse, passando a página com cuidado deliberado.

Noel levantou uma sobrancelha. "Você parece que pretende continuar ajudando."

Selene fechou o livro e devolveu a ele, com um toque cuidadoso. "Não desperdice o que te ensinei."

Sua voz saiu curta, mas Noel percebeu um leve brilho nos olhos dela — de satisfação, rapidamente escondido sob a calma habitual.

Ele guardou o manual de volta na bolsa e observou enquanto ela se levantava e caminhava em direção à saída.

Quando a porta se fechou atrás dela, Noel murmurou baixinho: "Ela é realmente uma gênia."

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