O Extra é um Gênio!?

Capítulo 319

O Extra é um Gênio!?

A tempestade ainda rugia lá fora, um murmúrio baixo que parecia penetrar pelas próprias paredes. Noel sentava-se na ponta de sua cama, uma estrutura ampla e finamente entalhada, coberta por um veludo escuro. A sala era maior do que a de qualquer outro estudante—um vaso de Estermont não economizava detalhes, especialmente quando a palavra de Elyra tinha peso. Ainda assim, mesmo cercado de madeira polida, detalhes dourados e a luz suave de lanterna, a tensão da tempestade de mana apertava seu peito.

As paredes estremeceram com outra surtada. A lanterna acima oscilou.

Então—toc, toc.

Noel levantou a cabeça, a mão instintivamente tocando a Lâmina do Presente ao seu lado. 'Quem estaria lá no corredor agora? Eles receberam ordens para ficar nos quartos.'

Ele se levantou, atravessando o piso acolchoado com passos silenciosos, e destravou a porta.

Era uma garota com cabelo de tom avermelhado queimado e olhos hazel suaves. Por um instante, Noel congelou, a expressão se fechando.

"Charlotte?" murmurou.

A garota não disse nada. Ela apenas avançou, passando por ele com hesitação urgente. No momento em que a porta se fechou atrás delas, a máscara derreteu-se como névoa. Os fios vermelhos voltaram à tonalidade rosa suave, e os olhos hazel cintilaram dourados.

A mão de Noel deslizou da espada, embora suas sobrancelhas ainda estivessem franzidas. "Você realmente anda pelos corredores nessa confusão toda?"

Charlotte não respondeu imediatamente. Ficou ali, respirando superficialmente, o olhar piscando para a lanterna trêmula acima. Suas mãos torciam-se levemente na frente do vestido, até que finalmente sussurrou: "...Eu só não queria estar sozinha."

A tempestade lá fora rugia, sacudindo as vidraças da janela.

Charlotte permaneceu perto da porta, os dedos brincando com a bainha da manga. Outra onda da tempestade de mana passou, as paredes da cabana estremecendo com um ruído baixo. Ela se assustou, comprimindo os lábios.

Noel inclinou a cabeça. "Então? Vai ficar aí parado?"

Seus olhos dourados levantaram-se para ela brevemente, incertos, antes de se desviarem. "...Posso ficar aqui esta noite?"

Não havia brincadeira na voz dela, nem malícia. Apenas uma vulnerabilidade silenciosa.

Noel ergueu uma sobrancelha, mas seus braços relaxaram enquanto cruzava os braços. "Você normalmente não pede."

Charlotte avançou um pouco mais para dentro, passos pequenos. Sentou-se na beirada da cama dele, as mãos unidas com firmeza no colo. "As tempestades me assustam," admitiu, com voz baixa. "Mesmo sabendo que o navio está seguro, não consigo... não consigo evitar o aperto no peito quando ela chega."

Noel ficou em silêncio por um momento, observando seus ombros tremerem enquanto outra onda de mana sacudia a lanterna acima deles. Para alguém que se comportava como uma santa diante do mundo, ela parecia tão diferente aqui—apenas uma garota da mesma idade, com medo de algo que não podia controlar.

Por fim, ele suspirou e sentou-se ao lado dela, perto o suficiente para que seus ombros se tocassem. "Você devia ter dito isso logo de cara."

Ela olhou para ele, surpresa com sua franqueza, mas um sorriso tênue apareceu nos lábios dela. "Você faz parecer fácil."

"Porque é." Sua voz era plana, porém sua mão se estendeu para cobrir a dela. Ela apertou de volta rapidamente, quase desesperada.

O próximo trovão fez a madeira ranger, mas desta vez Charlotte apoiou-se nele ao invés de recuar. Ela encostou a testa suavemente no ombro de Noel, sussurrando: "Eu só... não quero estar sozinha."

A tempestade pulsou novamente, o casco tremeu levemente. Charlotte se mexeu, puxando a mão de Noel. "Deita comigo..."

Noel olhou para ela, mas ela já o puxava em direção à cama. Ele suspirou e deixou-se cair de costas contra o colchão, o veludo suave sob eles. Charlotte imediatamente se aninhou contra ele, colocando a cabeça no seu peito.

A respiração dela era irregular no começo, o cabelo dourado roçando seu queixo enquanto a embarcação tremer novamente. Ele levantou uma mão, lentamente passando pelos fios dela até que ela se acalmasse.

"Melhor?" perguntou baixinho.

"Mhm," ela murmurou, a voz abafada contra ele. "Fica mais fácil respirar assim."

Ficaram ali em silêncio por um tempo, apenas a luz tênue da lanterna preenchendo o cômodo. O peso da tempestade lá fora parecia distante diante do calor dela rondando seu peito.

Então Charlotte falou de novo, mais suave. "E... Elyra e Elena ficam com medo assim às vezes?"

Noel piscou surpresa com a pergunta repentina. "...Às vezes," admitiu após uma pausa. "Elyra disfarça com aquela língua afiada. Elena... ela fica tão corada que dá pra perceber quando está nervosa."

Charlotte deu uma risadinha, embora carregada de melancolia. "Então só eu que corro direto pro seu quarto quando o mundo parece desabar?"

Noel olhou para ela, passando o polegar pelo ombro dela. "Você é a única que admite."

Ela virou-se, a bochecha pressionada mais firmemente contra ele, como se estivesse abraçando o batimento do seu coração. "Não me importo com elas," disse baixinho. "Elyra, Elena... elas se preocupam com você. Dá pra perceber. Só quero saber se há espaço pra mim também."

O peito de Noel subiu lentamente, o braço se ajustando ao redor dela. "Se você está perguntando isso, já sabe a resposta."

A tempestade trovejou novamente na cabana, mas Charlotte não recuou desta vez. Ela apenas exalou, seu corpo afundando mais fundo em seu abraço.

Por uma primeira vez desde que entrou, seu tremor cessou.

A respiração dela voltou ao normal, suave e constante contra seu peito. Seus olhos dourados estavam fechados, os cílios repousando levemente sobre as bochechas.

Noel olhou para baixo, desviando um fio de cabelo rosa de seu rosto. "Desmaiada," ele comentou baixinho. Ela não se mexeu, apenas se aconchegou mais perto, como se pudesse se fundir a ele.

Ele recostou-se contra o cabeceira, com cuidado para não acordá-la. Pela primeira vez, o silêncio parecia seguro.

'Três deles,' pensou, olhando para o teto. 'Elyra, Elena, Charlotte... de alguma forma ainda estão aqui. Ainda comigo, mesmo depois de tudo que os trouxe até aqui.'

Seu braço se apertou um pouco mais ao redor dela. O peso dela contra ele era real, fixando-se. E mesmo assim, ele podia ainda imaginar o sorriso tímido de Elena quando achava que ele não olhava, a expressão de Elyra quando a provocava naquele jeito audaz e destemido.

'Eles merecem coisa melhor do que meias verdades. Melhor do que o silêncio que lhes dou.'

A lanterna acima piscou com outra onda da tempestade, mas seus pensamentos eram muito mais altos que o barulho lá fora.

'Depois que tudo passar... que o que está por vir acabar de vez... eu vou contar tudo. Para elas. Chega de me esconder.'

Charlotte murmurou algo em sonhos, os dedos-se enrolando levemente na camisa dele. Noel ficou parado, observando seu rosto suavizar novamente.

Um sorriso leve surgiu em seus lábios, raro e passageiro. 'Não sei por que elas me escolheram... mas eu não vou desperdiçar.'

Fora, a tempestade gemeu uma última vez, mas a pior parte já havia passado. Dentro, a calmaria dominava—a menina dormindo em seus braços, Noel acordado com pensamentos mais pesados que qualquer trovão.

Ele fechou os olhos por um instante.

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