
Capítulo 321
O Extra é um Gênio!?
A embarcação desacelerou ao avistar o cais, o ranger constante da madeira e o estalo das velas preenchendo o ar. Depois de dias presos no subsolo e uma breve pausa sob a luz do sol, a visão de um porto aberto era o bastante para despertar empolgação a bordo.
À frente, estendia-se o principal porto fora de Valon—bóias de pedra imergindo na água, armazéns empilhados de mercadorias e guindastes rangendo enquanto trabalhadores descarregavam cargas. As muralhas da cidade surgiam ao longe, e ainda mais distante, a tênue silhueta das torres internas de Valon brilhando sob a luz do meio-dia. A capital ficava a apenas uma hora de viagem.
Estudantes aglomeravam-se na amurada, apontando e cochichando enquanto os carregadores gritavam ordens lá embaixo. Para alguns, aquilo significava casa. Para outros, era simplesmente o próximo passo.
Noel estava entre eles, seu casaco puxado pelo vento, o olhar fixo no horizonte. 'De volta de novo. Ainda não é a capital de fato… mas já dá pra sentir o cheiro de perto.'
Daemar avançou, sua voz facilmente ouvida acima do ruído. "Estudantes de Valor, aonde estão!"
O cochicho suavizou à medida que se aproximavam. Até as garotas da Luceria, com seus uniformes violetas mais evidentes entre a multidão, voltaram a atenção para ele.
"Chegamos ao porto exterior," disse Daemar, com tom firme, estável. "Daqui, os que pertencem à Academia Imperial de Valor desembarcarão. Vocês terão três meses para descansar antes que a academia retome sua rotina normal. Aproveitem bem esse tempo."
Ele fez uma pausa, deixando a mensagem cair. "A academia não vai fechar, apesar do que aconteceu em Tharvaldur. Nós vamos resistir, e sairemos mais fortes. Mas, por agora, descansem."
Um murmúrio percorreu os estudantes—alívio para alguns, incerteza para outros. Três meses era mais tempo do que a maioria esperava.
O olhar de Daemar se dirigiu ao grupo da Luceria. "Quanto a mim, vou permanecer a bordo. Meu dever é acompanhar a delegação de volta com segurança até a academia deles, em Elarith. Até lá, lembrem-se—vocês carregam o nome de Valor. Não esqueçam."
As cordas foram lançadas aos carregadores, a embarcação parando com ruído de atrito contra o cais. A excitação voltou a crescer, mais forte desta vez. A jornada por mar tinha acabado. E lá adiante, caminhos separados os aguardavam.
O passadiço bateu no lugar, seguido pelo ranger da madeira e pelos primeiros gritos dos trabalhadores prontos para descarregar carga. Estudantes começaram a seguir em grupos dispersos, mas Noel e os seus permaneceram perto da popa, esperando a multidão diminuir.
Elyra foi a primeira a dar um passo à frente. Encarou Noel com sua usual confiança, olhos cinzentos fixos nele sem hesitar. "Vou para casa," disse simplesmente.
Noel assentiu. "Acho que a gente se encontra depois."
Antes que pudesse dizer mais, Elyra se inclinou e o beijou com firmeza nos lábios. Sem provocações ou timidez—apenas uma afirmação clara de que ela era dele.
Ao fundo, um assobio baixo quebrou o silêncio. Roberto, apoiado com os braços cruzados, comentou alto o suficiente para todos ouvirem: "Tch. Comer na frente de quem tá morrendo de fome. Cruel."
Noel lançou um olhar rigoroso para ele, mas Elyra só sorriu de lado, claramente divertida.
Então Charlotte se aproximou. Seus olhos dourados suavizaram enquanto ela olhava para Elyra e, depois, para Noel. "Vou para a Capital Sagrada. Orthran vai querer saber de tudo, e…" ela hesitou por um momento, "preciso vê-lo."
A expressão de Noel relaxou, e antes que pudesse responder, Charlotte pressionou delicadamente os lábios contra os dele. Mais suave que o beijo de Elyra, mas igualmente certeira.
Roberto gemeu, levando a mão ao rosto. "Inacreditável. Dois pratos servidos em sequência."
Elena revirou os olhos, murmurando algo que soava como idiota, discretamente.
Quando Charlotte se afastou, sorriu levemente. "Não esquece de escrever," ela sussurrou.
Noel lhe deu um pequeno aceno. "Apenas não se meta em encrenca."
Então Marcus e Clara avançaram, com as bagagens já arrumadas ao lado. Marcus deu um tapinha no ombro de Noel. "Na próxima vez que a gente brigar, não segure nada. Vou estar mais forte."
Clara lhe deu um abraço rápido, sorrindo calorosamente. "Cuide-se. Ambos."
E assim o grupo começou a se dispersar—cada um rumo ao seu caminho.
Quando os outros partiram, Noel encontrou Roberto recostado em uma pilha de caixas perto do passadiço, com os braços cruzados e o sorriso torto habitual no rosto.
"Vai sair sem me mandar uma despedida?" perguntou Noel, caminhando até ele.
Roberto deu de ombros. "Não quis atrapalhar sua parada de despedida. Difícil competir com beijos sendo espalhados por aí."
Noel sorriu de leve. "Quem sabe na próxima tente ser menos chato. Talvez melhore suas chances."
"Corajoso vindo de você," retrucou Roberto, rindo.
Por um momento, os dois permaneceram ali, ouvindo o burburinho do cais ao fundo. Depois, Noel inclinou a cabeça. "E agora? Você vai pra algum lugar?"
Roberto balançou a cabeça. "Não. Vou ficar na academia. Menos problema assim."
"Faz sentido," disse Noel, preparando-se para virar. Mas então Roberto perguntou de repente: "E o seu lobo? Não vejo ela desde Tharvaldur."
Noel parou, olhando para a sombra aos seus pés. "Ela tá descansando. Aqui." Ele bateu levemente no chão. "Na minha sombra."
O sorriso de Roberto permaneceu, mas ele não respondeu imediatamente. Seu silêncio durou um pouco demais, os olhos fixos em Noel com uma expressão que não combinava com seu tom relaxado habitual.
Noel franziu levemente os olhos. "…O que foi?"
Roberto sacudiu a cabeça rapidamente, erguendo a mão. "Nada. É só estranho, isso mesmo."
Antes que Noel pudesse insistir, Roberto colocou as mãos na boca e gritou: "Ei! Instrutor Rauk! Não vai embora sem mim!"
O idoso respondeu com um grito de volta, e Roberto saiu correndo na direção dele sem mais palavras, a risada ecoando brevemente antes de se perder na multidão.
Noel o observou partir, um incômodo estranho não deixando passar. O silêncio se instalou, apenas interrompido pelo som distante dos trabalhadores e comerciantes. O cheiro de sal e carga fresca pendia no ar, mesclado às vozes dos carregadores orientando guindastes e carroças.
Noel permaneceu ao lado de Elena, ambos mais tempo do que a maioria, pela primeira vez desde que embarcaram há semanas. Sem Elyra provocando, sem Charlotte se agarrando nervosamente, sem Roberto com seu sorriso preguiçoso. Apenas silêncio.
Elena virou o rosto para a brisa, seus olhos âmbar brilhando ao sol. "Estranho, não é? Todo mundo se dispersando para vários lados."
"Estranho," concordou Noel, seu olhar se dirigindo além das muralhas da cidade além do porto. "Mas era de esperar. Cada um tem seu destino."
Descenderam pelas escadas de pedra largas que levavam do cais até a praça principal do porto. O barulho diminuiu um pouco aqui, substituído pelo ranger das rodas de carroça e o trotar dos cavalos contra o chão de pedra.
Foi então que Noel notou algo.
Uma carruagem se destacava das outras, com madeira polida brilhante e cortinas fechadas. Não era ostentosa, mas tinha uma presença que a distinguia das carroças de comerciantes comuns alinhadas na rua.
Dois personagens aguardavam por perto.
O primeiro era inconfundível—Livia. Sua irmã. De altura ereta, postura perfeita, olhar afiado já fixo nele. Sem sorriso, sem aceno. Apenas uma certeza calma de que ela esperava.
Ao lado dela estava outra presença familiar. Veyron. O irmão de Elena. Diferente da elegância de Livia, seu rosto iluminou-se ao vê-los. Um sorriso caloroso e sincero se abriu, fácil e acolhedor, como quem traz calma ao ambiente.
Noel desacelerou um pouco, seus pensamentos se apertando por um instante antes de suavizar. Elena seguiu seu olhar, seus passos vacilando—depois acelerando—quando reconheceu seu irmão.
O ar entre eles não era pesado com silêncio, mas carregado de familiaridade. O sorriso de Veyron permaneceu, firme e reconfortante, como um convite silencioso ao retorno.
O sol lançava longas sombras na praça enquanto a porta da carruagem se abria por um atendente. Noel e Elena trocaram um olhar breve, um entendimento silencioso passou entre eles.
O próximo passo deles já estava determinado.