
Capítulo 280
O Extra é um Gênio!?
O rugido da praça ainda ecoava pelas rochas quando Balthor ergueu o braço. O som de milhares de vozes começou a diminuir, o murmúrio se transformando em uma silêncio pesado de expectativa. Todos os olhares se voltaram para ele — o anão que horas atrás era conhecido apenas como um bêbado, agora coroado como rei.
Ele permaneceu ereto no centro do palco. A armadura cerimonial refletia o brilho alaranjado das tochas, a coroa de ferro enegrecido pesada sobre a testa. Sua expressão era firme, séria, e sua voz carregava uma clareza surpreendente pelo interior da caverna.
"Olá... Sou o seu novo rei."
As palavras por si só causaram murmúrios, mas Balthor prosseguiu. "Meu irmão, Torwan, foi o por trás de tudo que vocês sofreram. As mentiras, as correntes, as fábricas de desespero. Ele usou este reino para seu próprio benefício e deixou cicatrizes em cada um de vocês."
A praça gemeu com gritos de raiva e clamos de tristeza. Balthor não vacilou. Deixou-os falar, permitiu que o som de indignação o envolvesse como uma onda, antes de levantar novamente a mão.
"Peço perdão a vocês. Em nome do meu sangue, em nome do nosso falecido pai e em meu próprio nome como seu rei."
Suspiros seguiram-se. Raros eram os anões que costumavam abaixar a cabeça, mas Balthor inclinou-a levemente diante do seu povo. O gesto tocou mais fundo do que qualquer palavra.
Devagar, o barulho mudou. A fúria se suavizou em murmúrios de surpresa, em aplausos dispersos no começo, crescendo em intensidade. Famílias se abraçaram, algumas com lágrimas nos olhos.
Acima, as bandeiras de Tharvaldur balançavam como se fossem movidas pelo próprio momento. A caverna — o coração da montanha — prendia a respiração, ouvindo um rei que, pela primeira vez em anos, falou a verdade em voz alta.
Balthor não deixou o silêncio persistir. Sua voz subiu novamente, forte e firme, ecoando pelas paredes de pedra da caverna.
"As feridas deste reino são muitas. Famílias destruídas, crianças escravizadas, vidas arruinadas sob o regime de meu irmão. Não posso apagar o que foi feito. Mas juro a vocês — nenhuma família será deixada para trás. Cada criança que sofreu será cuidada. Cada vida desfeita pelos crimes dele será restabelecida."
A multidão remexeu-se, emoções à flor da pele. Alguns choravam abertamente, seus gritos atravessando a praça. Outros cerravam os punhos, a raiva não havia desaparecido, mas tinha sido contida pelo peso de sua promessa.
"Prometo a vocês", continuou Balthor, golpeando o peito com a mão fechada, "que Tharvaldur renascerá. Nosso orgulho retornará. Nosso nome não será mais sussurrado com vergonha, mas falado com honra, como já foi."
Dos varandões e pontes, os anões inclinavam-se à frente, com os olhos fixos nele. A luz do fogo pintava seus rostos em tons de laranja e ouro, faíscas de esperança onde antes só havia desespero.
Noriel estava atrás dele, com expressão severa, mas aprovada. Sabia que aquelas palavras não eram vazias — elas prenderiam Balthor mais do que a coroa que usava.
Balthor abriu os braços. "A escuridão acabou. As mentiras ficaram para trás. A partir de hoje, nenhum homem, mulher ou criança será mais peão da ganância. De hoje em diante, Tharvaldur caminha para a luz!"
O grito de esperança que se seguiu sacudiu a caverna. Tacos batendo no chão e punhos levantados retumbavam contra as pedras, enchendo cada canto da cidade subterrânea com um rugido de unidade.
A promessa foi feita. E o povo, pela primeira vez em uma década, acreditou nela.
O estrondo de comemoração ainda reverberava na caverna quando Balthor ergueu novamente a mão. Sua expressão, séria até então, de repente se quebrou em um sorriso.
"Bem," disse alto, sua voz ecoando pelo praça, "a parte chata acabou!"
Uma onda de risadas percorreu a multidão, a atmosfera pesada aliviando-se instantaneamente. Balthor sorriu, sua coroa levemente inclinada, como se fosse apenas uma peça de armadura a mais.
"Já falamos de sombras e cicatrizes, de mentiras e traições. Mas os anões — não somos um povo de luto infinito!" Sua braço se estendeu em direção à plateia, seu tom se elevando com energia. "Ainda estamos de pé, não estamos? Ainda respiramos, lutamos e bebemos!"
A multidão rugiu de volta, os gritos aumentando de volume.
"E ainda temos o torneio!" Balthor continuou. "Uma celebração de força, coragem e união. Este não é o momento de se afundar na tristeza — é hora de aproveitar a festa, levantar nossas cabeças e nossas canecas bem alto!"
Balthor levantou um punho, sorrindo ainda mais. "Hoje à noite! Uma festa para todo Tharvaldur! Comida e bebida para todos — de graça!"
A praça explodiu de alegria. Os anõesgritavam de felicidade, cantando, batendo os pés, alguns já entoando canções de taverna fora de ritmo. A palavra cerveja se espalhou pelo povo como um incêndio, e o eco de "Cerveja! Cerveja! Cerveja!" sacudiu as colunas de pedra.
De cima, os nobres trocavam olhares de incredulidade, enquanto o povo comum abraçava a novidade como se fosse salvação.
Balthor ria abertamente no palco, aproveitando o caos que ele mesmo havia provocado.
A praça era pura bagunça — uma confusão alegre e ensurdecedora. Os anões pisavam com força, fazendo as pontes de pedra acima tremerem. Alguns começavam a cantar músicas antigas de beber, outros levantavam seus filhos como se já carregassem canecas nas mãozinhas. A promessa de cerveja grátis tinha transformado dor em celebração em segundos.
No palco, Balthor espalhou os braços, sorrindo como quem acaba de vencer uma briga na taverna. Sua coroa inclinou-se levemente enquanto gritava por cima dos cantos de comemoração, embora ninguém pudesse mais ouvi-lo. O povo já tinha tomado o momento como seu.
Por trás, Noriel colocou a mão no rosto, balançando a cabeça. "Claro..." murmurou, baixo demais para a maioria ouvir. Para ele, a promessa de bebida grátis para um reino inteiro era uma imprudência — e ainda assim, não podia negar o efeito. Os anões adoraram.
No setor reservado acima da multidão, Noel riu baixinho. O som foi breve, mas sincero. Apoiou-se na grade, observando a confusão se desenrolar. 'Rei ou não, ele continua sendo o mesmo Balthor. Algumas coisas nunca mudam.'
Elena estava ao seu lado, com os olhos bem abertos diante do rugido de cantoria. "Eles... estão... muito altos," ela murmurou, tentando falar por cima do eco.
Elyra sorriu de lado, com os olhos cinzentos brilhando. "Altos, sim. Caros também. Imagine o custo de toda essa cerveja. Mas... no quesito que importa, é um investimento inteligente. Nada conquista corações mais rápido aqui do que bebida."
Noel riu novamente, balançando a cabeça. Ver os anões dançando, soldados se abraçando e famílias comemorando parecia— depois de tudo o que enfrentaram — algo surreal. Mas talvez fosse exatamente o que precisavam: nada de discursos, apenas algo que os fizesse lembrar que ainda estavam vivos.
Os cantos de "Balthor! Balthor!" ressoaram por toda a montanha de Tharvaldur.