
Capítulo 205
O Extra é um Gênio!?
Os raios preguiçosos do sol atravessavam as janelas altas, banhando o quarto de Noel em uma névoa dourada de verão. Ele estava sentado ereto na cama, com um pesado livro de teoria equilibrado no colo, tentando focar nos diagramas de formação de feitiços. Sua testa se contorcia.
"Faz uma semana que fiquei doente. Finalmente estou melhor. Amanhã volto ao treinamento com Daemar e Rauk..." Ele suspirou. "Acho que preciso respirar mais fundo. Essa é a segunda vez que desmaio assim por exagerar."
Ele virou a página, mas imediatamente esqueceu o que tinha acabado de ler.
Não porque fosse entediante.
Porque não tinha privacidade.
Desde que Elyra cedeu à pressão das outras duas meninas—sim, elas imploraram por cópias da sua chave—seu quarto virou uma espécie de parque público. Charlotte, Elyra, até Elena mesmo entravam e saíam sempre que quisessem. Se ele estivesse na cama, lendo, comendo, tomando banho ou até mesmo no vaso—não importava.
Charlotte tinha uma vez entrado no meio de uma frase, tagarelando sobre um pássaro que tinha visto, enquanto Noel acabava de sair do banho com uma toalha.
E Elena—doce, gentil Elena—acabou sendo a mais audaciosa de todas. Ela não batia mais na porta. Não perguntava. Simplesmente entrava.
"Elena, que deveria ser a imagem da pureza e inocência, é quem está se saindo pior nisso tudo."
Ele gemeu, passando a mão pelo rosto.
Amanhã, ele voltaria ao treinamento.
Hoje à noite, só queria paz.
Mas, é claro—
Toc toc toc.
Ele nem levantou os olhos. "Você tem a chave. É só entrar."
Toc toc toc.
A insistência continuou.
'...Huh?'
Isso foi estranho.
As meninas nunca batiam mais de uma vez. Na verdade, geralmente nem batiam.
Noel franziu a testa, fechou o livro e se levantou.
"As aulas devem estar no intervalo agora. Ou na hora do almoço ou na hora dos afazeres. Então por que bater?"
Ele caminhou até a porta e a abriu.
Suas sobrancelhas se levantaram surpresas.
Uma menina estava ali, enquadrada pela luz do sol. Cabelos curtos e azuis, olhos como cristais cyan afilados.
Selene.
"...Selene?"
Selene estava calmamente, de braços cruzados atrás das costas, vestindo o uniforme de verão da academia—bermuda preta e uma blusa branca sem mangas, abotoada até o colarinho. Sua expressão era inexpressiva, como sempre.
"Oi," ela disse simplesmente.
Noel piscou. "...Ei. Como você está?"
"Estou bem. Posso entrar?"
Ele hesitou por um momento, olhando de volta para o quarto. Graças às invasões diárias das meninas, ele estava na realidade impecável. Charlotte tinha reorganizado seus livros por cor há dois dias. Elena tinha limpado as prateleiras enquanto cantava uma cantiga élfica. Elyra tinha dobrado suas camisetas, até as que ele não pediu que ela mexesse.
'Não que eu pudesse impedir.'
"Claro. Pode entrar."
Selene entrou, com movimentos precisos. Ela olhou em volta uma única vez, assentiu para si mesma e sentou-se na cadeira ao lado da mesa. Seu olhar repousou sobre o livro que Noel tinha deixado na cama.
"Como você está se sentindo?" ela perguntou.
"Melhor. Amanhã volto ao treinamento."
Ela deu uma cabeça inclinada de leve. "Bom."
Noel encostou-se na parede, com os braços cruzados. "Então... veio verificar se estou bem?"
"Sim." Um instante. Depois, sem perder o ritmo, ela acrescentou: "Além de você, só o Marcus oferece um treinamento decente. Os outros da Classe S não representam muita ameaça."
Noel soltou uma risada. "Então sou seu saco de pancadas favorito?"
Os lábios dela se contorceram levemente. Quase imperceptível—mas estava lá.
"Talvez."
Ele se afastou da parede. "Pois bem, então. Amanhã será. Não economize."
"Jamais faço isso."
Ela se levantou, seus movimentos limpos e sem pressa. Então, após uma breve pausa, acrescentou com seu tom frio habitual: "Melhore logo. Preciso de você no seu melhor."
"Obrigado... acho?"
Selene virou-se para sair. Mas, justo na porta, parou.
Noel levantou uma sobrancelha. "Pois?"
Ela olhou por cima do ombro. "Não deixe que elas te cansarem."
E, assim, ela simplesmente saiu.
Noel ficou olhando para a porta por alguns segundos.
'Será que essa foi uma forma dela dizer para cuidar de mim?'
Ele coçou a nuca e olhou ao redor do quarto.
"... Que visita foi essa mesmo?"
A porta bateu atrás de Selene, e o silêncio voltou a tomar o ambiente. Noel suspirou e se jogou de volta na cama, colocando um braço sobre os olhos.
'O que está acontecendo com a minha vida?'
Deitou-se de lado. Noir, o pequeno lobo sombra, estava enrolada ao pé da cama. Sua pelagem preta cintilava suavemente, com leves reflexos roxos. A pequena criatura se mexeu uma vez no sono, mas não acordou.
Noel estendeu a mão e fez um carinho suave atrás de uma das orelhas de Noir.
"Pelo menos você não fala."
Mas, mesmo falando isso, ouviu o rangido familiar da porta—de novo.
Ele nem se deu ao trabalho de levantar a cabeça. "Você já tem a chave. É só entrar."
A voz de Elyra foi até o quarto. "Hoje tá tão mal-humorado. Isso não combina com você."
Finalmente, Noel se sentou. Elyra entrou, vestindo seu saia da academia com uma blusa leve, bem colocada dentro do vestido. Sua longa trança preta balançava ao lado, enquanto ela se aproximava, com uma cesta de comida na mão.
"Você não devia andar sozinho por aí. Pensei que estivesse descansando," ela repreendeu, colocando a cesta na escrivaninha.
"Estava, até que a Selene bateu."
Elyra levantou uma sobrancelha. "Bateu? Que educação."
"Sim, estranho, né? Mesmo alguém tendo educação?"
Ela sorriu com malícia. "Diferente de algumas pessoas que simplesmente entraram e tomaram o quarto como se fosse delas."
"Não pedi por isso, aliás," Noel murmurou. "E também, o que aconteceu com privacidade?"
Elyra sentou-se ao seu lado na cama e se inclinou, com um olhar que dizia que ela sabia de tudo.
"Charlotte me implorou por uma cópia. Disse que era para emergência. Então Elena falou que não ia ser justo se ela não conseguisse uma também. Elas se uniram contra mim, Noel. Aguentei o máximo que pude."
Ele a olhou inexpressivo. "Você que fez as cópias."
"Nunca disse que não cedi." Ela sorriu de canto.
Noel gemeu e recostou-se na cabeça de descanso. "Deveria mesmo é me mudar pra uma caverna nas montanhas."
"Já tomaram uma. Por dragões."
Noel virou o rosto para o lado, ignorando a provocação. "Eles também não batem na porta, aposto."
Ela estendeu a mão e suavemente afastou uma mecha de cabelo de sua testa.
"Você está quentinho de novo."
"Estou bem. Só um calor residual. Amanhã volto ao treinamento."
Elyra não pareceu convencida, mas nada insistiu. Em vez disso, abriu a cesta e entregou-lhe um sanduíche bem embalada.
"Melhore logo. Se for treinar de novo, vai precisar de força. E eu não quero que desmaie no meio do campo."
Noel agradeceu com um murmuro.
Enquanto eles permaneciam em silêncio confortável, Noir se alongou, bocejou e virou de costas, com as patas pequenas se mexendo no ar.
Elyra sorriu suavemente. "Ela está ficando maior."
"Ela come como um poço sem fundo."
"Vocês dois têm isso em comum."
Ele a encarou, olhando com reprovação. Ela apenas sorriu ainda mais.
Lá do outro lado do mar, sob as torres negras e imponentes de Velmora, o continente demons- tico, três homens estavam sentados dentro de uma câmara de pedra no coração da fortaleza na montanha. Nenhuma luz do sol chegava até ali, apenas um suave brilho violeta das cristais embutidos nas paredes, que vibravam misteriosamente.
Rei Deyrion Neral, governante de Velmora, presidia uma mesa de ébano. Sua pele reluzia como pedra polida, e seus enormes chifres lançavam longas sombras pelo cômodo. Uma tênue aura vermelha pulsava deles, em sintonia com a respiração, e seus olhos de fogo revelavam uma mente antiga, carregada de segredos.
À sua direita, estava o Rei Alveron IV, soberano do Império Valor. De ombros largos e presença imponente mesmo sentado, seus cabelos dourados estavam amarrados com uma fita vermelha, e seus olhos rubis examinavam silenciosamente o espaço. Ele irradiava autoridade—menos rei, mais uma tempestade prestes a se desencadear.
Do lado oposto, recostado com os braços cruzados, estava Nicolas Von Aldros, arcanista da Academia Imperial. Apesar de parecer ter na casa dos quarenta anos, com traços agudos e cabelos prateados cortados rente, todos na sala sabiam que ele era bem mais velho. Nicolas tinha vivido mais de oitenta anos e poucos no mundo dominavam a magia como ele. Vestia robes violetas, bordados com sigilos arcanos, e o ar ao seu redor parecia vibrar com energia sutil.
Já faziam mais de um mês que estavam ali. A investigação sobre uma possível ligação demoníaca nos ataques à Capital Santa e à própria Academia não tinha produzido resultados consistentes.
Nicolas quebrou o silêncio.
"Checamos quase todos os seus canais no mercado negro, seus portos clandestinos, seus arquivos de cultos proibidos—e ainda assim, nada que ligue Velmora aos ataques."
O rei Alveron se inclinou para frente. "Você prometeu nos ajudar a descobrir a verdade. Até agora, tudo o que encontramos foi silêncio."
O rei Deyrion, sempre calmo, falou com sua voz profunda e firme. "E eu ajudei. Dei acesso aos meus agentes de elite. Sombras que nem minha corte conhece. Deixei vocês circularem livremente pelas minhas cidades e tesouros. Se não encontraram nada, talvez seja porque não há nada a encontrar."
Nicolas deu uma risada irônica, batendo um dedo na mesa de ébano. "Ou talvez esteja enterrado fundo demais. De qualquer forma, algo está estranho. Já descartamos a maior parte das suas facções. Mas o rastro termina de forma suspeita."
'Noel falou a mesma coisa... e o Santo confirmou que o responsável pelos ataques à Capital Santa não era um demônio,' pensou Nicolas. 'Então, ao menos, essa parte está certa.'
Ele estalou a língua, chamando atenção de ambos os reis.
O rei Alveron não tentou esconder sua irritação. "Então, o que sobra? Ou eles pararam porque as últimas três tentaram falhar... ou estão escondidos, esperando."
Deyrion assentiu. "Ainda há um fio não puxado."
Nicolas levantou uma sobrancelha. "O navio."
Deyrion virou-se para ele. "Exato. A única rota segura para entrar ou sair de Velmora é pelo oceano. Temos um único navio de comércio—encantado e reforçado—que navega da ponta sudeste do continente Elarith, de um porto controlado pelos Anões."
Alveron franziu o cenho. "Disse que ele é comandado por um anão leal ao seu tribunal?"
"Não diretamente a mim," esclareceu Deyrion. "Mas temos um acordo de longa data. Ele coordena o navio, eu protejo as águas. Assim o mundo gira."
Nicolas cruzou os braços. "Então é por aí que Kaelith deve ter passado. Mais de dez anos atrás. Ele não poderia cruzar as montanhas, e teletransportar-se tão longe é suicídio sem um ponto de ancoragem ou sem a habilidade."
Deyrion deu um lento aceno de cabeça. "Se veio, foi por esse navio. Mas precisaremos contatar o Rei Anão para acessar os registros de carga. Só ele tem autoridade."
O rei Alveron se levantou. "Então faça isso."
Deyrion não vacilou. "Será feito."
Nicolas olhou entre os dois monarcas. "Essa é nossa última pista. Se fracassar... então nosso inimigo já se dispersou por aí, ou estamos entrando de cabeça numa situação maior do que imaginamos."
Na sala, um silêncio pesado tomou conta, interrompido apenas pelo sussurro suave da magia nas paredes.