O Extra é um Gênio!?

Capítulo 197

O Extra é um Gênio!?

O suave farfalhar das páginas e o tic-tac distante de um relógio mágico eram os únicos sons que preenchiam o andar superior da biblioteca.

Noel se sentou ao lado de Charlotte na longa e polida mesa de madeira perto da janela de vitral. Ela já tinha organizado três grandes tomos à sua frente, todos antigos mas bem conservados, com capas em relevo com inscrições douradas e sigilos sagrados.

Charlotte sorriu para ele, claramente animada. "Pronto para começar?"

"Claro," respondeu Noel, olhando para os livros. "Mas qual você acha que é melhor? Gostaria de ter uma visão geral."

Charlotte pegou o primeiro tomo e tocou a capa com cuidado. "Este aqui é Elarin, o Primeiro: Aquele que Tocou a Mana. É sobre o deus que veneramos — Elarin foi o primeiro ser a usar mana. Seu elemento principal era a luz, e dizem que ele purificou o mundo das criaturas malevolentes quando surgiram os primeiros—há cerca de quinhentos anos."

Noel assentiu. "Entendi. E qual o próximo?"

"Esse parece promissor. O Diário do Filho Esquecido mencionou que havia duas pessoas que tocaram mana pela primeira vez, mas este livro só fala de Elarin..."

Charlotte deixou de lado o primeiro tomo e pegou o segundo. "Este aqui se chama Crônicas do Primeiro Santuário. Conta a história de como a primeira igreja foi fundada em homenagem a Elarin. Por causa dessa devoção, Elarin nos concedeu bênçãos — e a fé nasceu."

"Hmm. Isso também parece interessante," disse Noel educadamente.

Charlotte se iluminou. "Não é? Acho a história de origem da igreja muito bela. Vou contar tudo — cada detalhe pequenininho."

Noel riu. "Pera aí. Qual é o último?"

Ela apresentou o último livro com ambas as mãos, como se fosse algo precioso. "De Fogo à Fé: A Ascensão da Doutrina Sagrada de Vaelterra. É parecido com o segundo, mas não foca na primeira igreja. Fala de como a fé se espalhou por todos os continentes. Apresenta figuras históricas importantes... e é o primeiro registro a mencionar o papel do Santo."

"Ah, entendi. Isso também pode ser útil para aprender mais sobre o seu lugar nisso tudo."

Charlotte corou um pouco, claramente levando como um elogio. "Bem... então, qual você quer começar?"

Noel pausou por alguns segundos, ponderando as opções.

'Honestamente, estou mais interessado no primeiro. É o único que importa agora. Mas dizer isso explícito pode parecer rude... Conhecendo Charlotte, ela provavelmente quer me explicar a criação da igreja e a origem do seu próprio papel como Santo. Bem... acho que temos tempo antes que a biblioteca feche."

Eventualmente, ele disse: "Comece com aquele que você preferir. Temos tempo, então escolha o que sentir vontade de compartilhar."

Seus olhos brilharam. "Então vamos começar por Crônicas do Primeiro Santuário!"

Ela abriu o livro com uma reverência, como se estivesse abrindo um portal para um mundo antigo.

"Depois que Elarin purificou as terras de Vaelterra da praga das trevas," ela recitou, "ele começou a atravessar o continente de Valor. Em cada cidade e vila, destruía as abominações monstruosas que surgiram quando a primeira fenda se abriu. Inicialmente, o povo tinha medo dele, mas ele nunca pediu louvor ou adoração — ele apenas oferecia ajuda."

Noel se recostou para frente, apoiando o queixo na mão enquanto ouvia. O vitral atrás de Charlotte refletia seu cabelo com brilhos de vermelho e dourado.

"Ele usou mana para curar os feridos, purificar a água, fazer as plantações crescerem onde o solo tinha ficado árido. As pessoas começaram a segui-lo, não por medo, mas pelo brilho que ele trazia. Assim, o primeiro Santuário foi construído em Eldareth, a cidade que viria a se tornar a capital do Domínio Sagrado."

Ela virou a página delicadamente.

"Dizem que o Santuário não foi criado para ser um templo. Era um lugar de descanso, um abrigo para aqueles que tinham perdido tudo. Elarin ficou lá por quase um ano, e nesse tempo, uma pequena comunidade se formou ao redor dele — pessoas que acreditavam que mana era um presente, não uma arma."

Noel cruzou os braços, pensativo. "Então... a igreja começou como um abrigo, não uma religião?"

Charlotte assentiu com entusiasmo. "Exatamente. A ideia de adoração veio depois. No começo, as pessoas só queriam proteger o Santuário e os ensinamentos que ele deixou. Começaram a compartilhar suas bênçãos, oferecendo proteção, cura e alimento aos outros. Foi aí que surgiram os primeiros 'Abençoados' — humanos tocados pela mana de Elarin."

"Tocados como?" Noel perguntou.

"Não escolhidos como Santos ou com poderes divinos," ela explicou. "Mais como... inspirados. Eles aprenderam a usar mana para ajudar os outros. Foi a primeira fagulha que levou à formação da Igreja da Primeira Luz."

Noel inclinou a cabeça. "Então tudo foi baseado na bondade e na sobrevivência." (sobrevivência)

Charlotte sorriu. "Sim. E quando Elarin desapareceu, seus seguidores mantiveram o Santuário vivo. Anotaram suas palavras, transmitiram seus ensinamentos e construíram novos santuários por toda Valor, Elarith e Velmora."

Noel perguntou: "Até no continente dos demônios?"

Charlotte respondeu sem hesitar. "Sim, a fé é universal."

'Hmm… se isso for verdade, então o sistema de crenças original nunca foi sobre obediência ou dogma. Era sobre usar mana para ajudar os outros. Isso é diferente do que a igreja parece ser agora.'

Ele assentiu lentamente. "É… mais fundamentado do que eu esperava. Interessante."

Charlotte abraçou o livro ao peito, satisfeita. "Viu? É uma história linda, né?"

"É mesmo," admitiu Noel. "Certo, qual o próximo?"

Ela sorriu de canto. "Aquela que me permite falar sobre meu papel."

Charlotte abriu o terceiro livro com cuidado, De Fogo à Fé: A Ascensão da Doutrina Sagrada de Vaelterra. As páginas eram mais antigas, levemente amareladas, com inscrições fluídas que brilhavam suavemente sob as luminárias.

"Este começa cerca de cem anos depois de Elarin desaparecer," ela começou, com voz firme mas cheia de entusiasmo. "Naquela época, os Santuários já tinham se espalhado pelos três continentes — Elarith, Valor e Velmora. Até as ilhas externas tinham seus próprios templos. Mas, com Elarin ausente, cada Santuário começou a interpretar seus ensinamentos de formas diferentes."

Noel inclinou a cabeça. "Então eles precisaram padronizar a fé."

Ela assentiu. "Exatamente. Foi aí que se criou o Concílio das Chamas. Uma reunião dos Abençoados mais poderosos e sábios. Eles unificaram a doutrina sob uma bandeira só e declararam que mana não era só energia — poderia ser também um presente divino."

'Presente divino, hein… Sempre soa nobre até alguém usá-lo para poder.'

Charlotte virou uma página com cuidado. "Uma das decisões mais importantes deles foi definir o papel do Santo. Diferente dos Abençoados comuns, os Santos nascem com uma ressonância única. Seus corpos naturalmente se ajustam às bênçãos. Essa sintonia permite que eles canalizem mana divina com mais eficiência do que qualquer outra pessoa."

Noel permaneceu impassível. Ele deu uma leve recostada, observando Charlotte enquanto ela virava a página.

"Você não precisa explicar essa parte," disse. "Sei que bênçãos consomem a vida do usuário."

Charlotte hesitou, com a mão pairando sobre a página. Seus olhos se voltaram para ele, e por um momento, o brilho alegre neles esmaeceu — só um pouco.

"Lembro sim," ela falou baixinho. "Na Capital Sagrada, quando você se machucou. Você me pediu para não usar minha bênção. Mesmo estando morrendo."

Noel concordou. "Porque não valia a pena."

Charlotte olhou para o livro. Seus dedos apertaram a capa.

"Foi a primeira vez que alguém me falou isso," ela murmurou. "Que eu não devia desperdiçar minha vida assim. A maioria das pessoas... só exige o milagre."

Ele não respondeu imediatamente. Mas continuou a olhá-la, calmo e firme.

"Por isso não hesitei quando você pediu para vir aqui," ela acrescentou, ainda sem olhar para ele. "Parecia que você me via como mais do que apenas a Santa."

Noel deu de ombros. "Você é mais do que isso."

Charlotte piscou, e seu rosto começou a se iluminar lentamente. "Mesmo que eu seja irritante e diga bobagens às vezes?"

"Não," disse de forma seca. "Você é uma pervertida traidora."

Charlotte gritou dramaticamente, apertando o peito. "Inadmissível!"

Noel sorriu de canto. "Você caiu nessa arapuca." (ficou na dela)

Ela abraçou o livro novamente com uma risada pequena. "Ainda assim… obrigada."

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