O Extra é um Gênio!?

Capítulo 300

O Extra é um Gênio!?

A câmara estava escura, iluminada apenas pelo brilho constante dos candeeiros de mana fixados nas paredes de pedra esculpida. Sua luz azulada suave projetava sombras longas por toda a sala, dando ao ambiente uma sensação pesada, de silêncio abafado. Nicolas mexeu-se, com pálpebras pesadas, forçando os olhos a se abertura.

Seu corpo parecia errado. Pesado. Fraco. O zumbido familiar da mana que sempre percorrera suas veias desaparecera—uma sensação de vazio que tomava seu lugar. Ele tentou ativar seu núcleo por impulso, mas não havia nem uma faísca sequer.

Sua respiração ficou errática. Lentamente, levantou a mão. A pele enrugada encontrou seus olhos—linhas mais profundas do que lembrava, ossos mais finos, frágeis. Com dedos tremendo, tocou seu rosto, percebendo a pele caída e os hollow que antes desconhecia.

O espelho de aço polido apoiado na parede confirmou o que ele já sentia. Não era mais o homem afiado e de meia-idade que ostentava a postura firme de diretor da Academia Imperial—o que refletia nele era um idoso na faixa dos oitenta anos. Os anos que seu mana havia mantido à distância tinham vindo à tona de uma só vez, durante a noite.

Um pensamento amargo atravessou seu peito. 'Então... é assim que se sente... estar despido.'

Ele virou o olhar lentamente. Noel estava lá, sentado desanimado em uma cadeira ao lado da cama, com a Fúria de Revenant encostada na parede ao alcance das mãos. Sua cabeça inclinada para o lado, lábios entreabertos, o sono puxando seu corpo exausto.

Nicolas soltou um suspiro fraco. O garoto parecia esgotado, com sombras sob os olhos mesmo em repouso. Sem dúvida, permaneceu acordado a noite toda, vigiando.

O Arquimago—não, o velho que se tornara—fechou os olhos brevemente, a dor mais profunda do que qualquer ferida instalando-se. Sua era tinha acabado ali, nesta sala. E ao seu lado, estava aquele que teria que carregar o que viesse a seguir.

Nicolas moveu-se, tentando se levantar contra a cabeceira da cama. O esforço fez seus braços tremerem, sua respiração ficar irregular. O movimento despertou Noel. Ele piscou, esfregou os olhos e se endireitou na cadeira.

"Você acordou," disse Noel calmamente, com a voz rouca de cansaço.

Nicolas fez um leve gesto de cabeça, mas seus olhos caíram sobre seu próprio peito. Pressionou a mão nos curativos, onde antes pulsava um núcleo de mana como um segundo coração. Agora, havia apenas silêncio.

"Não consigo sentir," murmurou Nicolas, com a voz vazia. "Meu núcleo... sumiu."

Noel abaixou a cabeça, a culpa distorcendo suas feições. "Sei."

Nicolas forçou o olhar de volta para o espelho de aço, encarando o reflexo de um homem envelhecido. Seu maxilar bloqueado, dentes rangendo de forma audível. "De ser um prodígio, um Arquimago… para isso." Sua mão enrugada fechou-se em punho na coberta. "Apenas um velho frágil."

"Me desculpe," sussurrou Noel, com a voz trêmula. "Se eu fosse mais forte, talvez—"

"Pare," a voz de Nicolas cortou, dura e firme, atravessando o peso do ambiente. Seus olhos, embora opacos pela idade, ainda carregavam o fogo de antigamente. "Nada disso é sua culpa. Você me ouve?"

Noel olhou assustado para ele, mas Nicolas continuou, agora com uma voz mais calma. "Você fez mais do que qualquer um poderia pedir. Lutou quando outros fugiriam. Ficou de pé quando até eu caí."

Ele recostou-se, exausto, deixando os ombros pesados. Por um momento, silêncio voltou. Então, seus lábios se curvaram suavemente. "Obrigado, Noel... por tudo o que fez até agora."

Noel engoliu em seco, incapaz de responder. Seus punhos cerrados no colo, a culpa ainda pesando, apesar das palavras de Nicolas.

Nicolas respirou fundo lentamente, fechando os olhos por um instante como se reunisse forças. Quando os abriu novamente, seu olhar havia se fixado firmemente em Noel.

"Não será fácil daqui pra frente," disse, com a voz mais baixa, mas segura. "Não posso mais lutar ao seu lado. Isso ficou claro." Seus dedos enrugados tocaram levemente a cama, como aceitando a verdade, mesmo que doendo. "Mas você não está sozinho, Noel."

Noel franziu a testa, cerrando a mandíbula. "Sozinho é tudo que sempre fui."

Um leve sorriso surfou pelos lábios de Nicolas. "Isso não é verdade. Você simplesmente se recusa a enxergar."

Os olhos de Noel se apertaram, mas ele não disse nada.

"Você tem o Marcus," continuou Nicolas. "Aquele menino ri demais às vezes, mas sua lealdade é inabalável. Você tem as garotas que o seguiram, que confiam mais do que você imagina. Elyra, Elena, Charlotte—elas já decidiram ficar ao seu lado."

Noel se moveu desconfortável ao ouvir os nomes delas.

"E Balthor," Nicolas prosseguiu, sua voz ganhando um pouco mais de força. "Um reino inteiro a seu favor. Pode até reclamar, mas não se engane—ele marcharia com seu exército por você."

Noel olhou para baixo, os punhos mais fechados ainda.

"E Noir," acrescentou Nicolas, quase como um pensamento de passagem. "Não a esqueça. Ela ainda está com você, do jeito dela."

A garganta de Noel fechou ao ouvir o nome, o peso da ausência de Noir cortando mais fundo do que admitiria.

A expressão de Nicolas suavizou. "Com o tempo, você vai encontrar mais aliados. Este mundo... ele precisa de você para seguir em frente. Então, por favor, Noel..." Seus olhos brilharam levemente, a chama do Arquimago ainda lá, apesar do estado de fragilidade. "Pelo bem deste mundo, continue indo em frente."

Noel olhou para ele em silêncio, as palavras atingindo mais fundo do que gostaria de admitir.

O silêncio se estendeu entre eles. Nicolas recostou-se nos travesseiros, sua respiração tranquila, embora rápida, enquanto Noel olhava para as mãos. As palavras de Nicolas ainda ecoavam em seu peito, mas o peso delas quase demais para suportar.

Sem dizer uma palavra, Noel mergulhou na bolsa dimensional. Uma tênue faísca de mana escapou enquanto ele puxava uma pequena pedra com runas, modelada como um sigilo. O sistema piscou em sua visão.

[Item identificado]

Nome: Sigilo de Chamado

Classificação: Raro

Tipo: Utilitário

Descrição: Permite sinalização de emergência para uma pessoa marcada. Conectado a: Noel Thorne.

Noel girou o sigilo na palma da mão e o estendeu para Nicolas.

O Arquimago franziu a testa. "Foi isso que eu te dei. Por que—"

"Porque agora é mais útil para você," interrompeu Noel, pressionando o item na mão dele. "Eu o conectei a mim. Você pode me chamar direto, se precisar."

Nicolas piscou, surpreso. "Mas você não tem magia de teletransporte."

Noel balançou a cabeça. "Não. Mas posso mover-me pelas sombras. Se usar isso, eu vou chegar até você. Onde quer que esteja." Sua voz era firme, sem deixar dúvidas.

Nicolas olhou fixamente para o sigilo na mão enrugada, a luz tênue refletindo em seus olhos cansados. Lentamente, sua expressão ficou mais suave. "…Você cresceu rápido demais, Noel. Mais rápido do que alguém deveria."

Noel não respondeu. Simplesmente voltou a se sentar na cadeira, com um semblante impassível, embora seus olhos verdes queimassem com uma determinação silenciosa.

Os dois permaneceram em silêncio—a queda do Arquimago segurando o sigilo, e o jovem que assumira o peso do amanhã.

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