O Extra é um Gênio!?

Capítulo 195

O Extra é um Gênio!?

Charlotte caminhava à frente, guiando Noel com uma sensação silenciosa de propósito. Ela não falou muito no começo — apenas olhava para trás ocasionalmente para garantir que ele ainda estivesse seguindo. O sol já descia, tingindo o céu de um laranja pálido. Eles atravessaram do centro de Valon para seus distritos mais externos, onde as ruas de pedra ficavam mais finas, as casas mais próximas umas das outras, e o paradeiro de brasões nobres desaparecia.

Noel observava a mudança de cenário com uma surpresa suave. "Não pensei que iríamos até aqui."

Charlotte sorriu de leve. "Ontem, quando fui... interrompida por aqueles homens, encontrei algo interessante. Achei que esse seria um bom lugar para terminar nosso pequeno encontro."

Ela o conduziu por um beco estreito, depois virou uma esquina. À sua frente, erguia-se uma torre alta, cilíndrica, feita de pedra cinza lisa. Ela subia silenciosamente acima dos prédios ao redor, um pouco escondida pela silhueta da igreja próxima. Uma plaquinha discreta ao lado da entrada dizia: Observatório Santa Luz.

"Uma torre?" Noel piscou.

"Um mirante," ela explicou. "Ela não tem escadas. Funciona com mana. Você vai ver."

Charlotte comprou dois ingressos de um velho sonolento sentado em uma cabine e entregou um a Noel sem dizer palavra. Eles subiram numa plataforma circular de latão polido. Assim que a porteira atrás deles se fechou, a plataforma começou a subir com um suave tilintar de mana.

Noel levantou uma sobrancelha. "Não sabia que algo assim existia em Valon."

Charlotte lançou um olhar presunçoso para ele. "Surpreso?"

"Sim, na verdade. Estou em Valon há mais tempo que você, e não fazia ideia de que isso tinha aqui."

"Talvez você não tenha tempo de explorar direito," ela provocou. "Não levou Elena e Elyra para dar umas voltas pela cidade?"

"Levei," respondeu Noel de forma tranquila. "É bem comum casais irem a alguns passeios, né?"

Charlotte piscou para ele. "Acho que sim. Mas nunca tive um."

"Não?" Ele olhou pra ela de lado. "Você é a Santa. Imaginei que tivesse muitos admiradores."

"Tinha. Mas meu avô, Orthran, era rígido com os garotos. Disseram que nenhum deles era bom o suficiente." Ela riu suavemente. "E na Capital Sagrada, não tinha muitos garotos da minha idade. Os poucos... bem, não se interessavam."

"Huh. Faz sentido."

"Mas agora," ela acrescentou, um pouco demais animada, "tenho mais chances de encontrar um namorado."

Noel olhou para ela de lado. "Tem certeza? Vi muitos rapazes tentando se aproximar de você na academia. Até ontem na rua. Você é bem popular."

Ela fez bico. "Pois é. Aprendi que não devo mais comprar pão em becos escuros, pervertido."

"Ei, de novo isso?" Noel riu, observando os telhados dourados diminuírem ao descerem. "Você nunca vai deixar isso passar, hein?"

A vista começou a se abrir, revelando todo o bairro oeste de Valon. Ao longe, o sino da igreja soava solenemente.

Charlotte sorriu, com os braços atrás das costas, inclinando-se um pouco mais perto. "Você sabe como ganhou esse apelido, né?"

Noel deu um olhar cauteloso para ela. "Traidor, até entendo. Mas pervertido? Essa ainda está por definir."

"Vamos lá." Ela cutucou o braço dele com o cotovelo. "Na primeira vez que te vi, você saiu do dormitório dos meninos todo molhado, de camiseta, água escorrendo pelo cabelo, e o que você fez?"

"Calmamente, pedi que não gritasse," disse ele sério. "Porque alguém ia gritar e acordar a sacerdócio toda."

"Você colocou a mão na minha boca," ela falou, com os olhos arregalados em provocação. "Enquanto você estava sem camisa. Molhado. E me empurrou contra a parede."

"Não foi bem assim," ele resmungou. "Você faz parecer um escândalo."

"Fiquei traumatizada," ela disse com um sorriso, segurando o peito dramaticamente.

Noel deu os olhos. "Você não ficou traumatizada. Não parava de me chamar de isso após cinco minutos."

"Exatamente. Agora virou uma expressão de carinho."

"De um jeito ou de outro, piora a situação."

Ambos riram. Seguiu-se um silêncio confortável, preenchido apenas pelo zumbido da plataforma e pelos sons distantes de música vindo das ruas abaixo.

Charlotte inclinou a cabeça, olhando de lado. "Você sabe... para alguém que age tão rabugento, você é bem fácil de provocar."

"E você está ficando boa nisso," murmurou Noel, mas um sorriso insinuou-se nos cantos dos seus lábios.

Com um clique suave, a plataforma chegou ao topo.

"Chegamos," disse Charlotte suavemente, descendo primeiro enquanto a majestade de Valon se revelava diante deles — telhados dourados ao entardecer, postes de luz acendendo-se, e ao sul, o som distante da música ecoando na brisa da noite.

O vento era mais leve no alto, tocando suavemente como se o céu próprio os recebesse. A plataforma circular era ampla e aberta, com alguns bancos e guarda-corpos reforçados. De lá, toda a capital de Valon se estendia em todas as direções — telhados reluzindo em dourado e vermelho, torres distantes como agulhas contra o céu escurecido, e o rio sinuoso cortando a cidade como uma fita de luz.

Charlotte caminhava lentamente à frente, absorvendo tudo ao seu redor.

"É lindo," ela sussurrou, indo em direção à borda.

Noel a seguiu, olhando ao redor. "Sim... eu não sabia que esse lugar existia. Um lugar tão escondido para uma torre tão alta."

"A igreja bloqueia a vista da rua principal," ela explicou. "Por isso, só percebi ontem."

Ela se apoiou na grade, olhando o horizonte. Por um momento, parecia em paz — sua energia habitual suavizada, substituída por uma admiração silenciosa. Então, sem aviso, ela se inclinou um pouco demais.

"Charlotte—!"

Antes que ela perdesse o equilíbrio, Noel estava lá — braços ao redor da cintura dela, puxando-a para trás com um puxão firme. Ambos tropeçaram, caindo no chão, os joelhos batendo suavemente contra a pedra.

Charlotte piscou, surpresa.

Noel ainda tinha um braço protetivamente ao redor dela. "Você tá maluca? O que diabos tava tentando fazer?"

"Eu... não sei," ela sussurrou. "Só queria ver a igreja de um ângulo melhor."

"Quase caiu do torre," ele repreendeu, com a voz mais dura do que queria. Mas, depois, mais suave, "Me assustou."

Ficou um silêncio entre eles — o ar de repente parou ao redor.

Charlotte virou o rosto na direção dele. "Obrigada, Noel."

Ela se inclinou e beijou a bochecha dele.

Noel congelou.

Antes que pudesse responder, Charlotte se afastou um pouco, olhando nos olhos dele. Sua expressão agora era séria — sem brincadeiras, sem jogos.

"Quero te dizer uma coisa," ela falou.

Eram ainda ajoelhados no chão, a luz do sol poente os banhando em um tom âmbar.

"Aquele dia em que me encontrou na rua escura... quando foi você quem disse isso," Charlotte murmurou. "Você olhou pra mim e simplesmente falou 'a Santa' — antes que alguém dissesse algo, antes mesmo que eu dissesse. Eu não entendi como você soube, e talvez eu ainda não saiba. Mas naquela época, quando me aproximei... percebi uma coisa."

Ela hesitou por um segundo, a voz suave.

"Você tem um cheiro. Não só aquele que diz que você é bom ou gentil... é algo mais. Algo que eu não consigo descrever, por mais que tente. Ainda não sei exatamente o que é, mas... acho que pode ser amor."

Os olhos de Noel se arregalaram, e ele ficou sem fôlego.

"Não tenho muita experiência," ela continuou, com a voz calma, mas firme. "Mas tenho onze meses. Onze meses para fazer você se apaixonar por mim. Só queria que você soubesse. E não se preocupe — os outros dois já sabem como me sinto."

Noel abriu a boca, depois fechou novamente. Seu cérebro tentava encontrar palavras, qualquer coisa que não agravasse a situação.

"Eu... entendi. Não percebia," finalmente disse. "Posso... te dar mais um pouco de tempo?"

Charlotte sorriu. "Claro. Te disse — tenho onze meses."

Noel desviou o olhar, as bochechas em fogo. "É só... surpreendente. Não esperava algo assim hoje. Eu tinha um plano todo... ia te levar a alguns lugares, mas agora pode parecer... estranho."

"Americano?" ela imitou, inclinando a cabeça. "Ah, não. Você está envergonhado, Noel?"

Ele gemeu.

Charlotte riu e se levantou, oferecendo a mão a ele. "Não se preocupe. Estou numa boa. Vamos onde você quiser."

Noel segurou a mão dela, levantando-se, ainda meio atordoado. Olhou para ela e, depois, desviou o olhar, nervoso.

"Você pode estar bem," ele murmurou, "mas eu, definitivamente, não."

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