
Capítulo 216
O Extra é um Gênio!?
O sol estava quase no horizonte, espalhando uma luz dourada quente pelo convés do navio. O mar estava calmo, a brisa suave, e o estalido da madeira sob seus pés quase tinha ritmo próprio.
Noel sentou-se de pernas cruzadas no convés, com as mangas arregaçadas, uma pequena pilha de cartas gastas na mão. Do lado oposto, Roberto reclinava numa caixa virada de cabeça para baixo, sorrindo enquanto distribui a próxima rodada.
Entre eles, uma mesa improvisada — na verdade, uma tábua de madeira lisa apoiada sobre dois barris — segurava um agrupamento solto de moedas de cobre, cascas de frutas secas e Noir, encolhida em sua boquinha ao lado de Noel.
"Você já pensou em organizar um torneio?" perguntou Roberto, virando a carta do topo. "O vencedor escolhe quem vai fazer as tarefas pelo restante da viagem."
"Só se perder significar que você faz todas as minhas," respondeu Noel sem tirar os olhos, organizando as cartas com dedos treinados.
Roberto riu. "Por favor. Eu ganharia. Sou ótimo em blefar."
"Você fala demais pra blefar."
"E mesmo assim já ganhei três rodadas."
"Sorte de iniciante."
Ambos sorriram, aquele tipo de sorriso fácil, natural, que vinha do conforto — não da competição. Noel, apesar de si mesmo, estava falando mais do que o habitual. Com Roberto, era tudo mais leve. Afinal, ele era o primeiro amigo de verdade que Noel tinha feito neste mundo.
Enquanto o jogo seguia, Noir mudou de posição.
Depois, rosnou.
Um som baixo, silencioso — não ameaçador, mas claramente direcionado a Roberto. Suas orelhinhas pequenas achatadas, os olhos dourados fixos nele.
Roberto piscou. "Ufa. Calma aí." Levantou as mãos em sinal de rendição de brincadeira, sorrindo. "É as cartas? Juro que não estou trapaceando."
Noel franziu um pouco a testa e colocou uma mão suavemente nas costas de Noir.
"Noir, para. Volte pra sombra."
Com um resmungo relutante, Noir sumiu no chão como fumaça, desaparecendo sem fazer som.
Noel balançou a cabeça. "Parece que ela não gosta de você."
Roberto deu uma risada. "Bom, acho que meu charme não funciona com todo mundo."
O monte de cartas ia diminuindo. As moedas de cobre tinham quase todas se agrupado do lado de Roberto, embora nenhum dos dois parecesse se importar muito com a pontuação.
O sol tinha descido mais um pouco, e o oceano refletia uma paleta suave de vermelhos e azuis. Noel esticou as pernas e se apoiou para trás com as mãos.
"Sabe," disse Roberto, jogando uma carta preguiçosamente na mesa, "ouvi algo de um dos professores mais cedo. Aparentemente, uma das academias do torneio é de Velmora."
Noel levantou o rosto, a expressão um pouco mais séria. "De Velmora?"
"Sim. Isso significa que vão representar os três continentes. O reino dos anões vai sediar, então é Elarith, com a gente, e Velmora trazendo aquele charme sombrio e assustador."
Noel soltou um suspiro silencioso. "Então, esse torneio pode ser mais interessante e complicado do que estão deixando parecer."
Roberto sorriu. "Por favor, já era complicado. Agora ficou ainda mais apimentado."
Noel deu uma risada seca, depois se preparou para a próxima mão. "Se eu tiver que lutar contra algum de vocês... Eu vou, mesmo contra Elyra, Elena ou Charlotte."
Roberto piscou, surpreendido com a honestidade repentina. "Sério?"
"Sério. Não vou fazer jogo duro só porque são minhas namoradas. Elas provavelmente acham uma maneira de se vingar depois."
Roberto fez uma careta e acenou com a mão. "Ok, ok — chega de detalhes. Não preciso dessa imagem na cabeça."
Noel sorriu com malícia. "Zangado?"
"Nem um pouco, seu idiota," respondeu Roberto, sorrindo de canto.
Ambos riram.
O vento começou a ficar um pouco mais forte, agitando as cartas enquanto Noel distribuía a próxima jogada. A luz ia diminuindo, com traços de laranja e roxo se estendendo pelo céu. Uma lanterna próxima se acendeu com um suave zunido mágico.
"Certo," disse Roberto, estalando os dedos. "Última rodada. Quem ganhar, leva… o direito de se gabar pelo resto da viagem."
Noel arqueou uma sobrancelha. "Você vem se gabando desde a primeira mão."
"Exatamente. Agora oficializo."
Ambos deram uma risada e começaram a jogar. A rodada se desenrolou lentamente, com eles trocando olhares e observações silenciosas. Noel estreitou os olhos enquanto Roberto fazia uma aposta audaciosa.
"Tem certeza disso?" perguntou Noel.
"Completamente," respondeu Roberto, sem hesitar.
Noel segurou as cartas por um momento, depois suspirou e as colocou na mesa.
"Uma sequência."
Roberto sorriu e virou as mãos.
"Só um par."
Noel encarou. "Você blefou?"
"Como um profissional," disse Roberto, orgulhoso, recolhendo as moedas para si.
Noel balançou a cabeça, sorrindo de canto. "Talvez quem esteja sendo jogado seja eu."
Roberto recostou-se um pouco, com uma expressão casual. "Não seria a primeira vez que alguém diz isso."
"Certo. Chega de humilhação por hoje."
O jogo terminou com risadas dispersas e algumas moedas restantes entre eles. Roberto recostou-se, pegou um pequeno saquinho de papel do bolso do casaco.
"Quer um?" perguntou, balançando-o levemente. "Balas de fruta seca. Comi na cantina do navio mais cedo. Pra surpresa, não são ruins."
Noel pegou uma e enfiou na boca, mastigando pensativamente. "Hm. Você tinha razão. Melhor do que esperava."
"Viu só? Tenho bom gosto pra lanchinhos, azar de amor e uma cara de pôquer imbatível."
Noel deu uma risada curta. "Só um de três, talvez."
Sentaram-se em silêncio por alguns momentos, ouvindo as ondas baterem contra o casco, as velas rangendo suavemente acima deles.
Eventualmente, Noel se levantou e sacudiu os pantalonas. "Certo. Vou para o meu quarto."
"Não fica remoendo," disse Roberto, sorrindo. "Vai precisar do raciocínio afiado pro torneio."
Noel fez uma saudação de brincadeira e virou-se para sair.
Enquanto caminhava pelo convés, sua sombra se moveu. Noir levantou-se silenciosamente dela, seguindo ao lado dele. Mas, ao chegarem na escadaria que levaria para o andar de baixo—
Ela virou a cabeça para trás, com as orelhas erguidas, os olhos fixos em Roberto e depois se virou, seguindo Noel escada abaixo.
Noel olhou por cima do ombro, depois para ela.
"Não é fã do Roberto, hein?" murmurou. "Vai ser sua primeira errada. Gostava do Marcus, não gostou?"
Noir soltou um uivo silencioso — breve, baixo, quase como um suspiro.
Noel deu uma risadinha contida e colocou a mão atrás das orelhas dela, dando uma coçada leve.
"Acho que todo mundo tem direito a uma decisão errada."
Desceram juntos as escadas em direção ao quarto de Noel.