
Capítulo 260
O Extra é um Gênio!?
Torwan estava reclinado em sua cadeira de couro, com um cálice de cristal cheio de bebida escura na mão e uma pilha de bilhetes de aposta e livros espalhados à sua frente. O barulho abafado do restaurante lá embaixo parecia distante, quase inexistente aqui.
Um knock firme quebrou o silêncio.
"Entre," disse Torwan sem tirar os olhos do que fazia.
A porta se abriu e seu assistente entrou, fechando-a atrás de si. "Ainda não temos pista da Tyria."
Torwan colocou cuidadosamente o copo na mesa, mantendo a calma. "Explica."
"As equipes de busca vasculharam todas as rotas possíveis por onde ela poderia ter passado," disse o assistente, aproximando-se mais. "Nossos observadores na cidade não relataram nada. Nenhuma visão, nenhuma comunicação, nada em nenhuma das casas seguras. É como se ela tivesse desaparecido."
O olhar de Torwan se levantou lentamente, refletindo o fogo nos seus olhos. "E as pessoas que temos dentro da academia?"
"Elas também não a viram. Nem uma palavra, nem um lampejo." A voz do assistente ficou mais tensa. "Já aumentei as recompensas por informações. Até agora, ninguém está falando."
Torwan recostou-se na cadeira, batendo distraidamente um dedo no braço da cadeira. "Dez anos ela esteve aqui sob minha supervisão, e agora desaparece sem deixar rastros. Você entende o que isso significa."
O assistente hesitou. "Sim. Se ela foi, e se ela falar—"
"—não é uma hipótese," interrompeu Torwan numa voz fria, mais cortante. "É questão de tempo."
Silêncio pesado e deliberado tomou conta entre eles. Torwan novamente deitou-se na cadeira, girando o líquido âmbar no copo. "Tyria não é uma coisa que se pode perder de vista. Ela sabe demais. Encontre-a."
"Estamos estudando todas as possibilidades," disse o assistente rapidamente. "Mas… também tenho algo que você precisa saber."
As sobrancelhas de Torwan se franziram levemente. "Então diga."
A voz do assistente ficou mais baixa. "Você se lembra do estudante que derrotou Tyria?"
As sobrancelhas de Torwan se franziram, os dedos da mão livre batendo levemente na mesa. "Claro que me lembro. Noel Thorne. Um talento promissor. Pensei em trazê-lo para a nossa academia, mas Nicolas não quis lhe dar oportunidade."
O assistente deu um aceno lento. "Esse é o nome. E… um dos representantes que veio da família Estermont para negociar conosco — tinha esse mesmo nome."
Os dedos de Torwan que batiam na mesa pararam. "Coincidência," disse ele, de forma seca, embora sua expressão não transmitisse muita convicção.
"Pensei assim no começo," continuou o assistente. "Mas no dia em que quem venceu o Bone Crusher… foi aquele Noel."
O olhar de Torwan se aguçou, uma leve mudança na postura revelando um interesse sutil. "Continue."
"Desde que finalizamos o acordo, eles não voltaram. E parece que ele soube os resultados do combate com antecedência, deve ter ficado ciente de que Tyria usaria um aprimorador."
Torwan recostou-se lentamente, a cadeira rangendo sob seu peso. A luz tremeluzente da lareira refletiu em seu rosto enquanto ele começava a fazer conexões — a derrota de Tyria, o timing do enviado, as negociações com a Estermont e a ausência calculada daquele garoto em seu território.
Os cantos da sua boca se puxaram para baixo. "Fui manipulado."
O assistente permaneceu em silêncio.
Torwan se levantou de repente, fazendo o vidro na mesa tombar e derramar o líquido escuro sobre uma pilha de bilhetes de aposta. Sua mão fechou-se em um punho, batendo com força contra a superfície de madeira, o som ecoando no escritório silencioso. "Essa audácia…" sua voz saiu baixa, carregada de veneno. "De entrar na minha cidade, sob meus olhos, e envergonhar-me."
Ele se endireitou, caminhando de um lado para o outro atrás da mesa. "Garanta que a próxima luta dele seja a última. Não me interessa como, entendeu?"
O assistente concordou firmemente. "Sim, entendi."
"Ótimo." O olhar de Torwan voltou ao fogo, as imagens das chamas dançando em seus olhos semicerrados. "Noel Thorne pode ser inteligente o bastante para enganar uma vez… mas garotos espertos também podem sangrar."
Ele puxou uma folha dobrada do monte de programas de torneio na mesa. Seus olhos vasculharam a lista até encontrar o que buscava. "O próximo adversário dele…" Um sorriso lento se formou. "Da nossa academia."
Ele colocou a página na mesa, batendo uma vez com o dedo, antes de olhar para seu assistente. "Entregue a ele a última versão do aprimorador."
O assistente piscou. "Quer dizer a nova fórmula? Ainda não fazemos testes completos. Nem sabemos como ela vai—"
"Eu mandei usar," interrompeu Torwan, de forma seca, sua voz como lâmina. "Usa."
O assistente se endireitou instintivamente, desistindo de protestar. "Sim."
Torwan recostou-se na cadeira, enquanto o som sutil da lareira reforçava suas palavras. "Não me importa se ela o deixa exausto após a luta. Não me importa se o deixando incapacitado para a vida toda. O que importa é que ele ganhe amanhã — e que Noel Thorne não saia daquela arena por vontade própria."
O assistente virou-se de leve, desconfortável. "A potência do aprimorador é… imprevisível. Pode não resistir ao mana dele."
"Então garanta que ele tome o suficiente para durar pelo menos até o último sino," disse Torwan sem hesitar. "Se o anão desabar depois, problema dele."
Por um momento, silêncio pesado se estabeleceu entre eles, quebrado apenas pelo aceno firme do assistente ao se levantar e se dirigir à porta.
Quando foi pegar na maçaneta, a voz de Torwan o deteve. "E deixe tudo em segredo. Se alguém perguntar, diga que ele vem treinando mais duro. Entendeu?"
"Sim, Torwan."
A porta se fechou atrás dele, deixando Torwan sozinho na luz trêmula da lareira. Ele serviu-se de mais uma dose, o copo refletindo o brilho enquanto girava-o distraidamente. Sua mente revia as lutas de Noel na arena — sua velocidade, sua adaptabilidade, o jeito que ele parecia saber exatamente quando avançar e quando recuar.
Um sorriso discreto surgiu nos lábios do ancião. "Vamos ver como você é inteligente quando estiver encarando algo que não pode prever, garoto."
Ele deu um gole lento, saboreando o calor, já visualizando a luta de amanhã exatamente como desejava.
O brilho da lareira dançava às margens da mesa de Torwan enquanto ele colocava o copo de volta, o som suave do cristal tocando a madeira em meio ao silêncio. Ainda pensava na luta, no anão, no aprimorador, já imaginando o momento em que Noel cairia.
A porta abriu sem bater.
A expressão de Torwan se escureceu instantaneamente. "Eu te falei para não voltar até—" Ele parou no meio da frase, reconhecendo a figura que entrou.
Alta, magra e vestida com camadas escuras que caíam desordenadamente, a presença do homem parecia distorcer o ambiente. Seus olhos estavam desfocados, vagando das paredes ao teto, ao fogo, como se estivesse enxergando além do que qualquer outro percebia. Um sorriso tênue e sinistro se formou nos lábios dele.
A voz de Torwan se tornou mais fria, cautelosa. "O que você está fazendo aqui?"
O homem demorou a responder. Foi lentamente caminhando até a mesa, passando os dedos suavemente pelo encosto de uma cadeira, como se sentisse sua textura pela primeira vez.
"Você não tem muito tempo," disse finalmente, numa tonalidade quase casual — como se estivessem falando do clima.
As sobrancelhas de Torwan franziram. "E por quê?"
O sorriso se alargou, sem no entanto tocar seus olhos. "Por causa daquele garoto que te enganou."
Os dedos de Torwan, apoiados na mesa, fecharam-se levemente. "Noel Thorne."
"Não esperava que o grande e inteligente Torwan…" A cabeça do homem se inclinou em um ângulo estranho, seu olhar se aguçando brevemente. "…o cérebro do Círculo… fosse jogado ao sabor de uma brincadeira."
As palavras ficaram no ar, pesadas, apesar do tom quase brincalhão.
Torwan não respondeu imediatamente. Apenas encarou, a musculatura da mandíbula tensando-se. "Cuidado com suas palavras."
O homem soltou uma risada baixa, mais parecendo uma piada privada do que uma resposta direta. "Cuidado?" Ele se aproximou, inclinando-se o suficiente para deixar o brilho da lareira refletir em seu rosto — revelando o olhar atento e inquieto. "Só estou te dizendo a verdade."
Antes que Torwan pudesse falar novamente, o Primeiro Pilar se endireitou e virou-se para a porta. "Tic, tac," murmurou, quase em tom de canção, antes de sair sem outra palavra.