
Capítulo 206
O Extra é um Gênio!?
As portas grossas de carvalho rangejaram ao fecharem atrás dele enquanto Albrecht Thorne adentrava seu gabinete privado. Seus botas deixaram marcas suaves de poeira e suor no piso de mármore, e sua camisa grudava ao peito. Seus ombros largos subiam e desciam a cada respiração, mas sua expressão permanecia indecifrável.
Logo atrás dele, um toque suave, mas firme, de sapatos polidos anunciava a chegada de seu fiel mordomo.
Frederick movia-se como um espectro de disciplina: magro, levemente curvado pela idade, vestido com traje impecável. Sua pele pálida era marcada por profundas linhas, e seus cabelos brancos, penteados cuidadosamente para trás. Mesmo aos quase noventa anos, seus olhos mantinham a nitidez de uma águia.
"Eu te avisei no casamento da lady Livia," disse Frederick, com voz seca como papiro. "Mais cedo ou mais tarde, isso vai acabar te matando. Você sabe que tem soldados capazes de ajudar com isso, não é?"
Albrecht pigarreou, serviu-se de um copo de água gelada da decantadora de cristal ao lado da mesa, mas não se sentou.
"Algum deles é tão forte quanto eu?" perguntou, sem esperar resposta. "Sabe muito bem que não são. Alguns estão perto... mas nenhum cruzou o limiar do Ascendente."
Ele acabou a água de um gole só, limpou a boca com o dorso da mão e virou-se em direção à janela.
"Agora, eles seriam apenas uma frente de obstáculos. Não vou jogar vidas fora sem motivo. Ainda tenho condições. Sozinho, por enquanto."
Frederick cruzou as mãos atrás das costas e soltou um suspiro silencioso.
"Se é o que diz. Mas você sabe que o fardo vai cair inevitavelmente sobre um de seus filhos. Isso implica escolher um herdeiro adequado. E suponho que a lady Livia não está mais na disputa, certo?"
Albrecht não respondeu. Apenas fixou o olhar na linha do horizonte escurecendo além do vidro. As terras de Thorne se estendiam distantes — florestas, rios, ventos gelados — tudo sob sua proteção.
'E, eventualmente... de alguém mais.'
Albrecht não se virou da janela. O peso de seu silêncio era mais pesado do que as pedras que construíram a propriedade.
"Sei," disse finalmente. "Livia está fora de questão."
Frederick fez um pequeno gesto de cabeça, surpreso, mas não demonstrando.
"E Damon? Kael?" insistiu, com tom neutro, mas perspicaz. "Depois do que fizeram no Festival da Caçada..."
"Eles envergonharam a família," interrompeu Albrecht. Sua voz foi baixa, fria. "Mas a academia parece ter dado uma injeção de bom senso neles. Ainda assim... depois que a mãe do Noel morreu, eu não estava no meu juízo perfeito. Fui condescendente demais. Achei que poderia ensinar honra a eles. Estava enganado."
Ele cerrava a mandíbula. As mãos permaneciam ao lado do corpo, mas os músculos dos antebraços se tensionaram.
"Deveria ter criado eles de outro jeito," murmurou.
Frederick levantou uma sobrancelha, com os lábios se contorcendo em algo entre um sorriso e uma carranca.
"Ora, melhor tarde do que nunca, como diz o ditado. Mas, se me permite — às vezes você agiu como um garoto também. Deveria ouvir mais seus anciãos."
Finalmente, Albrecht se virou para ele, levantando uma sobrancelha.
"Então, diga logo," pediu. "O que você recomendaria?"
Frederick não hesitou. "Quer falar sobre o herdeiro?"
"Sim."
O velho mordomo deu um passo à frente, como se a gravidade da questão exigesse isso.
"Você tem a Sylvette. Ela faz dezenove anos este ano. É brilhante com magia — mais que os dois irmãos mais velhos juntos. É calma, tacteante, e bastante respeitada na casa."
Pausa.
"Mas..."
Os olhos de Albrecht se estreitaram. "Mas há o Noel."
Frederick assentiu lentamente. "Exatamente."
O ambiente no gabinete ficou mais pesado.
Voz de Frederick permaneceu equilibrada, mas seus olhos carregavam um brilho mais aguçado — talvez de compreensão, ou de advertência.
"Você sabe muito bem que, embora o público não saiba a verdade, famílias como a nossa ouvem. As ações daquele garoto… elas circulam rápido, mesmo que estejam enterradas sob mentiras oficiais."
Albrecht caminhou até sua mesa, apoiando as mãos na superfície polida. Não olhava para Frederick.
"Ele mudou," disse. "Noel mudou demais, rápido demais. É impossível não perceber. Depois de tudo — o jeito como o tratamos… como eu o tratei — ele saiu dessa mais forte."
Seus dedos se alongaram contra a madeira.
"Achei que ele ia quebrar."
Frederick soltou um suspiro silencioso.
"Talvez tenha mesmo," afirmou. "E se tornou algo mais afiado. Mais forte. Ou, quem sabe… ele simplesmente se cansou."
Albrecht olhou para ele ao ouvir aquilo.
"Cansado?"
"De todos vocês," respondeu Frederick de forma simples. "Deste lugar. De nós. Existe uma grande possibilidade de que ele não aceite a herança, não importa o que você ofereça."
Albrecht ficou em silêncio.
"Se for assim," continuou Frederick, "então Sylvette é a escolha lógica. Ela está pronta. Disposta. E, mais importante — ainda quer isso."
Um momento passou.
Albrecht acenou lentamente, com o olhar vago.
"Você pode estar certo."
Frederick, como se tivesse esperado o momento exato, colocou a mão no bolso interno do paletó e retirou uma carta selada com cera azul escura.
"Então talvez isso facilite as coisas," disse, estendendo o envelope. "Convite oficial para o Festival da Caçada deste ano. Chegou hoje de manhã. Família anfitriã: Casa de Nivária."
Albrecht pegou a carta sem abrir. Estudou o selo em silêncio.
"São próximas," murmurou. "Seus territórios fazem fronteira com os nossos a leste. Somos as duas casas que controlam a fronteira sul."
"Exatamente," confirmou Frederick. "Você conhece as regras: cada casa pode enviar três jovens. Suponho que já tenha feito suas escolhas?"
Albrecht confirmou com um movimento de cabeça.
"Damon. Sylvette. E Noel."
Frederick por um momento não reagiu, mas uma leve surpresa cruzou sua expressão.
"Deixando de lado o Kael," observou. "Alguma razão específica?"
Albrecht não hesitou.
"Quero ver quem tem mais chances de herdar o que eu deixar."
Frederick inclinou a cabeça, seu tom ainda calmo, mas com um toque de curiosidade.
"Então você está descartando seu primogênito como herdeiro de Casa Thorne. Imagino que a Lady Mirelle não ficará nada satisfeita com essa decisão."
A expressão de Albrecht permaneceu inalterada.
"Não estou aqui para agradá-la," disse de forma direta. "Estou pensando em quem consegue suportar o peso do nosso nome. O nome importa mais do que a ordem de nascimento."
Frederick deu um breve e satisfeito aceno de cabeça.
"Então, posso dizer que finalmente está agindo como um verdadeiro senhor."
Albrecht virou-se em direção à lareira, com os olhos fixos no cão de prata acima da chaminé — com a boca aberta, pronto para morder.
"Vamos ver como eles se saem no festival," sussurrou.
Frederick não disse nada. Simplesmente virou-se e caminhou até a porta.