
Capítulo 234
O Extra é um Gênio!?
Enquanto o corpo do Bone Crusher era arrastado para fora da arena por dois guardas, os murmúrios na multidão começavam a diminuir. Noel permaneceu em pé, com o peito subindo e descendo, o sangue impregnando o lado de seu uniforme verde. A dor nas costelas pulsava a cada respiração, mas ele não demonstrava.
Do stairwell próximo à borda da arena, Torwan desceu — ainda usando a mesma máscara de antes. Seus passos eram calmos, sem pressa.
Ele se aproximou sem teatralidades, parando a poucos metros de Noel.
"Você se saiu melhor do que eu esperava," disse. "Não são muitos que aceitam esse tipo de convite e saem de lá."
Noel não respondeu imediatamente. Ficou em pé, com o olhar firme.
"Você disse que eu tinha que provar meu valor. Eu provei."
Torwan assentiu suavemente.
"Você conseguiu."
Balthor entrou vindo das arquibancadas alguns segundos depois, com passos mais lentos, mais ponderados. Quando percebeu Torwan, seus olhos fixaram-se por um segundo a mais do que o necessário. Uma expressão de lampejo — silenciosa, contida, algo que não foi totalmente dito.
Torwan olhou entre eles, depois dirigiu o olhar de volta a Noel.
"Você mencionou que está aqui a negócios dos Estermont."
Noel assentiu. "Exato. A família busca expandir em certos… territórios negligenciados. Estão tirando o capital de investimentos públicos. Crescimento discreto. Retornos a longo prazo."
Torwan inclinou a cabeça levemente.
"Interessante. Passei dez anos tentando captar a atenção dos Estermont."
"Bem, eles mudaram de postura," disse Noel de forma diplomática. "Seu nome apareceu. Procuram reestabelecer laços — com pessoas que consigam entregar resultados."
Torwan ficou em silêncio por um momento, depois soltou uma respiração suave, divertida.
"Movimento inteligente."
Ele fez um gesto para o corredor que levava para fora do poço.
"Vamos. Você merece uma conversa de verdade."
A sala privada para onde os conduziram era menor do que Noel imaginava — mais prática do que luxuosa. Uma mesa redonda ocupava o centro, rodeada por assentos acolchoados, e uma bandeja com comida fresca já havia sido disposta. Dois curandeiros anões aguardavam perto da parede.
"Sente-se," disse Torwan, dispensando a formalidade. "Vai precisar de descanso."
Noel se colocou com cuidado na cadeira mais próxima. A adrenalina o mantivera de pé, mas agora, com ela se esvaindo, a dor se instalava.
Um dos curandeiros se aproximou silenciosamente e ajoelhou ao lado dele. "Posso ajudar?"
Noel fez um gesto breve com a cabeça.
O curandeiro puxou a beirada do uniforme rasgado e começou a limpar o ferimento. Uma leve sensação de queimação seguiu-se ao aplicar pomada na pele desnuda, mas Noel não recuou. Logo, um brilho suave pulsou na palma do anão enquanto um feitiço de cura de nível baixo era ativado.
Na mesa, Balthor aceitou silenciosamente uma bebida, sentado com uma expressão composta. Desde que deixaram a arena, não tinha falado muito.
Torwan, ainda mascarado, serviu-se de um copo de vinho tinto escuro e recostou-se.
"Você se saiu bem," disse. "A maioria tenta apenas sobreviver à luta. Você transformou aquilo em uma performance."
"Não estava tentando atuar," respondeu Noel, com o olhar fixo. "Estava tentando vencer."
Torwan deu uma risada suave. "A mesma coisa, quando se é inteligente a respeito."
Ele colocou o copo de lado e se inclinou um pouco à frente, sua voz assumindo um tom mais curioso do que de conversa fiada.
"Então, os Estermonts decidiram se interessar pelo torneio agora? Isso me surpreende. Eles mantiveram as mãos limpas dessas coisas por anos."
Noel manteve a expressão neutra, deixando o silêncio se alongar antes de responder. "Perceberam que manter distância não lhes dá poder. No momento, a circuito da academia é mais que prestígio — é influência, controle narrativo. Estão de olho de cada capital, e os Estermonts não pretendem ficar de fora."
Torwan prendeu um suspiro curto de divertimento e assentiu lentamente enquanto girava o vinho no copo. "Então, aproveitaram bem a oportunidade. O interesse neste torneio este ano está maior do que o normal, especialmente porque a Academia Imperial participa, e só vai crescer à medida que avançam as fases."
Ele deu um gole medido, depois acrescentou com um tom mais conspiratório: "Como sinal de boa vontade, e talvez para ajudar seus 'clientes' a se prepararem… vou te passar uma informação útil. Uma prévia do amanhã."
Noel fixou o olhar nele, silencioso mas atento. "Estou ouvindo."
Torwan assentiu, deixando o copo de lado. "Tenho quatro alunos entrando na arena amanhã — escolhidos a dedo, sob meu controle direto. Dois vão perder suas partidas, de forma limpa e convincente, o suficiente para parecer uma variação natural do evento. Os outros dois vão vencer com convicção. Está tudo planejado."
Ele bateu duas vezes com dois dedos na mesa com um gesto deliberado.
"Vencer, perder, vencer, perder. Um ritmo natural. Basta parecer coincidência para quem não presta atenção. Mas quem souber ler os quadros vai perceber a mão por trás."
Noel estreitou os olhos um pouco. "E moldar resultados assim… exige mais que preparação. Exige controle profundo."
A voz de Torwan não mudou, mas a calmaria nela se intensificou. "Controle, sim. Mas também influência, timing e confiança. Aquelas que não estão escritas, que não deixam pegadas, que só acontecem com as pessoas certas. Essa é a verdadeira vantagem — previsibilidade sem risco."
Ele levantou o copo mais uma vez, brindando discretamente ao Noel do outro lado da mesa.
"A sistemas que funcionam silenciosamente… e sempre devolvem o dobro."
Ele respirou fundo antes de falar novamente, com calma, mas de forma contundente.
"E o que acontece se um de seus alunos não seguir o plano? Decidir estragar tudo por orgulho, medo, ou uma proposta melhor?"
Torwan hesitou um pouco antes de responder. Recostou-se na cadeira, apoiando um braço na parte superior, o tilintar discreto de suas alianças batendo na madeira.
"Geralmente, não," disse finalmente. "A maioria sabe o que se espera quando é colocada sob minha proteção. Mas se algum se desviar…" — ele olhou brevemente em direção à arena, agora vazia — "bem, você viu as consequências com seus próprios olhos."
Noel assentiu lentamente, embora seu olhar não tivesse suavizado. "Então, o garoto de antes… Não estava apenas lutando por sobrevivência. Ele estava dando um exemplo."
"Exatamente," respondeu Torwan. "Ele quebrou um acordo. Tornou mais difícil para os outros confiarem no processo. Se eu tivesse deixado passar, isso teria se espalhado pelos dormitórios pela manhã."
ele pegou a garrafa de vinho novamente, mas não bebeu desta vez.
"Agora, vão falar. Sussurrar sobre o que acontece quando você tenta recuar. E o próximo grupo será o dobro de obediente."
Do outro lado da mesa, Balthor finalmente falou, com um tom mais calmo do que o usual.
"Eficiente. Frio… mas eficiente."
Torwan deu um breve encolhimento de ombros. "Não exijo lealdade. Só cooperação. E resultados."
Noel cruzou os braços, recostando-se um pouco na cadeira. "E até onde isso vai? Estamos falando só da próxima rodada? Ou de toda a fase?"
"Os controlados por mim estão distribuídos ao longo do cronograma," disse Torwan. "Alguns vão subir cedo. Outros vão cair onde for mais útil. O objetivo não é vencer todas as lutas — é controlar onde a atenção se concentra, onde as apostas caem, e quais nomes têm peso no final."
Ele fez uma pausa e acrescentou, mais baixo: "A vitória nem sempre parece estar no pódio. Às vezes, só é importante saber quem está ao lado dele… e quanto eles te devem."
Noel estudou-o por mais um momento, então deu um leve aceno de cabeça.
Ele compreendeu as regras agora.
A sala se acalmou, entrando em um ritmo mais silencioso. A comida permanecia quase intocada, o vinho meia garrafa. Mas algo havia mudado — um entendimento não dito pairava no ar, provisório, porém formando-se.
Noel se levantou, mexendo os ombros, agora que a dor tinha se transformado numa dor de fundo. A curandeira tinha feito um bom trabalho — rápida, limpa, eficiente.
Ele ajustou o terno e olhou para Torwan, sua voz firme, porém clara.
"Voltarei. Após as partidas de amanhã," disse. "Se os resultados confirmarem o que você me disse… avançaremos com o negócio dos Estermont."
Torwan, ainda sentado, inclinou a cabeça levemente e deu um sorriso que poderia estar por baixo da máscara.
"Estarei aqui," respondeu. "Este escritório não se mexe. E meus termos também não."
Ele fez uma pausa, depois completou com segurança: "Use o mesmo traje na próxima vez — as mesmas máscaras e ternos. Meu pessoal vai te reconhecer na hora e te levar direto até mim. Sem precisar esperar na fila."
Balthor levantou-se ao lado de Noel, ajustando a gola e mantendo a expressão neutra com cuidado.
Torwan lhes deu uma última reverência. "É bom fazer negócios com pessoas que entendem a estrutura. Facilita as coisas."
Noel não respondeu de imediato. Ficou um momento mais de olhar fixo ao anão, depois deu um pequeno aceno de cabeça.
"Vamos torcer para que continue assim."
Ele virou-se em direção à porta sem dizer mais uma palavra, Balthor próximo, enquanto os guardas abriam a sala para que eles retornassem às correntes sombrias dos corredores subterrâneos.