O Extra é um Gênio!?

Capítulo 235

O Extra é um Gênio!?

Noel caminhou em silêncio, o ar frio do corredor brushing against sua pele enquanto retirava a máscara ornamentada e a guardava dentro do casaco. Balthor fez o mesmo ao lado dele, passando a mão pelo rosto com um suspiro cansado.

O terno verde escuro de Noel, agora levemente riscado pela luta anterior, ajustava-se ao seu corpo.

Uma sombra passou rapidamente pela parede.

Da esquina do corredor pouco iluminado, Noir surgiu com suavidade, sua pelagem de tons violetas captando a luz da mana enquanto trotava até o lado de Noel. Seu olhar alternava entre Balthor e Noel, atento, mas tranquilo.

"Aí está você", murmurou Noel, agachando-se levemente para arranhar a orelha do lobo. "Seguiu os estudantes?"

Noir deu uma respiração baixa, como um ronronar de resposta.

Balthor levantou uma sobrancelha. "Ela costuma se aproximar assim de surpresa?"

"Só quando eu mando", respondeu Noel. Então, acrescentou baixinho: "Sim… Eu senti também."

Chegaram a uma saída lateral, levando a um beco mais silencioso atrás do prédio. A noite em Tharvaldur estava fresca, o vento das montanhas passando contra a pele deles enquanto saíam.

Balthor passou a mão pelo braço, lançando um último olhar por sobre o ombro. "Bem, isso foi… algo."

Noel não respondeu imediatamente. Olhou para o prédio ao longe—para o lugar que tinham deixado para trás. Então, finalmente, falou.

"Não se preocupe. Você o viu de novo. Isso é o que importa."

Balthor olhou para ele de lado. Por um instante, quase sorriu.

Depois, eles começaram a caminhar, a noite se ajeitando ao redor como um manto fino de memória.

Por fim, Balthor quebrou o silêncio, sua voz um pouco mais suave que o habitual.

"…Você estava certo, rapaz."

Noel olhou para ele de relance.

Balthor manteve o olhar à frente. "Não é mais o mesmo irmão que eu conhecia. Nem perto disso. Houve um tempo em que ele cuspiria em um homem por manipular um dado. Agora, fala de transformar estudantes em peões para obter lucro."

Noel ficou em silêncio.

Balthor continuou, mais devagar agora. "Ele costumava ser… Eu não sei. Indomável, mas honesto. Corria atrás da emoção, bebia pelas canções, falava demais. Mas tinha limites que não cruzava. Agora? É um empresário."

"Cinquenta anos é muito tempo", murmurou Noel. "Bastante tempo para mudar."

Balthor deu uma risada seca, quase amarga. "Pois é. Tempo suficiente para transformar um lutador num rei dos negócios. Naquela época, ele tinha fogo. Fazia besteiras, claro—mas tinha orgulho, um senso de justiça mesmo que distorcido. Agora?" Ele balançou a cabeça. "Agora, é frio. Eficiente. Sem hesitação, sem peso nas palavras ou nas ações. Só dinheiro."

Apenas passaram por debaixo de uma ponte, o eco de risadas vindo de um balcão distante acima.

Noel desacelerou um pouco. "Você se arrepende de ter vindo comigo?"

Balthor hesitou, depois exalou pelo nariz. "Não. Precisei ver com meus próprios olhos. Precisei enterrar qualquer esperança que ainda sobrasse."

Ele lançou um olhar de relance para Noel, a voz mais baixa. "Você estava certo, rapaz. Ele não é o irmão que eu conhecia. E talvez eu precisasse ouvir isso de alguém antes de realmente acreditar."

Noel deu um pequeno aceno de cabeça. "Não foi pra te machucar. Só não queria que fosse pego de surpresa."

"Eu sei", resmungou Balthor. "Mas isso não dói menos."

Balthor ajustou a alça do ombro e virou-se para Noel com uma expressão ligeiramente carrancuda. "Então… o que agora, garoto?"

Noel olhou para cima brevemente, depois deixou escapar uma respiração lenta. "Amanhã", disse ele, "se tudo correr como esperado, voltaremos. Vou dar um jeito, dizer o que tiver que dizer. O objetivo é manter o foco na Estermont por tempo suficiente para chegar mais perto."

Balthor levantou uma sobrancelha. "E se as coisas não saírem como planejado?"

Os lábios de Noel quase formaram um sorriso. "Então, nos adaptamos. Já tive mãos piores para jogar."

Por um momento, o anão mais velho o estudou sério, sem demonstrar emoções. Então, deu um ronronar suave e acenou com a cabeça. "Você tem aquela fibra de Thorne. Coisa perigosa quando misturada com inteligência."

Noel encolheu os ombros, lançando um olhar por sobre o ombro. "Vamos ver até onde isso nos leva. Mas, de um modo ou de outro, quero entender até onde essa podridão vai."

Pararam em um cruzamento silencioso, onde seus caminhos se dividiriam—um voltando às áreas de huéspedes, o outro para os túneis mais isolados que Noel vinha usando.

Balthor coçou a barba, depois estendeu a mão. "Foi bom trabalhar contigo, rapaz. Mesmo que a noite ficou marcada pelo sangue."

Noel apertou a mão firmemente. "Idem. E… obrigado por ter vindo comigo esta noite."

Balthor estreitou os olhos. "Você que pediu para me levar naquele maldito lugar, e acabou no meio da arena. Da próxima vez, tenta não se oferecer para uma briga sangrenta, hein?"

Noel deu um leve encolhimento de ombros. "Nunca pensei em ser o protagonista de um evento assim."

Balthor resmungou. "Pois é, talvez da próxima vez, evite chamar atenção demais. Uma luta como aquela e vou precisar de um nervos de aço novo."

Ele fez uma pausa e, com um sorriso metálico, acrescentou: "Ainda bem que foi divertido te ver varrer o chão com aquele ogro."

Noel olhou para o seu terno, sacudindo um pouco de poeira. "Amanhã de manhã, entregarei o terno pra Noriel. Precisa de uns ajustes rápidos."

Balthor estreitou os olhos. "Então, agora sou seu entregador também?"

Noel deu um leve encolher de ombros. "Você é o único que não vai estragar ou perder no caminho."

Balthor bufou. "Vai colocando mais coisa aí, rapaz. Em breve, vou começar a cobrar."

Noel esboçou um sorriso discreto, voltando a caminhar pelo corredor.

Logo atrás dele, Balthor balançou a cabeça e resmungou: "Maldito moleque", embora uma risada silenciosa escapasse de seus lábios de qualquer forma.

A porta se fechou com um clique.

Noel respirou fundo, os ombros finalmente relaxando ao entrar na sala pouco iluminada. Estava silencioso—felizmente. A lanterna de mana na parede emitia uma luz âmbar suave, criando sombras acolhedoras no chão de pedra. Ele tirou o resto do casaco verde escuro e deixou-o cair sobre a cadeira próxima.

Um som de impacto suave ao seu lado indicou que Noir tinha saído das sombras, sua silhueta ágil próxima ao chão. A pantera de tamanho de lobo caminhou até ele, seu pelo com detalhes violeta se agitando levemente a cada passo.

Noel murmurou, passando a mão pelas orelhas da loba. "Você se divertiu se escondendo por aí?"

Noir deu uma risada baixa—quase ingênua.

Noel sorriu. "Aposto que sim."

Caminhou até a cama e sentou na beirada, olhando para a luz piscando na parede. Noir se encolheu perto de seus pés, sem dizer nada, a cauda balançando suavemente.

'Amanhã é o dia…'

O pensamento pairou como um peso sobre seu peito.

Ele recostou-se um pouco, apoiando os braços nos joelhos. "Se tudo acontecer conforme Torwan prometeu… vai confirmar que ele está mesmo puxando as cordas nos bastidores. Duas derrotas. Duas vitórias. Igualzinho o que ele falou."

Sua voz ficou mais baixa.

"E se ele estiver dizendo a verdade… vou finalmente ter uma peça que posso usar."

Noir levantou a cabeça, suas orelhas se mexendo. Observava-o em silêncio.

Noel respirou fundo lentamente. "Só preciso ser paciente. Passo a passo, como sempre."'

Levantar-se, passando os dedos pelo cabelo e olhando na direção da janela. O céu noturno lá fora estava escuro, as estrelas quase invisíveis entre as vigas de pedra esculpidas.

"Vamos lá", disse suavemente. "Amanhã cedo a gente começa."

Caminhou até a cama, cobrindo-se com o cobertor fino. Noir se pôs ao seu lado, deitando-se imóvel, atento mesmo em descanso.

Quando seus olhos começaram a fechar, o último pensamento de Noel ficou como um sussurro:

'Faltam vinte e três dias.'

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