O Extra é um Gênio!?

Capítulo 196

O Extra é um Gênio!?

Noel permaneceu sentado no chão de pedra do mirante, ainda tentando processar o que acabara de ouvir. A brisa da noite refrescava seu rosto, mas não aliviava completamente seus batimentos acelerados. Charlotte já tinha se levantado, olhando para ele com um sorriso gentil — meio divertido, meio carinhoso.

"Então… vamos onde você queria ir?" ela perguntou, inclinando um pouco a cabeça.

Noel desviou o olhar, aclarando a garganta. "Sim. Vamos."

Charlotte se virou e caminhou em direção à plataforma, enquanto ele se levantava de forma um pouco desajeitada, passando a mão nas roupas. Começaram a descida em silêncio. A plataforma deslizava suavemente, mas, para Noel, parecia que o mundo inteiro estava se movendo mais rápido do que o normal.

Charlotte não parava de observá-lo. Seus olhos avelã brilhavam sob o suave brilho das luzes de Valon, como se tentasse decifrar seus pensamentos.

Noel, por outro lado, evitava qualquer contato visual com ela. Concentrava-se em qualquer outra coisa — nos telhados, nos corrimãos do elevador, até em um pássaro noturno solitário pairando acima. Sua mente acelerava.

'É isso que deve parecer?' pensou. 'Esperava alguma coisa, eventualmente… Clara falou algumas coisas… mas isso… isso foi direto.'

Lembrou-se de como Clara tinha tentado convidar Charlotte para um passeio pela cidade várias vezes, sempre sendo rejeitada. Então, veio o momento em que Noel, de forma casual, mencionou que levaria Charlotte mesmo — e ela não recusou. Clara olhou para ele com um olhar estranho depois daquilo, como se começasse a desconfiar de algo.

'Ela já viu isso chegando? Eu realmente fui o último a perceber?’

A vergonha subiu do seu estômago como uma bebida gaseificada quente. Indesejada. Ele já tinha duas namoradas — Elena e Elyra — mas essa situação parecia totalmente diferente. Na Terra, ele nunca fora o cara que attirava a atenção das garotas. E agora…

'Isso é comum aqui? Ter três? Quatro? E como alguém consegue sobreviver a isso sem desabar?'

Ele suspirou e fixou o olhar no chão.

Charlotte soltou uma risada suave pelo nariz, claramente percebendo a tempestade que fervilhava dentro dele. Noel nem se atreveu a perguntar o que ela achava tão engraçado.

A plataforma chegou ao chão com um suave zumbido mágico. As portas deslizaram, revelando as ruas de Valon mais uma vez. Estavam mais silenciosas agora, a noite completamente instalada.

Charlotte deu alguns passos à frente, depois se virou de volta para ele, seu cabelo vermelho levemente agitado pelo vento.

"Então, onde exatamente você quer ir agora, Noel?"

Ele respirou fundo. O ar fresco da noite ajudou a estabilizá-lo um pouco.

"Para a biblioteca," ele disse finalmente. "Embora acho que ela feche em uns trinta minutos."

Charlotte piscou, depois sorriu. "Uau. De repente, tão sério."

"Acho que dá pra chegar se a gente correr," ele acrescentou, passando a mão na nuca.

Ela inclinou a cabeça, recuando alguns passos enquanto continuava a olhá-lo. "Você realmente é cheio de surpresas. Primeiro me chama de 'Santa' antes mesmo de todo mundo saber, aí fica todo inocente como se nada tivesse acontecido."

"Foi… um acidente," Noel murmurou.

"Um acidente?" Charlotte levantou uma sobrancelha. "Você olhou bem pra mim e falou como se estivesse lendo uma profecia. Você me assustou a ponto de arrastar você pra um beco e te interrogar."

"Ainda não acredito que consegui fazer isso."

"Você não conseguiu. Eu só deixei passar porque parecia tão confuso que dificilmente poderia ser perigoso."

"Eu não estava confuso, estava improvisando."

Charlotte lhe lançou um olhar. "Enquanto tava todo encharcado, sem camisa e murmurando sozinho no corredor da igreja?"

"Aquele foi outro dia—"

"Ainda conta." Ela sorriu maliciosamente. "Esse foi o momento em que você ganhou seu título."

"'Pervertido' é pesado demais," Noel reclamou, contendo uma risada.

"Quer que eu volte a te chamar de 'Traidor'?"

Noel cruzou os braços. "Eu não gosto de nenhum dos dois, pra ser honesto."

Charlotte deu um sorriso brincalhão, com ombros levantados. "Bom, pra mim, você ainda é um pervertido traidor."

Noel suspirou, derrotado. "Entrei de cabeça nessa, né?"

Charlotte riu. "Cada vez que você faz isso."

Eles seguiram pelas ruas silenciosas de Valon. A noite tinha se firmando completamente, e as lojas começavam a fechar. Uma luz de lampião quente se espalhava pelas calçadas de paralelepípedos, enquanto o ocasionais faróis mágicos brilhavam acima, piscando suavemente.

Charlotte caminhava ao lado dele, com as mãos atrás das costas, balançando levemente a cada passo. "Então, por que o interesse repentino na biblioteca? Não acho que seja tão tarde assim pra ficar pesquisando."

Noel deu um encolhimento de ombros. "Tem estado na minha cabeça. Queria entender as origens da fé aqui — como ela começou. E… achei que você saberia mais sobre isso."

Charlotte piscou, surpresa. "Foi por isso que me convidou?"

"Ah, sim," Noel respondeu, passando a mão na nuca. "Você é a Santa, afinal. Faz sentido perguntar à especialista. Pensei que seria útil."

Um sorriso radiante se abriu no rosto de Charlotte. "Isso… na verdade, é bem fofo. Você é curioso sobre religião?"

"Tenho curiosidade sobre tudo," Noel admitiu. "Especialmente sobre coisas que importam para o mundo em que vivo."

Sem dizer uma palavra, Charlotte estendeu a mão e segurou a dele. Seus olhos avelã brilhavam de empolgação. "Então, vamos aproveitar que temos tempo. Ainda há muito conhecimento pra descobrir!"

'Ela está muito empolgada com isso,' Noel pensou, tentando acompanhá-la enquanto ela o guiava pelas ruas sinuosas.

Chegaram à biblioteca justo quando o sino acima da entrada tocou suavemente. O prédio se erguia imponente, com uma arquitetura gótica magnífica. Estátuas de pedra decoravam os arcos — figuras que Noel não reconhecia, mas que certamente eram importantes na história de Vaelterra.

Lá dentro, um bibliotecário na recepção levantou a cabeça com um sorriso gentil. "Sejam bem-vindos. Como amanhã é dia de descanso, ficaremos abertos por mais uma hora do que o habitual esta noite."

Charlotte bateu as mãos juntas. "Que sorte! Vamos, Noel!"

Ela praticamente arrastou-o para dentro. O interior era vasto — tetos altos, estantes intermináveis e livros flutuando de um lado para o outro. Lâmpadas de gadroba lançavam luz dourada sobre tudo. Cipós se enrolavam em certas seções das paredes, misturando o mágico com o natural.

'Este mundo… ainda me surpreende. Mesmo depois de tanto tempo,' pensou Noel enquanto eles se aprofundavam na biblioteca.

Charlotte se virou, andando para trás agora. "Então, por onde você quer começar?"

"Gostaria de entender como a fé começou. O que deu origem a tudo isso."

Charlotte assentiu com determinação. "Então, vem comigo. Vamos pra seção de história religiosa!"

Noel a seguiu pelos corredores altos, que mais pareciam labirintos. Não demorou muito para perder de vista ela — ela era menor que ele quase um cabeça, e as estantes eram altas demais para ambos.

Ele virou uma esquina e a viu já sentada numa mesa de canto, com três livros grossos empilhados ao lado:

– "Elarin, o Primeiro: Aquele que Tocou a Mana"

– "Crônicas do Primeiro Santuário"

– "Da Lança à Fé: A Ascensão da Doutrina Sagrada de Vaelterra"

Charlotte sorriu animada para ele. "Espero que esteja pronto. Porque vai ser incrível."

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