
Capítulo 262
O Extra é um Gênio!?
O ar matinal em Tharvaldur estava fresco, o murmúrio sutil de atividades já ecoando pelos corredores de pedra que levavam à arena. Noel caminhava de forma constante, Noir ao seu lado em sua forma menor, com a cauda balançando preguiçosamente de um lado para o outro.
"Parece que muitas coisas vão acontecer em breve, Noir," disse Noel, com as mãos nos bolsos. "Com as desqualificações e desistências, estamos com quarenta estudantes distribuídos pelas quatro academias. Honestamente, não esperava que nossa academia resistisse tão bem. Acho que estão mais fortes do que no romance… provavelmente porque mais deles sobreviveram e conseguimos evitar o caos desta vez."
Noir inclinou a cabeça para cima, emitindo um uivo curto e suave, enquanto sua cauda se curvava levemente.
"Você acha? Você nem esteve lá naquela parte," disse Noel, lançando um olhar de leve sorriso para ela.
Ela soltou outro pequeno uivo, como se estivesse insistindo.
"Entendi," respondeu ele com uma seriedade brincalhona. "Bem, agora somos só nós cinco — Elena, Sélene, Dior, Roberto e eu. Dos personagens principais do romance, e mais cinco estudantes da Classe S."
Ela balançou a cauda.
Noel soltou uma risada baixa, quase involuntária. "Justo. Tanto faz, desde que a gente vença. Duvido que as lutas virem mais fáceis daqui pra frente. Não sei se alguém vai passar da Anastasia, porém… Ainda é estranho ela nunca ter tido mais destaque no romance. Uma daquelas personagens que aparecem por cinco capítulos e depois… simplesmente desaparecem."
Ele desacelerou um pouco os passos, franzindo o cenho em pensamento. "Espera… você me ouviu dizendo 'romance'?"
As orelhas de Noir se ergueram, atentas.
Ele a observou por um momento, mas decidiu não insistir ainda. Em vez disso, olhou na direção da entrada distante da arena, enquanto o burburinho abafado da multidão começava a passar pelas paredes. "De qualquer jeito, vamos seguir em frente."
Noir troteou um pouco mais perto, tocando levemente o lado do corpo na sua perna enquanto continuavam em direção à disputa do dia.
A mente de Noel continuava a se repetir sobre o que tinha acabado de dizer. Normalmente, falava livremente com Noir, como qualquer pessoa com um animal de estimação, mas a menção ao "romance" tinha escapado sem que ele pensasse.
Ele olhou para ela, a pequena loba ao seu lado, cujo pelo preto e roxo refletia a luz fraca do corredor. "Noir… você ouviu isso, não foi?"
Ela olhou para cima, com uma expressão tão enigmática quanto sempre, e soltou um breve uivo leve.
Um pensamento se formou em sua cabeça, algo que ele não conseguia totalmente afastar. O Sistema sempre fora seletivo sobre o que ele podia dizer em voz alta para os outros, censurando certas verdades. Mas e quanto a Noir?
Ele parou de caminhar. "Certo, vou tentar algo." Sua voz ficou baixa, quase conspiratória. "Eu reencarnei em um romance depois de morrer de uma doença incurável em outro mundo."
As palavras saíram sem interrupção, sem peso na cabeça, sem uma mão invisível bloqueando-as.
Noel expirou lentamente, quase sem acreditar. Por um momento, parecia que um peso que carregava sozinho havia aliviado o suficiente para respirar. "Ué… sem censura."
Ele voltou a caminhar, porém devagar, mais pensativo. Sempre quis contar a verdade para Elyra, Elena e Charlotte, as três pessoas em quem mais confiava, e estava disposto a correr esse risco. Mesmo que rejeitassem, que achassem que ele era perigoso, que o afastassem…
Ele não sabia qual dessas opções machucaria mais.
Noir caminhava silenciosa ao lado, balançando a cauda uma vez, com os olhos nele como se entendesse mais do que deveria.
Noel soltou uma risada baixa, interna. "Acho que você é a única pessoa com quem posso dizer tudo."
Viraram uma esquina, o rugido abafado da multidão na arena crescendo, mas a mente de Noel já se voltava para a próxima pergunta que queria fazer.
Essa talvez fosse a única chance real de confirmar o quanto Noir sabia.
"Noir… posso te fazer uma pergunta?"
Ela parou, sentando-se na pedra de forma ajeitada. Sua cabeça inclinou-se levemente para um lado, um gesto quase curioso.
'Lindinho,' pensou Noel, mas afastou esse sentimento, pois aquele momento parecia demasiado importante.
"Você sabia que eu vim de outro mundo?"
O silêncio durou menos que um batimento de coração, antes que Noir emitisse um uivo curto e decidido. Sem hesitar, sem dúvida.
Noel ficou imóvel por um instante. Não foi exatamente surpresa… mais uma confirmação de algo que sempre suspeitara. "Entendi..." Sua voz ficou mais baixa agora, carregada de algo quase como alívio.
Decidiu avançar mais um pouco. "Você sabe o que é o Sistema?"
Outro uivo, firme como antes.
Um calafrio leve percorreu seu corpo, não de medo, mas de uma consciência estranha de que ela respondia com confiança, como se aquilo não fossem apenas suposições. "Então… você sabe quem está por trás do Sistema?"
Noir uivou novamente, com a mesma calma e certeza em sua voz.
Noel expirou pelo nariz, sem saber exatamente o que sentir. A conexão entre eles sempre foi forte, mas ouvi-la confirmar essas coisas — mesmo sem poder explicar — fazia parecer algo absoluto. Ela sabia, mas nunca agira de forma diferente com ele.
"O único problema," murmurou, agachando-se ligeiramente para alinhar seu olhar com o dela, "é que você não pode falar. Mesmo que quisesse me contar, não conseguiria."
Noir piscou lentamente, depois avançou um passo, pousando a cabeça suavemente contra sua perna antes de retomar o ritmo.
Ele se endireitou, um sorriso quase imperceptível surgindo nos cantos da boca. "Acho que isso quer dizer que tenho que continuar descobrindo as coisas sozinho."
Seguiram em direção às portas internas da arena, o eco da multidão cada vez mais próximo.
Estavam perto da área de preparação dos lutadores, o som da plateia vibrando como um batimento distante nas pedras. Noel focava na luta que se aproximava, com passos firmes, enquanto Noir mantinha seu passo perfeito ao lado dele.
Então, sem aviso, uma leve faísca apareceu no ar à sua frente.
Ela se transformou em um retângulo de azul translúcido — familiar, inconfundível.
O Sistema.
Linhas de texto brilhantes começaram a se escrever em sua superfície com precisão nítida:
[Você descobrirá em breve. Não precisou ir à biblioteca da sua casa faz tempo?]