O Extra é um Gênio!?

Capítulo 212

O Extra é um Gênio!?

Os estábulos subterrâneos do Classe S, geralmente repletos pelo eco de feitiços e do clangor de armas, estavam incomumente silenciosos naquela manhã. Em vez de treinos ou combates, todos os quarenta estudantes haviam sido reunidos na sala de espera — um cômodo enorme, forrado de pedra e iluminado por candelabros de cristal flutuantes. Sussurros preenchiam o ar enquanto os alunos aguardavam o anúncio que os professores prepararam.

Noel encostou-se na parede, com os braços cruzados. Ao lado dele, Roberto se remexia, mexendo na ponta da manga.

— Então — começou Roberto, olhando ao redor — o que você acha que vão nos contar?

— Imagino que vão passar informações sobre o evento — respondeu Noel, falando baixo — e quando devemos partir.

— Evento, hein? — Roberto sorriu de lado. — Talvez eu finalmente conheça minha alma gêmea. Esses grandes eventos costumam juntar estudantes de todos os cantos... o romance pode florescer, sabe?

Noel levantou uma sobrancelha. — Está tão desesperado assim? Sabia que Laziel pode estar prestes a sair do clube de solteiros? Vocês seriam os últimos a permanecer.

— Hmph. Não se preocupe comigo — disse Roberto, brushing dust off his shoulder —. Treinadores não jogam, lembra? Mas talvez este treinador esteja cansado de ficar só assistindo.

— Não comece a puxar saco agora. Você não ajudou ninguém de nós.

— É, é. Continua falando isso — Roberto respondeu com um sorriso.

Antes que Noel pudesse responder, as grandes portas se abriram com um rangido monótono. Toda conversa cessou enquanto Daemar entrou na sala, com seu longo cabelo prateado balançando a cada passo. Seus olhos violetas varreram os estudantes com calma. Ao seu lado, caminhava Rauk, tão silencioso quanto sempre.

Daemar parou no centro e se dirigiu a eles, com uma voz suave, porém autoritária.

— Como vocês devem ter visto ontem à noite no mural do dormitório do Classe S, hoje era dia de um anúncio importante.

Um pergaminho apareceu na mão dele, com um movimento de mana. Ele o desenrolou e começou a ler.

A voz de Daemar ecoou claramente pela câmara ao ler o pergaminho.

— A Academia Imperial de Valor, junto de mais três instituições de prestígio, foi formalmente convidada pelo Instituto Tharvaldur de Poder Arcano a participar da Grande Troca de Eventos deste ano.

Ele fez uma pausa por um momento, deixando as palavras se assentarem.

— Este é um encontro anual promovido pela mais renomada academia do reino dos anões. Pode pensar nele como uma combinação de intercâmbio cultural e torneio — continuou, fechando o pergaminho e guardando-o sob o braço —. Vocês terão a oportunidade de conhecer estudantes de outros reinos, fazer conexões e — mais importante — lutar.

Uma centelha de empolgação percorreu os estudantes. Alguns trocaram olhares; outros se endireitaram um pouco, já imaginando as batalhas que os aguardavam.

Daemar prosseguiu: — O evento principal será um torneio. Haverá eliminatórias. No total, cento e sessenta estudantes — quarenta de cada uma das quatro academias. Vai ser longo, difícil. Vocês enfrentarão vários adversários, e cada luta vai testar seus limites.

Ele levantou uma mão, gesticulando com os dedos.

— Haverá duas classificações. Primeiro, o ranking individual — onde sua colocação pessoal é tudo —. Onde você terminar, será o que vai ficar na lembrança. Segundo, o ranking da academia — uma pontuação coletiva baseada em como cada escola se sai como um todo. Resumindo, tanto sua habilidade pessoal quanto a união da sua turma importam.

Um murmúrio de reações tomou conta do ambiente. Sussurros de “eliminatórias”, “quatro academias” e “torneio aberto” circulavam entre os estudantes.

— E sim — acrescentou Daemar, com firmeza na voz — este torneio será público. Cidadãos do reino dos anões — e até turistas — irão assistir. Não é só um teste. É um palco. Vocês vão lutar na frente de uma audiência ansiosa para testemunhar o surgimento de futuros mitos.

Alguns dos mais confiantes endireitaram as costas. Outros, de repente, pareceram nervosos.

— Vocês terão dois dias para se preparar. Partimos logo depois, de navio — levará dez dias até chegar a Tharvaldur. Aproveitem para arrumar as malas direito. Isto não é só uma viagem. É uma oportunidade.

Daemar recuou um pouco, deixando suas palavras pairarem no ar.

— É tudo por enquanto. Vocês treinaram muito nesses últimos meses, e dá para perceber. Aproveitem esses dois dias para descansar, se recuperar e se preparar.

Ele assentiu uma vez.

— Estão liberados.

A multidão de estudantes começou a dispersar-se, elevando suas vozes em um turbilhão de conversas. Alguns pareciam empolgados, outros, tensos. Noel e Roberto caminharam lado a lado pelo amplo corredor que levava de volta aos alojamentos.

— Então — disse Roberto, colocando as mãos nos bolsos — que coisa você pretende levar?

— O básico, acho — respondeu Noel. — Roupas. Uma escova. Só levando numa de viagem normal.

Roberto deu uma risada. — Faz sentido. Tô até aliviado que vamos ficar fora por um tempo. Se der, quem sabe visito minha família lá.

Noel olhou para ele. — Você tem família no reino dos anões?

— Ah, sim. Pessoas comuns — respondeu Roberto, encolhendo os ombros —. Não sou nobre igual a você, lembra? Eles têm um restaurante numa das cidades menores.

— Entendi. Nunca tinha me contado isso antes.

— Acho que isso nunca apareceu — Roberto sorriu. — Enfim, preciso fazer as malas. Tenho que pensar no que vestir se, afinal, acabar encontrando minha alma gêmea.

— Certo — disse Noel secamente. — Boa sorte com isso.

— Valeu. Você vai ver — alguém tem que levar a chama do romance nesse grupo.

Noel deu um sorriso meio cínico enquanto eles chegavam ao hall do alojamento. Roberto acenou de despedida por trás dos ombros.

— Até mais.

— É, até.

Em vez de voltar ao seu dormitório, Noel virou-se para o lado oposto ao caminho do alojamento e se dirigiu às portas de entrada da academia. Os guardas o reconheceram e não questionaram — dessa vez, ele ia e vinha com frequência suficiente.

O céu acima de Valon tingia-se de dourado e cinza suave, com o sol do fim da tarde banhando os telhados. O ar carregava o aroma de barracas de comida distante, de metal e um leve toque de magia. Noel ajustou seu capuz ao descer a sinuosa estrada de pedra que levava ao distrito inferior.

Ele não tinha muito tempo antes do embarque, e não pretendia sair sem fazer uma última visita.

“Dez dias no navio, e depois direto para o torneio,” pensou. “Não há espaço para distrações agora.”

A placa de madeira do Boteco do Martelo Enganador apareceu à vista — meio torta, balançando ao vento.

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