
Capítulo 268
O Extra é um Gênio!?
Noel estava sentado na sala de Nicolas, enquanto a luz quente das lâmpadas de mana lançava sombras sobre a mesa de madeira. Seu corpo ainda doía, cada músculo carregando o eco da batalha, mas a dor no peito não era física. Noir caminhava de um lado para o outro perto do canto, cauda movendo-se em movimentos curtos e precisos. Ela também não estava calma.
No outro lado da sala, sob um tecido simples, jazia o corpo do anão com quem lutara. Os olhos de Noel permaneciam na silhueta — os ombros largos, a imobilidade. Aproximou-se lentamente, puxando o tecido só o bastante para ver o rosto pálido e sem vida.
'Um inocente,' pensou amargamente. A marca no pescoço do homem gritava propriedade e aprisionamento. 'Provavelmente tinha família na fábrica também... provavelmente estava lutando porque alguém os tinha feito reféns.'
Ele se lembrou da luta com detalhes vívidos — o impacto das lâminas, os golpes carregados de mana, e entre cada ataque, o apelo desesperado e difícil: "Me mate... por favor... me mate." Os olhos do anão naquela época eram vazios, mas naquela vazidão, Noel enxergou a verdade.
Respirou lentamente, baixando o tecido novamente. Quase podia sentir o peso dele se assentando sobre si. "Acho que não posso ficar aqui parado, né?" murmurou, olhando para Noir. Ela inclinou a cabeça, as orelhas se mexendo como se entendesse.
Agachou-se, coçando levemente atrás da orelha dela. "Se eu não posso ficar parado, acho que você também não pode. Parece que temos que agir também."
Noir deu um bufinho curto e baixo, a cauda balançou uma vez.
"Desculpe às meninas," acrescentou com um leve sorriso, embora não chegasse aos olhos. "Provavelmente já desconfiavam que eu não ficaria quieto de qualquer jeito."
Noel se levantou, ajustando o casaco, e deu uma última olhada no corpo coberto. "Torwan não vai ter uma vida fácil," falou baixinho, com tom cortante e decidido.
Noir foi até a porta primeiro, esperando. Noel a seguiu, empurrando a porta e entrando no corredor fraco. Seus passos ecoaram silenciosamente enquanto se dirigiam à saída lateral da arena, onde o distante murmúrio da cidade os aguardava.
A porta se fechou com um estrondo abafado, deixando o escritório — e o anão — em silêncio.
As ruas de Tharvaldur se abriram diante de Noel como se nada tivesse acontecido. O ar estava fresco, carregando o perfume de pó de pedra e carne assada dos estandes de comida. Comerciantes gritavam seus preços em vozes profundas e retumbantes, o tilintar de carruagens e o ritmo dos passos de botas na calçada preenchendo o ar.
Para qualquer outro, era só mais um dia na capital anã.
Noel andava com as mãos nos bolsos, Noir ao seu lado, caminhando suavemente. A oposição cutucava-o — dentro da arena, vidas tinham sido manipuladas, distorcidas em entretenimento. Aqui fora, risadas e comércio prosperavam, intocados pela feiura de baixo.
'Eles não fazem ideia,' pensou, observando os rostos ao redor. Anões carregavam caixas de minério, crianças corriam entre as barracas, e lojistas negociavam de modo que parecia que suas vidas dependiam daquilo. A superfície da cidade era um ser vivo, que respirava... mas debaixo dela, algo podre crescia.
Seu pensamento voltou à luta — os olhos do anão, a marca, os pedidos de socorro. Então, inevitavelmente, sua mente se voltou ao sorriso que Torwan lhe tinha dado. Aquela expressão não era de vitória nem mesmo de diversão. Era calculada, uma mensagem silenciosa: Eu sei quem você é.
A mandíbula de Noel se tensionou. Essa expressão ficou com ele desde o momento em que saiu do chão da arena. Torwan não era só uma figura poderosa aqui — era um predador que se sentia confortável o suficiente para jogar seus jogos ao ar livre.
Eles atravessaram uma ponte de pedra larga, do tipo que conectava seções inteiras da cidade suspensas na grande caverna. Abaixo, rios de lava brilhavam vagamente, seu calor sendo levado para cima em ondas ocasionais. Noir abana o focinho, com as orelhas girando de tempos em tempos, como se algo no ar incomodasse ela.
"Você também está agitado," disse Noel em voz baixa. Noir olhou para ele, as orelhas direcionadas ao som. "Bom. Fique atento."
Dois guardas anões cruzaram o caminho deles, conversando casualmente sobre partidas de torneio. Não deram a Noel a menor atenção. Pelo menos, isso ajudou a manter seu disfarce.
Ele seguiu caminhando, deixando o barulho do mercado ao fundo enquanto seu foco se concentrava em um objetivo. Havia fios aqui — ocultos — e se Torwan pensava que poderia enrolar Noel neles sem resistência, ele estava enganado.
A luz do sol filtrada pelo teto da caverna refletia-se nas ruas de pedra, e o passo de Noel acelerou. Noir seguiu, com as orelhas ainda mexendo, como se tivesse captado o mais fraco sussurro de uma pista.
Noir abaixou a cabeça, farejando deliberadamente, sua velocidade diminuindo até parar completamente.
Noel colocou a mão dentro da manga do casaco, sentindo o brilho metal frio do Omen Coil ao redor do antebraço. A relíquia era discreta — aço escurecido com linhas finas e ondulantes, pulsando levemente com mana. Ele a apertou com um movimento hábil, sentindo o leve zumbido de ativação.
A presença do Omen Coil era como um peso constante contra a pele, aguçando sua percepção, afastando a confusão que ilusões costumavam trazer. Ele conhecia Torwan bem o bastante para esperar truques — ilusões eram uma das suas ferramentas preferidas.
Noir rosnou baixo e avançou, seguindo um cheiro que parecia cortar a mistura de aromas de carvão, pedra e comida. Os olhos de Noel vasculharam cada sombra, cada canto. O Coil não servia só de proteção — permitia sentir quando algo estava errado. As bordas de sua visão pareciam mais limpas agora, menos propensas a distorções.
Eles passaram por uma fila de lojas fechadas até que Noel avistou: vestígios sutis de mana na parede de tijolos — fios finíssimos, quase invisíveis, grudados na superfície. Tocou neles delicadamente, e o Coil pulsou uma vez, confirmando que era resíduo de ilusão.
"Nada mal," murmurou baixinho. "Mas ainda não é suficiente."
Seguiu Noir ao redor de mais uma esquina, entrando numa rua estreita que tinha um leve cheiro de fumaça. A trilha se entrelaçava entre caixas e barris, num percurso quase estranho para uma caminhada normal. Quem quer que fosse, não tentava se esconder — tentava enganar.
Um brilho tênue passou pelo final do beco, como uma ilusão de calor. Os olhos de Noel se estreitaram, mas o Omen Coil cortou aquilo instantaneamente, revelando um contorno sutil de uma figura por um instante antes do brilho desaparecer.
"Torwan..." Sua voz saiu baixa, mais como um pensamento do que uma fala.
Noir acelerou de repente, puxando-o até que o beco se abrisse em uma rua bem mais movimentada. A enxurrada de vozes e movimentos os atingiu como uma parede. Noel fez uma varredura rápida, mas a trilha se dispersou aqui — muitos cheiros, mana demais.
Noir parou de repente no passo, as orelhas apontando para frente. Sua cabeça virou em direção à esquerda, as narinas se dilataram, e ela partiu em direção à multidão sem hesitar.
Algo no jeito dela de agir dizia a Noel que aquilo não era só uma pista — era algo que ela reconhecia.