O Extra é um Gênio!?

Capítulo 198

O Extra é um Gênio!?

A biblioteca estava silenciosa, envolta na quietude da noite. Apenas algumas luzes cristalinas tênues flutuavam acima, lançando suaves resplendores entre as prateleiras imponentes. O murmúrio habitual de estudantes ou civis já tinha desaparecido há muito — eles eram os únicos restantes.

Charlotte sentou-se ao lado de Noel numa mesa de canto, seus olhos brilhando de entusiasmo. Um volume grosso repousava entre eles, com capa marcada por letras gastas:

"Elarin, o Primeiro: Aquele que Tocou na Mana."

"Este aqui é meu favorito," ela sussurrou, quase reverentemente. "É onde tudo começou."

Noel inclinou-se para frente, com os cotovelos na mesa. Seus olhos analisavam o título, imóveis. 'Aquele que Tocou na Mana…'

Charlotte abriu o livro com cuidado. As páginas envelhecidas emitiram um leve farfalhar ao serem folheadas, revelando uma ilustração de uma figura solitária diante de uma caverna, banhada por uma luz radiante.

"Dizem que, na época, Elarin era apenas um viajante solitário," ela começou, sua voz suave na calma do silêncio. "Ele encontrou uma caverna escondida no extremo norte de Elarith. Ninguém jamais tinha entrado nela antes. E lá, ele sentiu — a mana, pura e viva."

O olhar de Noel não se desviasse da imagem. Seus pensamentos agitavam-se.

'Isso não faz sentido. O livro afirma que ele estava sozinho… mas o diário mencionava dois. Não um.'

Ele se lembrou da caligrafia desgastada e raivosa do Diário do Filho Esquecido.

'Ele era luz. Eu era sombra.'

Charlotte prosseguiu, virando outra página. A próxima imagem mostrava Elarin saindo da caverna, radiante, com mãos que brilhavam.

"Diz que, ao sair da caverna, tudo mudou. Ele passou a curar com um toque. Monstros fugiam ao vê-lo. Até as feras selvagens se acalmavam na sua presença. As pessoas começaram a segui-lo, acreditando que era eleito pelos céus."

Os dedos de Noel batiam distraidamente contra a madeira da mesa. 'Então Elarin virou a lenda… e o outro? Só uma nota de rodapé perdida no tempo?'

Charlotte olhou para ele com um sorriso esperançoso. "Ele foi o primeiro. O primeiro humano a se conectar com a mana. Tudo o que conhecemos começou com ele."

Noel concordou lentamente. Sua voz soou calma ao finalmente falar.

"Certo… o primeiro."

Mas, em sua mente, outra verdade ecoava mais forte:

'A história escolhe seus heróis. Mas nunca conta toda a verdade.'

Charlotte virou outra página, desta vez mostrando esboços iniciais de vilarejos surgindo ao redor dos lugares por onde Elarin passara — templos rudimentares, reuniões abertas, pessoas fazendo reverência diante dele.

"Ele não trouxe apenas poder," disse Charlotte, com admiração na voz. "Ele trouxe esperança. Depois de voltar da caverna, viajou por Elarith, depois para o sul de Valor, e até partes de Velmora. Onde quer que fosse, ensinava as pessoas a usar a mana — com delicadeza, cuidado. Curava os doentes, protegia os fracos e abençoava a terra."

Noel recostou-se levemente na cadeira. O suave crepitar de uma lâmpada de cristal próxima ecoava no silêncio. Lá fora, pelas altas janelas, a cidade de Valon dormitava sob o luar.

'Ele parece perfeito demais,' pensou Noel. 'Como uma lenda alisada pelo tempo. Sem falhas, sem erros. Mas ninguém é assim. Nem mesmo heróis.'

Charlotte traçou com o dedo uma linha de texto. "Foi assim que ele criou a Primeira Bênção. Dizem que foi feita não só com magia, mas também com oração. A Bênção de Vitalis — um presente capaz de purificar venenos e restaurar forças."

Noel assentiu lentamente, olhando para o pergaminho.

"E as pessoas começaram a segui-lo só por causa disso?" ele perguntou.

Charlotte balançou a cabeça. "Não só por isso. Ele… inspirou-as. Sua presença fez as pessoas acreditarem que podiam ser mais. Que não estavam à mercê de monstros ou do destino. E, a partir dessa crença… foi construído o Primeiro Santuário."

O olhar de Noel voltou-se para a imagem: Elarin em pé sobre um altar de pedra, com os braços abertos, banhado pela luz do sol.

'Mas e o outro?'

'A sombra que ele deixou para trás.'

Fechou os olhos por um instante. O silêncio pressionava suavemente ao redor, como o peso de uma verdade esquecida.

"Charlotte," disse em voz baixa, "algum dos textos antigos menciona alguém que viajou com ele?"

Charlotte piscou. "Hmm? Na verdade, não muito. A maioria das histórias diz que ele vagou sozinho. Alguns mitos falam de vozes ou sinais que o guiavam, mas… nunca outro alguém. Por quê?"

Noel deu de ombros, fingindo desinteresse. "Só curiosidade. Parece estranho alguém tão importante não ter cruzado com ninguém na época."

Charlotte sorriu. "Talvez tenha cruzado. Mas talvez essas pessoas não tenham sido lembradas."

Noel a encarou, e por um momento, nenhum dos dois disse algo.

'Exatamente,' pensou. 'Esse é o problema.'

Charlotte virou a última página com uma mistura de reverência e admiração. Sua voz suavizou ao ler o trecho final do livro:

"E então, Elarin ficou face a face com uma criatura desconhecida por todos. Uma entidade de sombra pura, conhecida apenas como O Vazio. Sua luta abalou os céus, queimou a terra, e no fim… ambos desapareceram."

Uma pesada silêncio caiu entre eles. O ar dentro da biblioteca parecia mais denso, como se até as paredes prestassem homenagem ao conto.

"Ninguém mais viu Elarin," continuou Charlotte em tom mais baixo. "Mas… as bênçãos continuaram a se manifestar. Foi quando pessoas com afinidade por elas começaram a nascer… os primeiros Santos."

Noel não respondeu de imediato. Seus olhos estavam fixos na ilustração da última página: uma figura luminosa enfrentando uma forma humanoide sombria.

'Dois entraram na caverna. Um foi lembrado. O outro… esquecido.'

Permaneceu em silêncio, as informações do Diário do Filho Esquecido ressoando em sua mente como uma verdade selada pelo tempo.

Noel recostou-se levemente, olhando para as janelas altas e arqueadas. O suave brilho do luar filtrava-se pelo vidro, formando linhas pálidas no chão.

"Você não acha que já está bastante escuro?" ele perguntou.

Charlotte piscou e seguiu seu olhar. "Sim… já está mesmo."

"Temos cerca de uma hora ainda, certo?"

"Uh-hum. A bibliotecária disse que ficariam abertas mais uma hora, já que amanhã é dia de folga."

"Hm," Noel se levantou, esticando-se um pouco. "Vamos dar uma olhada antes de sair. Quero ver se têm mais alguma coisa sobre a última batalha de Elarin."

Charlotte começou a recolher os livros cuidadosamente. "Espere, eu coloco eles de volta onde estavam. Só um instante."

Ela correu entre as estantes, cantarolando suavemente enquanto devolvia cada livro ao seu lugar. Quando voltou, Noel já se dirigia para a saída, pois não encontrou mais nada sobre a última batalha de Elarin.

Juntos, caminhavam pelo corredor silencioso até o salão principal. A biblioteca, antes cheia de sussurros acolhedores e passos suaves, agora parecia completamente quieta.

Mas quando Noel chegou às portas principais e puxou — nada aconteceu.

Ele puxou de novo. Depois, com mais força.

"…Trancado."

Charlotte piscou. "Hã?"

Ele olhou para ela, depois de volta à porta. "Estão trancadas. Ficamos presos."

Charlotte deu um passo à frente e tentou abri-la também. Nenhuma resposta.

"Ops," ela disse, com tom leve.

Noel levantou uma sobrancelha. "Ops? Sério?"

Ela sorriu sem jeito. "Acho que perdemos a noção do tempo…"

Noel suspirou, passando uma mão pelos cabelos. "Claro que sim."

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