
Capítulo 275
O Extra é um Gênio!?
As botas pesadas de Balthor ecoavam contra o piso de pedra enquanto ele se aproximava. Seus ombros largos estavam tensos, as mãos cerradas em punhos ao lado do corpo. Ele olhou para a figura que jazia destruída, amarrada e sangrando, e por um longo momento ficou em silêncio.
Quando finalmente falou, sua voz era baixa, carregada de decepção. "Então é assim que você se tornou, Torwan. Um assassino. Um covarde. Alguém que virou as costas para nosso pai, para Tharvaldur, para nossa linhagem." Seu maxilar se travou. "Eu pensei... talvez, por baixo de todos os rumores, ainda restasse algo do irmão que eu conhecia. Mas estava enganado."
Torwan deu uma risada fraca, os lábios se curvando em um sorriso sarcástico, apesar da dor. "Poupe-me de suas dramatizações, Balthor. Família? Legado? Lealdade? Tudo palavras inúteis. Eu não me importo com o que você pensa de mim."
Os dentes de Balthor rangiam de maneira audível. "Você envergonhou tudo pelo que nosso povo luta. Envergonhou a mim."
"E ainda assim," Torwan rastejou, os olhos brilhando com zombaria, "aqui está você, o bêbado que perdeu a vida em tavernas, finalmente se levantando porque alguém colocou uma coroa na sua cabeça. Não me dê lições de vergonha."
A respiração de Balthor veio pesada, o olhar fixo naquele homem que compartilhou seu sangue, mas que parecia um estranho. "Você envergonhou tudo, Torwan. Nosso nome. Nosso povo. Até a memória do nosso pai. Não consigo entender até onde você iria."
Torwan sorriu de canto, a dor contornando seu rosto, a voz rouca, mas firme. "Por quê? É simples." Ele encostou a cabeça na parede fria, os olhos cintilando com uma diversão sombria. "Porque é divertido. Ter tantas vidas à disposição. Fazer o que quiser, sabendo que, aconteça o que acontecer, você tem todo o controle."
O queixo de Balthor se fechou com força, os nós das mãos ficando brancos de tanta força na Constituição.
O sorriso de Torwan se alargou, cruel e vazio. "No final, exatamente como o pai sempre quis, eu era rei. Talvez não pelo nome, mas era minha mão controlando cada fio. A marionete usava a coroa, mas eu era quem dava as ordens. Eu tinha o poder e isso dava uma sensação boa."
"Você é louco," murmurou Balthor, a voz oscilando entre raiva e tristeza. Ele balançou a cabeça lentamente, como se tentasse eliminar a imagem do garoto que seu irmão um dia foi.
Torwan deu uma risada, despreocupado. "Não finja que você não teria feito o mesmo, irmão. Você era fraco demais, contente demais em se afogar na cerveja enquanto eu moldava reinos."
O olhar de Balthor se tornou duro. "Você está enganado. A força não está em transformar pessoas em ferramentas. A força está em defendê-las, protegê-las. E você—" suas palavras saíram afiadas, definitivas, "—você já perdeu essa chance."
Torwan inclinou a cabeça, ainda com um sorriso sutil, embora a voz carregasse uma ponta de amargura. "E agora? Vai fingir ser o herói?Vai consertar tudo o que o irmão mais novo estragou?"
Balthor deu um passo lento para frente, abaixando a cabeça até que seus olhos se encontrassem diretamente. Sua voz roncou como pedra rangendo contra pedra. "Sim. Vou consertar tudo que meu irmão mais novo quebrou. Passarei o resto da minha vida garantindo que Tharvaldur se recupere do que você fez. Essa é a diferença entre nós, Torwan. Você brincou com vidas porque pôde. Eu vou salvar porque devo."
Os dois anões se calaram, um olhando para o outro — não como irmãos, mas como inimigos ligados por sangue.
Os ombros de Balthor desabaram, o fogo em seus olhos se apagando em algo mais frio. Ele olhou para Torwan por um momento longo e doloroso, até que finalmente balançou a cabeça.
"Você não é mais meu irmão," disse ele, com a voz baixa, mas firme. "O que você foi um dia... já acabou. Eu carregarei o peso que você deixou, mas nunca mais será minha família."
Torwan sorriu levemente, apesar de o sangue tingir seus dentes. "Ótimo. Eu nunca quis ser."
Sem dizer mais nada, Balthor virou-se de costas e saiu da câmara, suas botas pesadas ecoando enquanto se afastava. Pela primeira vez, os dois irmãos se encontraram em lados opostos de uma linha que nunca mais poderia ser atravessada.
A silêncio persistia até Nicolas dar um passo à frente, com expressão arrebatadora. "Chega de sentimentalismo. Ainda precisamos de informações. Existem mais fábricas? Para quem vocês venderam? Quem mais faz parte dessa rede?"
Torwan tossiu, a respiração curta. "Fábricas… compradores… acha que vai resolver tudo perguntando?" Sua voz se quebrou numa risada — e então, subitamente, foi cortada.
Sangue começou a escorrer de sua boca. Os olhos se arregalaram enquanto uma corrente carmesma despencava pelo queixo. Ele engasgou, tossindo com mais força, e mais sangue jorrou, respingando no piso de pedra.
Nicolas congelou. "O quê—?"
O corpo de Torwan se jogou violentamente contra as amarras. A língua inchou, escura e grotesca, sangrando sem parar até preencher sua garganta. A voz dele ficou presa, misturada em gorgolejos, mas ele forçou sua cabeça na direção de Noel.
Entre o engasgo e as convulsões, resmungou com um olhar maníaco: "Eu... ainda não terminei... com você."
O sangue ofuscou suas palavras, e seu último olhar se fixou em Noel enquanto seu corpo se convulsionava uma última vez.
Noel cerrava os punhos, com a mandíbula tensa. 'Louco de pedra…'
Torwan desabou, sem vida, a poça de sangue se espalhando sob ele.
A quietude na câmara era sufocante. O único som era o gotejar do sangue na pedra, em respingos desiguais.
Nicolas respirou fundo, passando a mão pelo rosto. "Merda. Ele certamente tinha mais informações... e agora, desapareceu."
Noel deu um passo à frente, com voz firme. "Nem todas. Eu o interroguei antes de você retornar. Ele deslizou algumas coisas." Olhou nos olhos de Nicolas. "Tem dois em Valor. Um ainda aqui, em Tharvaldur. E outro nas ilhas."
Os olhos de Nicolas se arregalaram por um momento antes de acenar com a cabeça. "Isso... basta para começar."
Noel então virou-se, olhando para Balthor. O anão não tinha se mexido, seu olhar fixo no corpo ensanguentado do irmão mais novo. "Como você se sente?" perguntou Noel em tom tranquilo.
Os ombros de Balthor tremeram uma vez, mas ao olhar para cima, seus olhos estavam firmes, sem lágrimas. "...Como se o tivesse perdido três vezes. A primeira quando achei que ele morreu há cinquenta anos... Uma quando ele nos traiu. E agora, quando morreu." Fez uma pausa e, com um aceno rude, completou: "Obrigado. Por ter me contado a verdade na Fortaleza do Bardo…"
Noel assentiu levemente, sem dizer mais nada.
Os três permaneceram em silêncio, a própria imagem do morto a seus pés um lembrete tanto da vitória quanto de questões pendentes.