
Capítulo 317
O Extra é um Gênio!?
O fogo estalava no centro da clareira, faíscas subindo em direção ao escuro do dossel. Ao redor dele, sentavam-se três figuras: dois jovens irmãos, com os olhos refletindo o brilho alaranjado, e uma mulher cujo cada pequeno movimento carregava o tilintar de correntes.
A noite estava silenciosa, exceto pelo crepitar do fogo e pelo eco metálico sempre que a mulher acorrentada ajustava as pernas. Sombras se fechavam ao redor, a floresta pesada e vigilante.
A irmã foi a primeira a quebrar o silêncio. "Não é estranho? O Primeiro Pilar não está aqui."
Seu irmão gêmeo se inclinou para frente, jogando um graveto na fogueira. "Pular uma reunião… isso não é típico dele."
A mulher acorrentada inclinou levemente a cabeça, as correntes de aço arrastando-se suavemente pelo chão. "De fato, inusitado." Sua voz era baixa, com um toque de diversão—ou desconfiança.
Eles ficaram em silêncio novamente, o estalar da madeira preenchendo a lacuna. Em frente a eles, sobre uma tábua de madeira achatada que funcionava como mesa, repousava uma esfera de cristal. Sua superfície inicialmente era opaca, como vidro morto, refletindo apenas fragmentos do brilho do fogo.
Os irmãos trocaram um olhar. O mais novo franziu a testa, batendo impacientemente no joelho. A irmã sussurrou, "Já deveria ter falado alguma coisa."
A mulher acorrentada não respondeu. Simplesmente virou o rosto em direção à esfera, um sorriso discreto surgindo nos lábios enquanto o cristal começava a pulsar suavemente com uma luz interna.
O fogo estalou, uma tora se partiu. O brilho da esfera ficou mais forte, ondas suaves de luminiscência pálida se espalhando por sua superfície. A clareira parecia se inclinar mais para perto, a escuridão ao redor se tornando mais pesada a cada batida da luz.
Os gêmeos se endireitaram instintivamente, o irmão sussurrando baixinho: "Finalmente."
O brilho da esfera estabilizou-se, uma luz branca pálida girando dentro dela. Então, uma voz emergiu—baixa, distante, e com camadas, como se ecoasse de um lugar além do mundo.
Elarin havia se juntado a eles.
"O Primeiro não comparecerá. Ele enfrentou… complicações durante sua última missão. Agora, descansa."
Os gêmeos trocaram olhares apreensivos. O irmão franziu o cenho. "Complicações? Não é típico dele."
A esfera pulsou uma vez antes de continuar. "E Torwan de Tharvaldur… está morto."
Por um momento, o fogo pareceu perder o som. Os olhos da irmã se arregalaram, sua voz cortante. "Torwan… morto?!"
A mulher acorrentada se moveu levemente, o ranger das correntes encher o silêncio. Ela soltou uma risada seca. "Isso… é inesperado. Um anão com tanta influência—sumiu."
O irmão cerrou os dentes. "Isso é um golpe sério. As conexões dele, as finanças… metade do nosso poder em Tharvaldur passava por ele."
O gêmeo assentiu, com o cenho franzido. "Sem Torwan, as operações vão piorar. Mesmo que o Primeiro volte, perder uma coluna como ele—"
"Não se preocupem."
A voz da esfera os interrompeu, calma e absoluta. A luz dentro dela se torceu, formando padrões que nenhum deles conseguiu nomear.
"A queda de Torwan foi prevista. Seu papel está concluído. Tudo segue como planejado."
Os gêmeos se olharam, incertos, mas nenhum ousou questionar diretamente.
A irmã finalmente perguntou: "Então… isso não muda nada?"
"Nada," respondeu Elarin. "O rio continua mesmo se uma pedra afunda. A corrente não se rompe."
A mulher acorrentada inclinou a cabeça, as correntes escorregando enquanto se aproximava da esfera. "Sempre enigmático. Mas, se você diz que continua, vou aceitar sua palavra."
O irmão murmurou baixinho, ainda inquieto: "Perder Torwan… não parece algo sem consequência."
A esfera pulsou novamente, o brilho interno mudando para formas estranhas e espirais. Quando a voz de Elarin retornou, ela seguia tão calma quanto antes, distante de suas preocupações.
"Em duas semanas, os gêmeos irão se mover. Sua missão está clara."
O irmão se inclinou para frente, apoiando os cotovelos nos joelhos. "Já estamos preparados. Quando o sol se pôr naquele dia, estaremos em Valor."
A voz da irmã veio sem hesitação: "Sabemos o que precisa ser feito. A derrubada da Casa Thorne."
O fogo crepitava, mas o peso das palavras era maior do que as chamas. A mulher acorrentada inclinou a cabeça, um leve sorriso surgindo nos lábios. As correntes ao redor de seus pulsos rangeram com um som metálico áspero.
"Thorne, hm? Boa escolha. Com esse alvo, vão atrair muitos olhares."
O irmão escarneceu. "Não temos medo de olhares."
A irmã acrescentou, de forma mais afiada: "Nem de sangue."
A voz de Elarin vindo da esfera cortou a tensão: "A linhagem Thorne protege o que deve permanecer escondido. Quebrar a casa enfraquece o escudo. O caminho se abre."
Os gêmeos trocaram olhares, com dúvidas piscando em suas expressões. O irmão falou, mais devagar agora: "Essa é sua razão? Porque eles estão protegendo algo?"
A luz da esfera escureceu levemente, seu tom ainda mais enigmático. "Não é algo. É o fio que me liga fora do seu mundo. Rasgue-o, e as muralhas irão ficar mais finas."
Silêncio pesado se seguiu, difícil de suportar. A irmã franziu a testa, mas não disse nada. O irmão se recostou, os lábios cerrados. A risada contida da mulher acorrentada se ampliou, como se achasse graça na inquietação deles.
"Vocês sempre falam em charadas," ela disse sorrindo, as correntes arrastando-se ao cruzar as pernas. "Mas se tudo isso fizer Valor tremer, vou curtir a vista."
A esfera diminuiu um pouco de intensidade, mas sua presença ainda os pressionava. "Não duvide do fluxo. Basta seguir onde ele leva."
- Ponto de vista de Noel -
O zumbido abafado da nave preenchia o corredor estreito enquanto Noel se dirigia até a cabine de Roberto. Ele não o tinha visto muito nos últimos dias—além das refeições, Roberto tinha desaparecido na maior parte do tempo no seu quarto.
Noel bateu uma vez na porta, depois a abriu sem esperar. "Se você já se grudou na cama, avisa pra eu parar de perder meu tempo."
Dentro, Roberto estava deitado na sua cama, com os braços atrás da cabeça, olhando fixamente para o teto. Ao ouvir a voz de Noel, gemeu. "Tava esperando que, se eu ficasse parado tempo suficiente, vocês esquecessem que eu existo."
Noel sorriu de lado, entrando. "Tentador. Mas aí, quem eu ia zombar quando o treinamento ficar chato?"
Roberto abriu um olho e lançou um olhar meio de reprovação. "Você poderia incomodar o Marcus. Ele adora levar puxão."
"Fazer brincadeira, não tortura," retrucou Noel, encostando-se na parede.
Por um instante, o quarto ficou silencioso, exceto pelo rangido da nave. Então Roberto suspirou, rolando para o lado para olhá-lo. "Você é demais de enérgico, sabia? Não consigo acompanhar. Às vezes parece que, se piscar, você já tá lutando com dragões ou algo assim."
Noel cruzou os braços, fingindo seriedade. "Isso é um insulto. Dragões estão bem fora do seu alcance."
Roberto deu uma risadinha apesar de si mesmo, um sorriso surgindo. "Pois é. Me lembra aí porque somos amigos mesmo?"
"Porque ninguém mais consegue aturar você," respondeu Noel de forma dry.
Roberto deu uma risada, jogando uma almofada na direção dele. Noel a interceptou com uma mão e a deixou cair de volta na cama. A tensão no ambiente aliviou.
Apesar da preguiça, Roberto não era só mais um colega de classe. Era seu âncora—a única pessoa que o tratava do mesmo jeito, fosse ele vencendo lutas ou arrastando-se de meia-fora, quase morrendo.
"Não demore aqui também," disse Noel ao se afastar da parede. "Vou precisar que você esteja acordado pra impedir que os outros façam besteira."
Roberto bocejou, deitando de novo. "Tá bom, tá bom. Mas me deixa aproveitar minha soneca enquanto dá."
Noel sorriu enquanto fechava a porta. "Perdido."
Mas o sorriso permaneceu no rosto enquanto ele voltava pelo corredor.